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Uma vez que o objeto desta pesquisa é um elemento de natureza fenomenológica subjetiva, precisei utilizar um método qualitativo de investigação.

Dentro desse método, racionalizei o desenho do estudo inspirando-me no formato proposto por Robert K. Yin (2001) para estudo de caso, em que o trabalho é dividido inicialmente em duas grandes fases: a fase de levantamento de dados e a fase de análise.

A fase de levantamento de dados é aquela em que se estabelecem as estratégias da pesquisa a partir de três seqüências: elaboração das questões da pesquisa, proposições de supostas respostas a estas questões e definição das unidades de análise (objetos que serão estudados).

A análise, por sua vez, baseia-se em dois princípios: na lógica entre os dados e as proposições e nos critérios de interpretação dos achados. Esta é a fase da qual se emanam os resultados que, por seu turno, estruturam-se sobre o espaço teórico pré- estabelecido para a pesquisa.

4.3.1 Fase de levantamento de dados.

4.3.1.1 Elaboração das questões da pesquisa.

Este é o momento da definição do que se pretende pesquisar, dos objetivos da pesquisa, do local da pesquisa, de como desenvolvê-la e de sua justificativa. Define-se o vácuo científico que se quer preencher ao se estabelecerem as perguntas que se pretendem responder. A elaboração das questões da pesquisa nos habilita aos passos estratégicos seguintes, que são a especificação das proposições e a escolha das unidades de análise.

4.3.1.2 Proposições de supostas respostas às questões da pesquisa.

Uma vez estabelecida a dúvida e elaborada a pergunta, com a qual se busca compreendê-la, define-se a lacuna do conhecimento a ser preenchida. Estabelecem-se, então, as hipóteses acerca das questões que se pretendem pesquisar. Essas hipóteses são as supostas respostas às perguntas já elaboradas, e constituem o pretenso conteúdo com o qual se propõe preencher o vácuo científico focalizado pela pesquisa. Esse momento teoriza o objeto pesquisado, contextualizando-o.

4.3.1.3 Definição das unidades de análise.

Partindo, também, da determinação da dúvida e da elaboração da pergunta destinada a esclarecê-la, tenta-se identificar a fonte que possa, teoricamente, conter a resposta que se procura. Elementos de aproximação entre a dúvida e seu esclarecimento são utilizados para a identificação desta fonte, a qual será a nossa unidade de análise. Da interpretação, decodificação, observação, revelação e compreensão desta fonte, exalam- se os dados a serem analisados.

4.3.2 Fase de análise.

4.3.2.1 A lógica entre os dados e as proposições.

De posse dos dados fornecidos pelas unidades de análise, relacionamos as informações assim obtidas com o espaço teórico sobre o qual se estrutura a pesquisa e sobre o qual foram estabelecidas as proposições das supostas respostas às questões. Assim, busca-se a compreensão interpretativa desses dados, transformando-os em achados. A lógica procurada vai sendo encontrada à medida que várias partes das unidades de análise evidenciam relação com uma mesma proposição teórica,

objetivando o achado subjetivo, tornando-o racional e compreensível à medida que vai sendo discutido.

4.3.2.2 Critérios de interpretação dos achados.

As proposições coincidentes àquelas estabelecidas pelo referencial teórico pré- estabelecido, assim como as respectivamente alternativas, são confrontadas no contexto da discussão para que se estabeleça a coerência e a fundamentação dos achados, a partir de balizadores específicos. Nessa etapa, é importante que o pesquisador deixe claro o espaço perimetral das interpretações, dentro do qual estará contido o alcance dos resultados. É quando se estabelecem as limitações do estudo.

O DESENHO Elaboração das questões da pesquisa Proposições de supostas respostas às questões da pesquisa Definição das unidades de análise A lógica entre os dados e as proposições Critérios de interpretação dos achados Fase de levantamentos

(estratégias da pesquisa) Fase de análise

O ESPAÇO TEÓRICO

Resultados

Figura 4 - Representação esquemática do fluxo da pesquisa (YIN, 2001).

Trazendo esse modelo para o campo aplicado desta pesquisa, temos:

a) Fase de levantamento.

- Questões da pesquisa.

Nota-se, na prática assistencial, que a abordagem dos aspectos tradicionalmente discutidos pela literatura como relacionados à aderência terapêutica ao tratamento antiretroviral não é suficiente para alcançar o objetivo da adesão, em alguns casos, e não explica suficientemente a aderência, em outros. Há situações, em que, mesmo sob uma atmosfera facilitadora, o paciente deixa de ser aderente ao tratamento; da mesma forma que, em outras, mesmo diante de um amplo rol de dificuldades, o paciente consegue ser aderente. Que fatores subjetivos estão participando da construção do perfil individual de aderência ao tratamento antiretroviral? Que razões levam uma pessoa a usar corretamente a medicação que combate o HIV? Como que um sujeito se torna observante à terapia? Que valores, significados e representações, relacionados à infecção pelo HIV e seu tratamento, estão presentes na existência daqueles que conseguem ser aderentes à terapêutica?

- Proposições de supostas respostas às questões da pesquisa.

Diante do fato de que a vida de portador do HIV é estruturada sobre as representações da infecção por esse vírus, conforme descrevi em estudo anterior (SOUTO, 2002), proponho que a aderência ao tratamento antiretroviral seja focalizada através do fenômeno definido pela percepção do diagnóstico e seu enfrentamento, uma vez que, possivelmente, o processo pelo qual tal aderência se constrói seja influenciado pelas mesmas representações da infecção pelo HIV.

- Definição das unidades de análise.

Para compor os tópicos anteriores precisei interpretar e compreender o relato sobre a vida, sobre a infecção pelo HIV e sobre o uso de antiretrovirais, feito por pessoas que vivenciam tais questões em seu cotidiano.

b) Fase de análise.

- A lógica entre os dados e as proposições.

A partir da análise interpretativa do conteúdo temático de um conjunto de discursos de pessoas infectadas pelo HIV e sob prescrição de antiretrovirais, no contexto da respectiva história objetiva de vida e observação do comportamento, relacionei os achados daí resultantes com o espaço teórico estabelecido pela revisão da literatura que sustentou esta pesquisa, buscando sua compreensão. A lógica da

interpretação foi se definindo à medida que a decodificação dos discursos foi

concordando ou concorrendo com determinadas proposições teóricas pré-estabelecidas, tornando os achados racionais e compreensíveis no espaço da discussão.

- Critérios de interpretação dos achados.

Confrontei os achados com o referencial teórico estabelecido pela revisão da literatura e outras leituras adicionais referenciadas, objetivando a sua coerência e fundamentação, delimitando o alcance dos resultados e assegurando sua sustentação.