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Vagando pelos sertões, trabalhando quando conseguiam uma diária, muitos homens estigmatizados, principalmente pela cor da pele, compunham a grande massa denominada de vadios que passou a viver na vila de Sobral a partir de sua criação. Dos ofícios existentes na vila, naquele momento, notamos que os pobres livres atuavam nos ofícios mecânicos, como ferreiros, carpinteiros, sapateiros, entre outros, e no comércio interno, vendendo secos e molhados vindos das serras.

Nas fazendas de gado e nos sítios de lavoura, contudo, não podemos fazer uma análise com mais propriedade acerca da utilização da mão de obra livre, pois essa não foi declarada em nenhum documento dos quais tivemos acesso. No entanto, pela quantidade de produção e de escravos declarados, inferimos que a mão de obra livre estava presente, em maior quantidade que a escrava, em todos os setores de produção econômica. A quantidade da população levantada, no início do século XIX, demonstra uma predominância de homens livres e a maioria desses sujeitos era composta por negros e mestiços. Segundo Souza (2011, p. 8-9),

No censo de 1804, a população da Vila de Sobral era composta de 9.952 habitantes. Os brancos eram 2.781, pretos e pardos livres, 4.193 e pretos e pardos escravos somavam 2.978. Ou seja, 72% da população eram compostos por negros e pardos (livres e escravos). Se levarmos em conta que nem todos os brancos tinham posses, vivendo do trabalho nas fazendas, nos sítios ou na vila, somados aos pretos e pardos, formavam uma grande massa que podemos classificar como pobres livres, os quais estavam ligados entre si por meio das atividades econômicas. A ligação desses homens por meio dessas atividades nos mostra uma sociedade, na qual as relações econômicas foram fator de interação social, aproximando os sujeitos de todos os estamentos. As teias de relações econômicas criadas na vila de Sobral deram origem a uma sociedade forte e exportadora, que não precisou importar produtos de primeira necessidade, pois os itens produzidos nos sítios abasteciam a vila e seu termo, sendo alguns deles exportados para Pernambuco. Essa produção crescente e a quantidade de escravos,

declarados nos documentos, demonstra a disparidade entre a produção e a mão de obra, como vimos no Registro de Plantações e Criações.

Encontramos a produção de Maria Álvares Pereira, que declarou, no levantamento de 1788, ter fazenda de gado às margens do rio Jaibaras, da qual declarou ser proprietária e moradora. Na fazenda ela tinha 40 caprinos, 32 ovinos, 66 cabeças de gado cavalar e 163 cabeças de gado vacum, dos quais ela vendeu 19 cabeças, denominadas gado de açougue, a Manoel Rodrigues Ribeiro, no porto de Itapajé para serem transportados por mar para Pernambuco. Ela possuía também três escravos, que não conseguiriam cuidar de tudo sozinhos. Se ela não tivesse filhos, talvez tivesse moradores agregados ou pagaria a trabalhadores livres. Maria Pereira declarou possuir também um sítio no pé da Serra Grande, do qual seria apenas proprietária. Nesse sítio, em dois anos, foram plantadas quatro mil covas de mandioca e, em um dos anos, produziu-se trinta e seis alqueires de farinha. Ela não declarou ter moradores, nem ter pago trabalhadores livres para essa produção de farinha. O milho foi outro item que ela declarou ter plantado. É provável que ela tenha produzido outros itens, como feijão e, em menor escala, o arroz, que era bem comum.80

Mesmo quem teve uma produção menor necessitava de mão de obra para a produção. João de Sá Pessoa, que tinha um sítio de trezentas braças de comprido e plantou cinco mil covas de mandioca, além de milho, feijão e algodão, declarou que colheu, desse último item, três arrobas com caroço e que continuava a colheita. Também produziu azeite de carrapato que vendeu na vila. Se pensarmos em uma família numerosa, com pai, mãe e vários filhos, essa produção poderia ser para a subsistência da família, mas o algodão, provavelmente, tenha sido vendido, assim como a farinha produzida, pois a quantidade plantada daria em torno de cinquenta alqueires de farinha. A quantidade de pessoas para produzir essa farinha, assim como a de Maria Pereira, não era pequena e ele não possuía escravos.81

80 Registro de Plantações da Câmara de Sobral. Rellação das Plantaçoens, e Vereaçoens, de

todos deste termo, que na conformidade da Ordem do Ilmo. o Exmo. Snr. Gor. e Capão. Destas Capitanias deve fazer a Câmara desta Va. e remeter ao mesmo Snr. Sobral. 20 de novembro de 1788. NEDHIS/ UVA. Cx. 21, Tomos I e II, p. 324.

João de Sá declarou possuir também um sítio de criar gado, mas possuía apenas 20 cabras e quatro cavalos. Também se declarou proprietário da terra, enquanto do sítio de plantar declarou-se proprietário e morador. Acreditamos que tanto João de Sá quanto Maria Pereira teriam moradores rendeiros ou pagariam trabalhadores livres. Infelizmente, essas informações não estão disponíveis em nenhum dos documentos analisados, ou seja, nada foi informado sobre o tipo de mão de obra utilizada. Porém, pela quantidade de escravos declarada, inferimos que a mão de obra livre foi muito utilizada no termo da vila de Sobral. A maioria dessa mão de obra era composta de mestiços e negros livres. Parte desses homens também trabalhou, na vila, no pequeno comércio e nos ofícios mecânicos. Os trabalhadores manuais, apesar de sofrerem com o estigma, acumularam pecúlio e a visão de ofício degradante demorou a se dissipar.

Essa visão degradante para quem desenvolvia algum trabalho mecânico continuou durante todo o século XVIII, mesmo com o aumento da população envolvida com esse ofício. O comércio também demorou a ser reconhecido como trabalho valoroso. Mesmo com a quantidade de pessoas desenvolvendo os mais variados tipos de trabalhos, tanto os homens que tratavam com o comércio quanto os que desenvolviam trabalhos mecânicos foram vistos como impuros.