Conforme apontado por Reynolds e Herman-Kinney (2003a), não há um entendimento uniforme quanto a bases ontológicas e epistemológicas que sustentem o interacionismo simbólico. Alguns pesquisadores rastrearam na filosofia grega conceitos que podem ser associados ao interacionismo. Outros partiram da filosofia europeia do século XVIII para sugerirem os primeiros pensamentos que repercutiram na visão interacionista. Um consenso, entretanto, existe quanto à influência decisiva do pragmatismo norte-americano na fundamentação dessa abordagem. A psicologia funcionalista também é citada, por ter emprestado conceitos empregados na construção das primeiras teorias de base. É perceptível que o evolucionismo é associado ao pragmatismo, à psicologia funcionalista e ao próprio interacionismo simbólico (REYNOLDS, 2003b). A Figura 4, baseada nas colocações de Prus (2003) e Reynolds (2003b), apresenta uma visualização da relação entre algumas correntes de pensamento que embasaram ontológica e epistemologicamente a abordagem interacionista.
Figura 4. Bases ontológicas e epistemológicas do interacionismo simbólico. Fonte: Baseado em Prus (2003) e Reynolds (2003b).
Na filosofia grega, é possível encontrar alguns conceitos correlatos aos empregados pelo interacionismo. Protágoras (490-420 AC), considerado um dos primeiros dos velhos sofistas, postulou que os objetos são conhecidos apenas por meio da experiência humana. Isócrates (436- 338 ac) enfatizou as características do discurso, que permitem e influenciam a vida humana em grupo. Aristóteles (384-322) afirmou que as pessoas desenvolvem conhecimento de conceitos, gerais e universais, somente a partir do contato real com as especificidades (instâncias em que as coisas ocorrem). Reconheceu a natureza arbitrária e convencionalizada do símbolo (do grego,
symbolon), que não remete, necessariamente, a nenhuma associação entre o significante e o que é
representado, exceto mediante a linguagem. Também esteve atento às capacidades reflexivas dos seres humanos, principalmente quanto ao processo em que as pessoas podem persuadir umas as outras, mediante a atividade do discurso (retórica) e quanto ao processo de antecipação e de adaptação frente às preocupações e às contraestratégias dos outros (PRUS, 2003).
Manis e Meltzer (1978), sem mencionar os gregos, citam o pragmatismo, o evolucionismo, a psicologia funcionalista, o idealismo alemão e o moralismo escocês como bases do interacionismo simbólico. Conforme mencionado, dentre essas correntes de pensamento, a escola filosófica que exerceu maior influência sobre o interacionismo foi o pragmatismo americano, pensamento atrelado ao contexto sociocultural dos EUA (REYNOLDS, 2003b).
Do pragmatismo, cujos principais fundadores na América foram John Dewey, William James, Charles Pierce e Josiah Royce, parte-se da tese central de que a verdade de uma ideia é consequência de seu desdobramento prático, isto é, para que uma ideia seja significativa, ela deve gerar alguma influência sobre a ação (ÁLVARO; GARRIDO, 2003). O que é verdade é o que funciona (DENZIN, 2004). O pragmatismo é uma abordagem que enfatiza conceitos como processo; consciência; significado e agência humana (MUSOLF, 2003). Pressupostos de que o comportamento subjetivo não existe antes da experiência; significado e consciência emergem do comportamento; e o significado de um objeto não reside no objeto em si, mas no comportamento dirigido ao mesmo são verificados no pragmatismo (MANIS; MELTZER, 1978). Para os pragmáticos, a ação deve ser o foco principal, porque é por meio da ação que a uma hipótese pode ser verificada (REYNOLDS, 2003b).
Para muitos filósofos pragmáticos norteamericanos, a concepção darwinista de evolução foi particularmente importante. John Dewey (1910) enfatizou aspectos subjacentes à teoria de Darwin, que foram incorporados ao seu pensamento. A ideia de Darwin de que o comportamento de todos os organismos vivos e seus ambientes compartilham um relacionamento especial – onde todo o comportamento é, em primeiro lugar, uma adaptação ao seu ambiente – influenciou o pensamento interacionista. Dewey salientou que toda conduta (comportamento) é a “interação” entre elementos da natureza humana e o ambiente (natural e social). Ambientes e organismos são codeterminantes (REYNOLDS, 2003b). A teoria evolucionista transmitiu a ideia de que cada organismo e seu ambiente se encaixam em uma relação recíproca, cada um influencia e gera impacto no outro. Ambientes diferem para organismos diferentes e os organismos podem afetar o ambiente, alterando, assim, sua influência sobre eles próprios (MANIS; MELTZER, 1978). Com efeito, o comportamento humano é realizado enquanto se adapta ao ambiente. No decurso das condutas, ambiente e indivíduo se influenciam mutuamente. Em última análise, a vida é processual e emergente por natureza (REYNOLDS, 2003b).
Juntamente com o pragmatismo, outra escola de pensamento norteamericana, que forneceu suporte intelectual ao interacionismo simbólico foi a psicologia funcional. Certos pressupostos básicos da psicologia funcional se sobrepõem aos do pragmatismo, isto porque figuras centrais, como James e Dewey, são considerados tanto psicólogos funcionais quanto pragmáticos. Alguns pressupostos orientadores da psicologia funcional enfatizam que o processo que possibilita a associação humana é o processo de comunicação lingüística; a linguagem não só torna possível a
sociedade humana, mas é o que distingue os seres humanos de outras espécies. Nessa corrente de pensamento, os seres humanos são seres ativos, que não respondem simplesmente a estímulos, mas selecionam e prestam atenção aos estímulos que os ajudam a promover uma atividade contínua. A mente não é um órgão ou estrutura, é uma função que ajuda a pessoa a se adaptar ao seu ambiente, destarte, o pensamento é um comportamento adaptativo. Para a psicologia funcional, a aprendizagem social tanto inibe quanto modifica os instintos. Por fim, o “outro” desempenha um papel chave na formação e no desenvolvimento do “self” individual
(REYNOLDS, 2003).
Quanto às filosofias europeias do século XVIII que influenciaram o interacionismo simbólico, o moralismo escocês e o idealismo alemão são destacados. Adam Smith foi o mais influente dos moralistas escoceses. Dentre seus legados, antecipou noções como os componentes interacionistas do “self” (o componente espontâneo do “eu” e o componente derivado da internalização da visão dos outros, o “mim”) (REYNOLDS, 2003b). Ainda, sua teorização acerca das relações de mercado, em que o vendedor deve olhar para si mesmo, com base no ponto de vista do comprador, e o comprador deve fazer o mesmo, de modo que cada um busque assumir a atitude do outro, impactou no conceito de imaginação simpatética de Cooley, um dos primeiros interacionistas (MILLER, 1973).
Idealistas alemães, como Friedrick Von Schelling e Johann Gottlieb Fichte, argumentaram que os seres humanos criam o mundo na qual habitam e que não existem pensamentos e percepções anteriores aos objetos a que representam ou a que se relacionam. De Immanuel Kant, os interacionistas trouxeram a ideia de que o indivíduo nunca é um destinatário passivo das pressões aplicadas por uma ordem natural e social mais ampla. Esse pensamento remete à concepção de que o mundo que nos confronta é autocriado. Assim, os seres humanos não respondem para o mundo em si, mas para suas próprias definições acerca de seus ambientes, que são criadas por eles próprios. Whillhelm Wundt, descendente direto do pensamento idealista alemão, influenciou diretamente as construções teóricas e filosóficas de William James e George Herbert Mead (principal precursor do interacionismo simbólico). De Wundt foi emprestado o argumento de que o gesto é a fase inicial de um ato social – fase que chama uma resposta de outros participantes no ato, resposta necessária para que o ato seja concluído (REYNOLDS, 2003).