Experiments and Results
4.2.1 Real-Life Threat Knowledge Graph
Diante dos resultados apresentados, minhas hipóteses foram comprovadas, uma vez que os jornalistas tiveram um baixo desempenho na realização dos exercícios gramaticais. Isso mostra que é crucial para o ensino a diferença entre saber a variedade padrão escrita e saber a gramática tradicional. Os jornalistas, ao lidarem com a escrita todos os dias, sabem intuitivamente essa diferença, pois escrevem bem os textos e não conseguem, na maioria das vezes, empregar a nomenclatura gramatical e, por conseqüência, não demonstram entendimento sobre os conceitos
de, por exemplo, oração subordinada, das classes de palavras e dos itens da análise sintática. Como se verá no sexto capítulo, os textos dos jornalistas enquadram-se nas regras da escrita padrão e são produzidos adequadamente em relação aos princípios da textualidade, às meta- regras e aos princípios reguladores.
A atuação pouco satisfatória dos jornalistas serve de indício forte para que os docentes do ensino fundamental, principalmente, parem de perder tempo com a aplicação de exercícios para a identificação de nomenclaturas. Pior ainda é quando o texto serve de pretexto para se identificar sujeito, predicado, orações subordinadas e coordenadas, agente da passiva, adjunto adnominal, etc. Muitos estudiosos demonstram a ineficácia desses exercícios e, para elucidar minhas considerações, cito Perini (2003, p. 48) que declara:
O aluno de terceiro ano primário já está estudando as classes de palavras e a análise sintática – e não sabe. Ao chegar ao terceiro colegial, continua estudando a análise sintática e as classes de palavras – e continua não sabendo. Um professor de português, mesmo que de colegial, não pode entrar na sala esperando que os alunos dominem a análise sintática, ou que possam distinguir uma preposição de um advérbio, sob pena de graves decepções. E eles estudam esse assunto há oito anos, às vezes mais! Decididamente, alguma coisa está muito errada.
Acredito, como Perini, que alguns dos problemas no ensino de gramática referem-se aos objetivos, à metodologia e à organização lógica. Os objetivos, normalmente, são copiados de livros didáticos e de programas já existentes na escola. A metodologia é basicamente centrada na execução de exercícios baseados em frases soltas, com o intuito de empregar a nomenclatura dos compêndios normativos. A carência de organização está ligada à apresentação de conteúdos sem ligação um com o outro, sem interferência imediata na produção escrita e, por último, remete à confusão conceitual entre as gramáticas como, por exemplo, na definição do sujeito como um ser do qual se declara algo ou como quem pratica a ação. Diante desses problemas, e por constatar
que o ensino exaustivo da gramática tradicional normativa não possibilita o trabalho com a escrita e a re(escrita) de textos, defendo que a gramática não deve servir como método de ensino da variedade padrão escrita. Não adianta ficar ensinando conceitos, regras soltas e identificação de nomenclaturas, pois um dos objetivos primordiais da escola – ensinar a variedade padrão escrita – não será atingido.
O mau desempenho gramatical dos jornalistas confirma os pressupostos da Lingüística apresentados nas teses de Possenti (1996). Quando o lingüista menciona o fato de a função principal da escola centrar-se no ensino da variedade padrão, ele está mostrando que é uma necessidade social para qualquer classe. Não é apenas transmissão pura e simples dos padrões da classe prestigiada. Em uma outra tese, ele postula que é importante saber o que estamos ensinando e a quem. Isso remete aos três problemas apresentados por Perini (2003), em que os objetivos, os métodos e a organização no ensino precisam estar bem delineados. É preciso ter em mente que a escola ensinará a variedade padrão escrita a quem conhece bem uma grande parte das variedades da oralidade. Não se devem negar as manifestações lingüísticas dos falantes apenas para a introdução de outra variedade. Além de negar pressupostos lingüísticos, como o de que não há língua melhor que outra, superior e mais civilizada, a contribuição para a perpetuação do preconceito lingüístico torna-se inevitável.
A última tese – Ensinar língua ou ensinar gramática – é de fundamental importância para justificar a atuação pouco satisfatória dos jornalistas. Não adianta insistir em ensinar gramática normativa do modo como foram os exercícios passados aos jornalistas, uma vez que o objetivo principal de que fala Possenti, sobre a função da escola em ensinar o padrão, jamais será atingido. Aprende-se a escrever, escrevendo, lendo e reescrevendo. Saliento a importância de se mostrar as regras da escrita padrão através dos mecanismos de retextualização em que se trabalharão as diferenças do oral e do escrito, dos gêneros e dos tipos textuais. Acredito nessas práticas e as
defendo com veemência porque faço com meus alunos e os resultados são muito melhores. Os próprios jornalistas frisaram a leitura e o escrever constantemente como atividades importantes para o aprimoramento da escrita.
Torna-se imprescindível salientar que os tipos de exercícios executados pelos jornalistas não cabem mais para o ensino. Principalmente quando se vêem os avanços da Lingüística através dos estudos da variação, da Análise do Discurso, da Lingüística Textual e das reflexões sobre norma culta, gêneros e tipos textuais. A língua é um grande sistema em que há subsistemas representados pelas variedades lingüísticas que comportam regras para falar e escrever. Essas regras são constituídas e formuladas com base no uso e, por esse motivo, com o tempo, podem mudar. Sobre a fala culta, o projeto NURC vem realizando estudos importantes. Sobre a variedade escrita padrão, pautada nos textos jornalísticos atuais e técnico-científicos, existe a tese de Lima (2003), que representa um grande avanço para a análise das regras da escrita não mais baseadas em textos literários. Pode-se dizer que não é uma norma subjetiva, não está baseada em padrões ideais, mas em padrões reais, conforme expressões usadas por Rodrigues (2002), embora coincida muito com as prescritas pela gramática normativa.
Para finalizar, faz-se necessário citar respostas de alguns jornalistas presentes no questionário, quando se faz a seguinte pergunta: Para você, há diferença entre saber reconhecer a nomenclatura gramatical e escrever na modalidade padrão (culta) da língua?
Apenas os jornalistas 5 e 7 (J5 – “não, mas acredito que a pessoa que souber reconhecer a nomenclatura gramatical tende a escrever bem; J7 – não”.) disseram não. Eles acham que quem souber a nomenclatura demonstra tendência em escrever bem. O JORNALISTA 5, nos exercícios gramaticais, acertou quarenta e nove itens (64%) e o JORNALISTA 7 obteve vinte e dois acertos (29%) para um total de setenta e sete. Embora J7 tenha tido um desempenho pior que o de J5, considerando a soma dos acertos, a atuação de J5 não foi tão boa assim.
Os outros catorze jornalistas responderam que há diferença entre reconhecer a nomenclatura e escrever na variedade padrão. Apresento apenas a resposta dos jornalistas J1 e J15 como resumo das idéias dos outros: (“J1- acho que aprender gramática passa a ser intuitivo com a prática constante. È igual a andar de bicicleta, a gente nunca esquece; J15 - sim. Pelo menos no jornalismo, ao escrever um texto, o profissional não tem sequer tempo de pensar quem é o sujeito, o objeto direto ou o advérbio da oração. No entanto, ele precisa desses elementos pra elaborar a matéria”). A metáfora, “andar de bicicleta”, mostra bem a diferença do que se quer demonstrar. Não é preciso conhecer as partes de uma bicicleta, e as funções de cada parte, para saber andar. Assim é com a língua. Não é necessário o conhecimento de como funcionam todos os processos para o aprendizado das variedades da fala. Para o aprendizado da escrita, a situação é a mesma. Não é preciso conhecer a gramática tradicional normativa para escrever adequada e corretamente de acordo com regras lingüísticas e pragmáticas, por exemplo. A maioria dos jornalistas mostrou a veracidade dessa afirmação quando acertou poucos itens, nos exercícios gramaticais.
Não estou afirmando que nenhum jornalista não conheça a gramática tradicional. É possível que existam aqueles que conheçam todo o aparato teórico dos compêndios normativos e escrevam bem. O contrário também é verdade e acredito muito mais no fato de que existam pessoas que desconhecem a teoria gramatical e elaboram textos escritos de acordo com as regras da variedade padrão. Os dados que tenho nesta pesquisa confirmam minha posição.
6 - Os textos dos jornalistas.