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Falar de maternidade por um momento me assustou. A mãe, grande parte das vezes, acaba constituindo uma ligação muito forte com o filho. Eu saí de casa há pouco tempo e foi mais difícil do que poderia ser por conta da relação que tenho com minha mãe. Muitas das minhas lembranças a têm. Muitas das suas têm ao menos uma de suas três filhas.

Nesta dissertação, como disse anteriormente, entrevisto ao todo quinze mães e cinco mulheres que não entraram na trajetória da maternidade e, talvez, nunca cheguem a entrar, por opção ou por circunstâncias da vida. Além disso, enuncio aqui conversas sobre maternidade de que participei no meu dia-a-dia, ainda que apenas como ouvinte em algumas delas. Procurei diversificar as entrevistadas: grávidas, mães de filhos recém-nascidos, de bebês, de crianças, de adultos. São mulheres, algumas conhecidas minhas, outras, não. De classes sociais, idades, cores, naturalidades diferentes. Todas, porém, brasileiras, residentes no Brasil. É possível identificar, já de cara, hábitos de formulação comuns ao conceito de mãe. Uma associação preponderante nas falas das entrevistadas às palavras: entrega, dedicação, doação, responsabilidade. As mães de crianças falam bastante também em paciência.

No meu grupo de capoeira angola, ao observar as futuras mamães, percebo que o crescimento da barriga não as impede de entrar na roda. Jogam até bem perto do momento de nascimento da criança – e depois passam a levá-las consigo. Acho interessante essa observação porque desmistifica a ideia de que a gravidez impede que a mãe continue a

executar suas atividades até bem próximo do dia do parto. Na capoeira, a observação do jogo de uma mulher grávida com um homem torna explícita a demarcação dos gêneros.

Abordarei neste capítulo a divisão binária que se faz entre sexos e gêneros, tratando da desconstrução da naturalização dessa ideia a partir da perspectiva construtivista de estudos de historiadoras e historiadores feministas da história cultural. Essa abordagem é importante porque a maternidade é naturalmente atrelada à mulher, o que implica uma separação entre dois gêneros e traz à tona muitos discursos reproduzidos em nossa cultura, trazendo ainda a premissa de que a função social da mulher é a procriação, como falava no primeiro capítulo desta dissertação.

Com isso em mente, gostaria de retomar a máxima pragmaticista já enunciada: “considere quais os efeitos que possivelmente podem ter a influência prática que você concebe que o objeto de sua concepção tem. Neste caso, sua concepção desses efeitos é o TODO de sua concepção do objeto” (PEIRCE, 2010, p. 291). A concepção que se tem sobre o conceito de mãe influencia efeitos práticos. Assim a concepção de tais efeitos é o TODO da concepção do conceito. As ações, a forma como agimos eticamente no mundo a partir da nomeação que damos à mãe são os efeitos práticos que concebemos. E esssa nomeação se dá pelos valores culturais. Por isso, no primeiro capítulo trouxe algumas referências que ajudam a compreender certos hábitos advindos da nomeação de mãe.

Nas entrevistas, busco pelos processos de inquirição das mães como selves que tentam entender-se e posicionar-se enquanto mulheres e mães em suas atividades humanas. São inquirições feitas a partir da nomeação e, também, para nomear. Nesse sentido, interpreto as falas dessas mulheres com o entendimento de que existe o ato de filosofar nessa nomeação e ação.

A filosofia é uma ação humana inevitável, seja ela boa ou má. (d’ORS, 1998, p.43). Filosofar e viver a um só tempo, a consciência é a razão da dignidade. No programa filosófico de d’Ors, o ser humano completo trabalha e joga. Ele trabalha quando vence as resistências, considerando a ação humana como interventora no mundo. E, para além das necessidades práticas, o ser humano joga, isto é, contempla interessado o espetáculo de sua luta, pensa só por pensar, e até inventa resistências novas com o exclusivo objetivo de vencê-las. Ou seja, não é mero contemplador, nem simples ator. Ação e contemplação são dois aspectos da mesma realidade íntima, o sentido do homem, sua inteligência.

Trabalho e jogo, no entanto, não devem ser vistos em um dualismo estrito, em que um está completamente separado do outro. Pelo contrário, esses conceitos se encontram em um dinamismo que é o próprio curso da vida. Quando a mulher se encontra com a realidade

de ser mãe, esses processos cíclicos entre trabalho e jogo desenrolam-se para que ela possa se reconfigurar em um novo estar no mundo.

Após Fátima, 36, contar que virou outra pessoa depois de ter filho, eu lhe disse que gostaria que ela falasse um pouco sobre o que a ajudou a se posicionar de outra forma, agora como mãe, se havia sido o desejo muito grande de ter filhos, mencionado anteriormente na entrevista.

É, na verdade, assim, o processo é brutal, porque quando você está grávida, pelo menos essa foi a minha experiência pessoal, apesar de ter tido uma gravidez de risco, de ter passado por algumas coisas, foi um momento muito emocionante para mim. Todo esse lado emocional que se apurou, eu ficava muito satisfeita de estar grávida, feliz, me sentindo feliz e realizada, completa e, quando a criança nasce, vem uma realidade assim chocante, nossa, agora é definitivo! Agora é para sempre! Sabe o bebê não tem como você devolver a criança [...] Então, é bem brutal assim, essa constatação, é... é aquele momento que, minha mãe que falava isso assim, é... vai chegar o momento em que vai cair a ficha pra você, o que é ser mãe, e na hora que cair você vai ver o peso da responsabilidade e, realmente tudo isso te transforma numa outra pessoa. Eu acredito que sim, como era algo que eu queria muito vivenciar, então isso me ajudou a passar pelo processo de uma forma, talvez, mais tranquila.

As transformações no self mãe acontecem, portanto, dentro da lógica dos movimentos de jogo e trabalho. O primeiro trata da imaginação e da contemplação do sentir, que exibem a parte estética da experiência: “foi um momento muito emocionante para mim”, “eu ficava muito satisfeita de estar grávida, feliz, me sentindo feliz e realizada, completa”. O trabalho refere-se às resitências e ações que se interpõem à realidade: “quando a criança nasce, vem uma realidade assim chocante, nossa, agora é definitivo! Agora é para sempre! Sabe o bebê não tem como você devolver a criança”. Pensando na entrevista, a constatação da realidade que seria “para sempre” é uma resistência que pede uma ação como resposta, um trabalho. O movimento de trabalho e jogo é cíclico no ato de filosofar como pressuposto para a vida.