Em suas Questões de Literatura e de Estética, Bahktin (1998 P.75) critica as análises estilísticas que se limitam a rotular uma posição dentro de um gênero. Em lugar de se analisar o estilo do romance, diz ele, é dada uma descrição da linguagem do romancista; ou se destaca um dos estilos subordinados e se analisa como um todo.
Ora, diz Bakthin, o que marca o romance é a estratificação interna da linguagem, a diversidade social dessas linguagens e a divergência das vozes individuais que ela encerra.(op.cit. P.76).
Analisar, pois, o estilo romanesco separadamente da linguagem individualizada do autor, torna imprecisa e deformada a essência estilística do romance.
Theresa Margarida demonstra sua intenção direta e espontânea que caracteriza essa atmosfera romanesca, que poderá adquirir um caráter polêmico e interno, dialogizado, caráter este que pode aparecer em todos os gêneros, mas só se desenvolverá de forma complexa e profunda, em busca da perfeição, no gênero romanesco.
É a opção da autora desse protorromance, que foge da palavra rica da poesia que só o poeta diz, para cair na concentração das vozes multidiscursivas que fazem fundo para sua própria voz: são as vozes que ela já interiorizou, como a “felicidade familiar”, a “injustiça inquisitorial”, o “silêncio feminino”, os “gastos reais”, dentre outras.
Na falta de suas próprias palavras, Theresa Margarida tenta expressar o pensamento na linguagem de outros – como as citações constantemente utilizadas – e mede o seu mundo com escalas lingüísticas alheias.
Para tanto, já no Prólogo, a autora portuguesa apela para as mulheres exemplares imortalizadas pelos homens, tais como:
Zenóbia – esposa de Odenato, rei da Síria, que, escravizada por Aureliano, soube manter sua honra com coragem e cautela;
Estratônica – virtuosa e bela, citada por Camões, em El Rei Seleuco;
Políxena – filha de Príamo e amada de Aquiles (morto por Páris). Manteve-se fiel ao amor e aos seus princípios;
Cornélia – viúva de Tibério, considerada culta e reformista, mostra-se virtuosa e séria, contra ideais da classe alta.
Assim se detecta o plurilinguismo no romance:
Todas as palavras e vozes que povoam a linguagem são vozes sociais e históricas que lhe dão significação concreta e que se organizam no romance, expressando a posição sócio- ideológica do autor no seio dos diferentes discursos de sua época. (BAHKTIN op.cit P.107).
Nas Aventuras de Diófanes, se Belino falasse como homem, haveria a comicidade dos limites, das fronteiras, já que o leitor reconhece o travesti. Mas a permanência do discurso feminino em Hemirena travestida torna o texto, dramático (pseudoparódico).
Como autora, Theresa Margarida tem consciência da linguagem do mundo em que vive, onde o plurilinguismo mostra um leque de opções imagéticas que caracterizam gêneros sexuais, posições políticas, tendências literárias, posturas culturais.
Do grupo dos “estrangeirados”, herda esse olhar periférico que vê além das fronteiras portuguesas, a cultura familiar, o cumprimento do dever social e doméstico, a postura feminina da filha que atende aos apelos autoritários do discurso paterno. Da posição social ocupada, Theresa Margarida herda a consciência das limitações de gênero sexual, e seu maior mérito é ser transgressora, rebelde, produzindo um texto que se coloca no pólo oposto às tendências comuns permitidas ao gênero feminino.
Como personagem, Hemirena é, essencialmente, a mulher que fala, o que caracteriza o principal objeto do gênero romanesco.
A representação – comum ao gênero teatral – tem, no romance, duplo papel: a representação artística verbalmente reproduzida e a representação discursiva da própria personagem. Sendo um ser social, Hemirena tem uma linguagem social plurilinguística, onde surgem as ideias do grupo estratificado em que Theresa Margarida a coloca.
Quando transformada em Belino, a personagem não modifica sua posição discursiva feminina; ao contrário, é ainda mais reforçada, professada mesmo com base ideológica na autora. As virtudes exaltadas, a posição de defesa contra os males do amor, a necessidade de proteção, as lágrimas copiosas e constantes são parte intrínseca do objeto romanesco desenvolvido pela escritora portuguesa.
As ações de Hemirena / Belino são sempre sublinhadas por essa ideologia, considerado o conceito já citado de Althusser (1972), de que ideologia é o processo através do qual as pessoas vivem suas relações com a realidade.
É certo que nos romances futuros do século seguinte aparecerão heróis que apenas falam, sem grandes ações, que terão de recorrer a intervenções mágicas (sonhos, reflexões, objetos) para se tornarem heróis.
Mas neste protorromance do século XVIII, a heroína age tanto quanto nas narrativas épicas, ao mesmo tempo em que também fala, e sua ação tem a significação de seu discurso. É uma narrativa que pode ser considerada de transição, entre a épica e o romanesco que será explorado em Portugal, com Almeida Garrett, a partir de 1840.
Como o herói épico, as personagens de Theresa Margarida proferem longos discursos que se confundem com o discurso da autora, como é o caso da fala de Diófanes ao rei Aufiarao ou o de Arnesto, no último Livro. Mas, ao mesmo tempo, eles se limitam a falar sem agir. Quem quebra essa posição, antecipando a criação do romance, é Hemirena / Belino, que une suas palavras e ações à ideologia da autora, fundindo e confundindo as posições femininas da época.
Conforme constatado pelo possível mapa das ilhas gregas, é Hemirena quem mais se movimenta entre elas, tendo sempre em vista a re-união da família desmembrada pelos acontecimentos externos.
Em uma fresca tarde, quando as aves cantando saudosas se despediam das luzes de Febo, saía Belino de Corinto e entrava em Argos, onde determinava descansar dos trabalhos, com que havia caminhado desde que saíra de Atenas; e guardando a ordem de fugir ao porto em que naquele reino desembarcara
cativo, por não ter conhecido, procurava ocultar a liberdade nas duras prisões do temor. (AD P.51)
Apropriando-se das marcas identificáveis dos naufrágios na cultura lusitana, Theresa Margarida traz para o âmbito familiar a mesma marca de naufrágio, de quebra, de necessidade de recuperação – inclusive o discurso autoritário do pai – como reflexo da posição do Estado, sua família como célula formadora e exemplar do grupo social.
Hemirena é personagem irrepreensível, correta, de acordo com a ideologia idealizada do momento, representada por suas ações e por seu discurso. Por diversas vezes, para dar veracidade ao seu discurso e ao seu texto prosaico, a autora portuguesa resgata figuras clássicas, míticas, politicamente corretas, em oposição ao vago “disseram” ou “alguém disse.”