• No results found

Sem dúvida há muitas questões relevantes no contexto de migração do campo para periferias de pequenas cidades do interior: o aumento na utilização de máquinas e insumos agrícolas; o encarecimento dos custos de produção; as expulsões e expropriações; as vivências e a dinâmica dos fluxos migratórios; a perda e desqualificação do saber tradicional, frente a outro saber gerado fora dos marcos da agricultura; a perda do saber ligado à indústria doméstica, principalmente para as mulheres. Mas me atenho aqui sobretudo às questões que envolvem as relações familiares.

Na transição, as mulheres perderam algumas de suas funções tradicionais, como o cuidado de animais, a fabricação de farinha, o beneficiamento e a conservação de alimentos, etc., sem que tal perda fosse compensada pela aquisição de novas funções qualificadas (CAPPELLIN, LAVINAS, 1991, p. 34). Além disso, apesar da individualização do trabalho, ainda era preciso unir esforços dentro da família, já que os salários eram muito baixos. Mas algumas tensões são introduzidas na família, pois ela deixa de funcionar como uma unidade de trabalho (STOLCKE, 1986, p. 348). Ainda que a cooperação no trabalho não tenha se dissolvido completamente – pelo menos em um primeiro momento –, passa a se restringir a arranjos para aumentar a produtividade, a substituições quando há a necessidade de falta e ao período de aprendizado dos mais jovens na lavoura. Assim, a união dos rendimentos, centralizados na figura do marido/pai, fica, de certa forma, artificial.

Para Stolcke, “(...) o trabalho assalariado individual pôs em questão a estrutura tradicional de autoridade e o espírito cooperativo da família, porque, embora os papéis sexuais não tenham

sido redefinidos a individualização do trabalho eliminou algumas das funções do marido/pai como chefe de família (...)” (1986, p. 348). Nesse sentido, além dos conflitos gerados pela manutenção da coesão familiar e pela partilha de recursos, a questão da autoridade do homem, e sua legitimidade, parece central.

Observando processos trabalhistas de colonos e moradores de fazendas, é possível inferir que essa autoridade paterna fosse, em alguma medida, questionada nas unidades familiares de produção agrícola, já que em alguns casos140 mulheres e filhos reivindicavam seus direitos

enquanto trabalhadores individuais e as mulheres podiam demandar a equiparação salarial141

com o marido. No entanto, são notáveis os conflitos desencadeados e/ou acirrados no contexto da individualização do trabalho rural e da migração para a cidade.

Nos casos de Ana e Nina, há, por exemplo, uma quebra de expectativas na forma como os recursos são administrados, na medida em que financiam também o lazer individual do chefe de família, em detrimento das necessidades coletivas142. Nesse sentido, a noção da economia

moral parece ressoar também na análise das relações em família, na medida em que ela deixa

de funcionar como uma unidade de produção e se reelabora também a partir percepções morais e costumeiras partilhadas.

O homem, por sua vez, perde o lugar de distribuição e controle das tarefas familiares, e deixa de ser aquele que recebe o pagamento, funções que legitimavam sua autoridade na organização familiar tradicional. O emprego dos demais membros também não depende mais do seu e, além disso, muitas esposas e filhos passaram a conseguir maior remuneração no período da safra, quando o salário é mais comumente vinculado à produtividade. Essa questão trouxe uma série

140 P. 653/75, 506/76, e P. 1304/76 da JCJ de Ribeirão Preto. 141 P. 653/75 da JCJ de Ribeirão Preto.

142 Nina cita a falta de pagamento de água, luz, aluguel e até da compra de alimentos pelo marido que comumente frequentava bares e também ressalta um maior empenho, por parte de sua mãe, para conseguir recursos para a família, em comparação com seu pai. Ana, por sua vez, menciona a decisão do pai de não se inscrever em um programa habitacional, na medida em que priorizou o seu lazer em detrimento da obtenção de uma casa própria para a família. Ela também reclama da falta de eletrodomésticos para auxiliar o trabalho doméstico, materializada no tanquinho.

de conflitos ligados à reafirmação de sua autoridade, muitas vezes através da violência, além de ser permeada pelo alcoolismo143.

O contraste entre a carga de trabalho de mulheres e homens também se acentuou. Se, no trabalho agrícola de base familiar, toda a família aparece empenhada em tempo integral na produção do

viver, na cidade, as mulheres estão inteiramente disponíveis, enquanto o trabalho dos homens,

nas palavras de Ana, “é só trabalhar”, ou seja, ocorre apenas no horário estabelecido pelo qual eles são pagos. A atividade doméstica é desvalorizada e precisa ser realizada em horas extremas – ou muito cedo, ou à noite – e em dias destinados ao descanso, reduzindo consideravelmente o tempo de repouso das mulheres (ROSSINI, 2010, p. 130). Além disso, o cuidado dos filhos é dificultado pela distância entre a casa e o trabalho.

Faz-se necessário também pontuar a condição de maior precariedade com que as mulheres são absorvidas no trabalho rural assalariado, com remuneração mais baixa e menor percentual de registro em carteira. Ainda que haja subvaloração nos dados, uma pesquisa do Instituto de Economia Agrícola de 1987 nota o aumento das mulheres entre os trabalhadores volantes agrícolas, em especial no período da safra. Varia, no entanto, consideravelmente o número de mulheres mês a mês, o que indica que muitas delas não possuíam nem mesmo um contrato de safrista. No mesmo sentido, pesquisas como de Cappellin e Lavinas (1991) e de Saffioti e Ferrante (1986) apontam um crescimento da participação feminina em especial como diaristas, também por possibilitar uma menor assiduidade, facilitando, assim, a conciliação do trabalho doméstico e da maternidade com a lavoura.

De fato, Argentina T. de Souza, Ana M. da Rocha, Nina dos Santos e Zilda Bezerra – informantes desta dissertação – trabalharam na cana em grande medida por meio de contratos

143 Certamente não se pode generalizar a ocorrência de violência doméstica e de alcoolismo. No entanto, é importante destacar que, além de serem experiências explícitas ou implícitas no relato das quatro entrevistadas para essa pesquisa, ela também aparece em importantes estudos sobre mulheres e assalariamento agrícola no interior de São Paulo, como o de Silva (1999) e o de Solcke (1986), que associa essas condutas, assim como a infidelidade, ao sentimento de perda da autoridade e autoestima, que teria afetado particularmente a identidade social dos homens, na migração para a cidade (STOLCKE, 1986, p. 376). Ela também apresenta como questão conflituosa o fato de as atividades de lazer masculinas desviarem recursos familiares (STOLCKE, 1986, p. 374- 375), percepção consoante com os relatos aqui analisados. Assim, a violência e o alcoolismo do parceiro, mais do que experiências individuais, parecem ter sido parte relevante do horizonte de possibilidades entre as mulheres que transitaram do trabalho rural familiar para o assalariado, no contexto pesquisado.

de safra, muitas vezes sucessivos, além de, nos anos 1990, terem experimentado o contrato por tempo indeterminado (a exceção de Argentina, que já havia se aposentado). Contudo, nota-se que todas tiveram um período, maior ou menor, de trabalho esporádico, principalmente quando menores de idade, após a maternidade, e nos últimos anos antes da aposentadoria. Todas elas, do mesmo modo, tiveram o cotidiano marcado pela conciliação do trabalho doméstico com o trabalho “para fora” e precisaram lidar com conflitos decorrentes desse novo arranjo familiar. As diferentes modalidades de trabalho (por empreita, por diária, por produção e por hora) e a divisão por sexo e idade do trabalho da entressafra também parecem camuflar uma parte das desigualdades.

Assim, ainda que nas unidades familiares de produção agrícola a divisão sexual do trabalho e as questões hierárquicas ligadas a gênero se apresentem de forma acentuada – tanto nas falas de Ana e Nina, quanto na bibliografia144 – as mulheres, na cidade, se deparam com dupla presença, a exaustão, a desvalorização do trabalho doméstico, a maior precariedade no trabalho – em relação aos homens –, podiam enfrentar uma menor autonomia para a subsistência quando não têm acesso aos próprios rendimentos, nem acesso a um roçado. Ademais, em contraste como os dados, Ana e Nina têm a percepção de que as mulheres se empenham e até se sacrificam mais do que os homens para a obtenção de recursos para o núcleo familiar.

As usinas sempre tiveram mais mulheres do que homens. Eu tenho comigo que é porque, para a mulheres, o que manda é a precisão, elas não fogem de... E o homem não. Eu tenho irmão que a minha mãe falava: “entra na roça para cortar cana”, e ele [respondia]: “eu não, não sou cachorro”. Então, eram poucos homens que tinham coragem de enfrentar o facão. Mas, as mulheres não, enfrentam qualquer coisa, tinha turma que às vezes tinha mais mulher que homem. Por esse motivo, porque as mulheres não escolhiam serviço, eu mesma, nunca escolhi (...). As mulheres não ficam escorando... o que precisar, elas fazem, elas vão e enfrentam145.

Se, por um lado, as trabalhadoras rurais já foram encaradas como mais dóceis ou submissas, é extraordinária a força embutida nesses depoimentos, assim como os deslocamentos nas relações de gênero, conquistadas por meio de resistências empreendidas em atos aparentemente silenciosos. Além disso, o fato de o trabalho estar organicamente, para elas, tanto na “produção” quanto na “reprodução”, as dá uma maior dimensão do processo de trabalho (NORONHA,

144 Nobre (1998); Heredia (1979, 2006); Garcia, Garcia Jr. e Heredia (1984); Garcia Jr. (1983); Stolcke (1986); Noronha (1986); Oliveira (1984); Menasche (2004); Silva (2007).

1986, p. 50). É justamente a partir desta percepção que elas parecem analisar as possibilidades e elaborar as estratégias cotidianas de luta por melhoria das condições de vida e por direitos, seja fora ou dentro de casa.