Nossa pesquisa de dissertação de mestrado buscou investigar alguns conceitos elaborados pelo antropólogo indigenista Gonzalo Aguirre Beltrán no processo de construção de um Estado-nação monoétnico no México. Nessa tarefa se fez necessário reconstruir a trajetória da formação da identidade nacional mexicana desde a época da Reforma liberal, no final do século XIX. Nesse cenário destacamos o papel de alguns intelectuais que contribuíram para ressignificação das teorias racialista vigentes na Europa até então. Tais teorias afirmavam, de modo geral, que a mestiçagem levaria a degeneração da raça humana. Intelectuais como Francisco Pimentel e Justo Sierra buscaram adaptar tais teorias à realidade latino americana e ao invés de criticarem a mestiçagem, a colocaram como a principal solução para a construção de um Estado-nação monoétnico. Esses teóricos possuíam uma visão nitidamente preconceituosa com relação aos indígenas e almejavam com a mestiçagem um branqueamento da população mexicana. Ao fazermos essa análise, buscamos mostrar as rupturas e continuidades existentes no discurso oficial sobre os indígenas. Embora o problema tenha sido colocado em outros termos, no século XX o indígena continuou sendo visto como o principal entrave à construção do Estado-nação moderno.
Entendemos que uma das funções do discurso do Estado foi a difusão de um projeto nacional, que mudou em função dos diferentes contexto históricos. Ao traçar a trajetória da formação da identidade nacional mexicana, percebemos que o projeto nacional vigente em cada momento conferiu um papel determinado aos indígenas que se difundiu através do discurso público, no qual teve importante função o discurso político e intelectual produzido por historiadores, sociólogos e principalmente antropólogos. A produção desse discurso esteve quase sempre restrita às elites políticas e intelectuais. As produções discursivas dos intelectuais foram fundamentalmente controladas pela política vigente.
Notamos que as políticas públicas sempre se embasaram numa elite intelectual que configurava um caráter cientifico às ações governamentais. No inicio do século XX os intelectuais mais destacados, como Manuel Gamio e José Vasconcelos, mudaram a perspectiva do discurso de mestiçagem, propondo uma vertente mais cultural. Isso pode ser notado inclusive pelo abandono do termo “raça” em favor de uma perspectiva mais culturalista, principalmente a partir da década de 1930. O que se propôs não foi mais a miscigenação em prol do branqueamento da população, mas sim o abandono da categoria étnica do indígena em prol da categoria do mestiço. Nesse momento as políticas indigenistas
ganharam um viés assimilacionista que viam na educação a principal chave para a transformação dos grupos indígenas.
A partir da década de 1940, com a realização do congresso de Pátzcuaro, as teorias indigenistas mudaram seu foco da assimilação para a integração dos indígenas à sociedade mestiça, embasando-se nas teorias do relativismo cultural norte americano. Demonstramos que Gonzalo Aguirre Beltrán foi um dos maiores teóricos do integracionismo. Autor de uma ampla obra e com uma extensa atuação em órgãos públicos, nos detivemos à análise de seus principais conceitos, como o de aculturação. Ao analisar esse conceito e suas influencias da escola culturalista norte americana e da funcionalista britânica notamos que seu pensamento muito se norteou por certa “moda intelectual” no qual Aguirre Beltrán, assim como outros teóricos integracionistas, seguiram, já que muitos deles estudaram em universidades norte americanas e tentaram importar as teorias lá aprenderam.
A influência culturalista fez com que Aguirre Beltrán sempre afirmasse a aculturação como uma via de mão dupla, no qual ambas as culturas, mestiça e indígena, se modificariam. No entanto, ao analisar a prática indigenista através da criação dos Centros Coordenadores Indigenistas (no qual privilegiamos a análise do CCI de Chiapas, já que esse foi dirigido pessoalmente por Aguirre Beltrán) percebemos que as características indígenas que deveriam permanecer seriam somente àquelas que fossem tidas como compatíveis com a modernidade. Com isso, percebemos também que embora o relativismo cultural tenha sido adotado em teoria, na prática ele sofreu limitações na medida em que se tornou impossível respeitar todos os aspectos culturais indígenas e o grupo mestiço foi visto como mais compatível com a modernidade capitalista. Em diversos trechos de sua obra, Aguirre Beltrán afirmou que a categoria étnica que se identificava com a formação do Estado-nação moderno era a do mestiço e por isso, os indígenas deveriam ser integrados a esse grupo.
Ao analisar aspectos dos CCIs tentamos demonstrar como se deu na prática a aplicação de conceitos elaborados por Aguirre Beltrán, como regiões de refúgio e região intercultural. Esses conceitos chamaram atenção para uma importante contribuição de Aguirre Beltrán à antropologia mexicana ao afirmar que as comunidades indígenas não viviam isoladas, como afirmaram alguns teóricos, mas que estavam em constante intercambio com o mundo mestiço, com isso, a atuação dos CCIs deveria se dar nos dois grupos.
Com relação às críticas surgidas à vertente integracionista a partir da década de 1970, concordamos com boa parte dessas análises, na medida em que elas denunciaram o caráter de destruição cultural da categoria étnica dos indígenas que continha o projeto integracionista. Concordamos também com a vertente marxista dessas críticas que afirmou que o indigenismo
buscou a proletarização do indígena e procurou diluir as questões étnicas na de classes. Outra questão pertinente levantada pelos antropólogos da década de 1970 foi a de que a teoria integracionista foi hegemônica dentro da antropologia mexicana, o que comprometeu a disseminação de outras vertentes antropológicas e a análise de outros temas.
Mesmo após a crítica surgida a partir da década de 1970, Aguirre Beltrán reafirmou seu posicionamento e ainda tentou demonstrar através de censos que a população indígena mexicana havia diminuído assim como propunha sua teoria integracionista. Apoiando-nos em Federico Navarrete, atentamos para o fato de que os censos não condizem com a realidade pluriétnica mexicana já que a mestiçagem coletiva não implicou no abandono da identidade étnica comunitária, nem dos aspectos da cultura tradicional indígena. Usamos esse autor para corroborar nossa crença no fracasso das políticas integracionistas.
Ao trazermos para o debate teóricos como Stuart Hall e Consuelo Sanchez buscamos também mostrar que a partir da década de 1970, outros fatores, além dos levantados pela antropologia crítica, levaram o debate étnico e nacional a outros termos. Com Stuart Hall procuramos demonstrar que a afirmação da identidade étnica de mestiço ou de mexicano não excluiu a afirmação da identidade indígena. Concordamos que no mundo moderno a identidade unificada e coerente é mera fantasia e, ao invés disso, propusemos a possibilidade dos sujeitos conviverem com múltiplas identidades.
Com relação à questão das identidades também tentamos mostrar que as identidades nacionais, embora muitas vezes sejam colocadas como unificadas, na verdade não passam de discursos políticos que buscam dar coesão e homogeneidade a certos grupos. No entanto, acreditamos que nenhuma identidade particularista, como a mestiça, no caso mexicano, pode tentar ser representante das demais identidades. Concordamos que o aceleração da globalização a partir da década de 1970 facilitou a emergência de diversas identidades étnicas e proporcionou a elas meios de se fazerem ouvir e mostrarem que elas fazem parte da modernidade e possuem seus próprios modos de participarem da vida pública.
Por fim, tentamos demonstrar a importância de se reconhecer a autonomia das minorias étnicas que compõe o México, já que, essa autonomia beneficiaria além dos grupos indígenas, outros grupos que também estão à margem da sociedade e são excluídos por uma pequena elite detentora dos discursos de poder hegemônicos. Nos apoiando em Federico Navarrete, propusemos um conceito de igualdade que reconheça e mantenha a diversidade étnica e cultural existente no país.