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Segundo Belingüer (1978, p.52), as doenças são conseqüências da forma como o homem relaciona-se “com a natureza, através do trabalho, da técnica e da cultura” e de relações sociais determinadas, ou seja, as doenças se diferenciam em sociedades e épocas distintas. Corroborando o autor, Queiroz (2003) acrescenta que a saúde e a doença dependem da relação do próprio organismo e deste com o seu contexto sociocultural.

Os idosos desta pesquisa recorrem a diversos meios de ajuda capazes de exercer uma ação curativa, no que se refere às doenças. Freqüentemente, eles buscam, em primeiro lugar, o atendimento médico, seja através do Agente de Saúde, indo diretamente à USF, ou, em casos de urgência, dirigindo-se ao Pronto-Socorro local.

Muitos deles mantêm-se com a terapêutica medicamentosa e os medicamentos utilizados em geral são alopáticos, por vezes prescritos por médicos, mas a maioria das vezes são adquiridos diretamente na farmácia, ou através de empréstimo de vizinhos, meios utilizados em virtude da facilidade do acesso e por não gostarem do atendimento da USF, como indicaram alguns dos idosos entrevistados. Percebe-se, contudo, que há uma credibilidade muito grande, e porque não dizer fé, com relação à procura pela farmácia do bairro, fato que, mesmo havendo outras alternativas para alguns, todos referem-se, em algum momento,à farmácia.

De acordo com Queiroz (1991), estudos sobre representações de saúde e doença com farmacêuticos de Paulinea/SP e apontaram que na ausência do médico, esse profissional é o principal agente de informações sobre medicina e medicamentos prescritos no diagnóstico das doenças. O autor acrescenta que o aumento da indústria de medicamentos restringe o papel do farmacêutico a um mero vendedor de balcão, diferentemente daquele que detinha o poder de cura reconhecido pela população. Segundo Boi de Reis, que não gosta de ir ao Posto, sempre que precisa procura o farmacêutico, no bairro vizinho e diz:

“A minha saúde Graças a Deus é até boa. Sinto uma dorzinha no espinhaço....Quando fico doente vou ao Seu B.(dono de farmácia), pois quando vou ao Posto sou mal-atendido....Seu B. passa um remédio bom, e tamos conversado! Ali dar remédio bom!”

De acordo com Adam e Herzlich (2001), saúde e doença são a linguagem do indivíduo relacionando-se com o social. Na sociedade moderna, a doença passa a ser interpretada como uma relação de conflitos entre os seres humanos e o ambiente social como

um todo, diferentemente das sociedades tradicionais, em que causas das doenças estavam ligadas às relações em uma determinada comunidade, ou em pessoas com o sobrenatural.

Para Cruzeiro do Sul, quando procura soluções para suas doenças ou mal-estar utiliza-se dos mais variados tipos de agentes de cura: o farmacêutico, vai ao Posto ou Pronto- Socorro em caso de urgência, como também utiliza a medicina caseira através de diferentes chás, principalmente aqueles denominados de calmantes. Segundo ela:

“Tenho doença dos nervos...Tem vez que choro, só falto me acabar...tenho tomado chá de erva-doce, camomila, laranja... Sempre vou ao Seu B. e compro remédios, estou sempre me tratando...s Procuro o Pronto-Socorro,o posto e o farmacêutico” (Cruzeiro do sul).

Apenas um dos idosos utiliza a religião ou a fé em Deus no enfrentamento dos problemas de saúde. Anjo tem artrose nas pernas, sente muita dor e tonturas, e afirma que a fé que tem em Deus, é a melhor terapêutica para resolver os seus problemas de saúde.

“Eu vivo pelo domínio de Deus. É ele que dar a todos nós. Eu me socorro de Deus...as orações estão sempre presentes todos os dias. vejo e ouço vozes, vejo anjos....converso com árvores.... alguns me acham Santo....Eu curava com um livro, mas desapareceu, me roubaram esse livro”(Anjo)

Frankl (1989, p.282) mencionado por Negreiros (2003b), afirma que a espiritualidade é um valor que dá rumo à vida e suscita esperança, algo desejável na maturidade do ciclo vital. Nessa perspectiva, Goldstein e Néri (1993) indicam que religiosidade e espiritualidade aumentam com o avançar da idade e que estão presentes na grande maioria das pessoas idosas.

Contudo, apesar da religião não ter sido tão enfatizada pelos participantes do estudo, como prática de ir a igreja, freqüentar os templos e praticar os rituais religiosos, observa-se que a fé num ser supremo aparece sempre no cotidiano dos idosos desta pesquisa, seja em forma das imagens dos santos cristãos, encontradas nas casas visitadas, seja no uso da palavra Deus, durante as entrevistas, sempre que se referiam a algo que almejassem ou mesmo para agradecerem, ou mesmo nas orações, preces ou em romarias a Padre Cícero, Juazeiro/CE.

“A visão religiosa é a própria substancialização da organização social, sendo o culto a Deus não mais que um culto disfarçado às sociedades que o indivíduo depende”.

Dessa forma, a doença passa a ser interpretada como “benção-meios” reordenando o universo da pessoa ou da sociedade em situação de caos.

Para o idoso Anjo de 84 anos, observa-se, através de sua fala e seus gestos, uma forte religiosidade, ao se referir aos seus poderes sobrenaturais, informando que tem visto anjos, sonhado e conversado com sua mãe, o que, para algumas pessoas que residem nas proximidades da sua casa e o conhecem, o consideram um santo. Freqüentemente lê um livro que adquiriu há muito tempo sobre histórias bíblicas; é um livro amarelo, que, de acordo com ele, tem emprestado bastante, pois as pessoas vêm procurar. Refere ainda conversar com árvores e que algumas vezes se sente flutuando. Houve um tempo que curava as pessoas através de um livro, mas o roubaram e, desde então, não tem realizado curas. Segundo Minayo (1998), as pessoas devotas se auto-atribuem alguns poderes sobrenaturais e referem para si e para o seu grupo o poder de alterar o mundo natural das coisas, lugares, objetos.