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5.2 ‘Eating moment’ labels

6.2 Re-training YOLOv3

Conforme pudemos observar, a madre tem um papel muito relevante no cancioneiro de D. Dinis: além de ser, em várias cantigas, a confidente silenciosa da filha, esta figura assume particular relevância quando surge referida pela velida como opositora da sua relação com o amigo, proibindo os seus encontros. Passando de figurante a actante, numa cantiga dialogada, que também já tivemos oportunidade de analisar307, a mãe, adotando uma postura mais branda, interpela a filha para saber a causa da sua manifesta agonia, sendo como resposta às suas questões que a donzela expõe a sua coita amorosa.

Afirmando-se normalmente, tanto no cancioneiro dionisino como na maior parte das cantigas galego-portuguesas, como contrária ao relacionamento amoroso da filha, a intervenção da madre na composição de D. Dinis ―Roga-m‘hoje, filha, o voss‘amigo‖ (B 562, V 165)308, em que é a única personagem que toma a palavra, é bastante curiosa e interessante, surgindo inesperadamente como coadjuvante e intermediária do amigo, por quem intercede junto da filha. Efetivamente, neste texto, a mãe não só não se opõe à relação amoroso como, e de forma surpreendente, se assume mesmo como cúmplice do amigo na conquista do favor e misericórdia da sua filha, incitando-a de forma quase impositiva a aceitar a sua corte, sem deixar, contudo, de lhe recordar que deve ser moderada nas suas dádivas e concessões.

Neste texto, a madre assume-se, então, como porta-voz e defensora da causa do amigo, de quem se condoera por ter testemunhado o estado agonizante em que ele se encontrava e pelos rogos que este lhe dirigira, pedindo-lhe que intercedesse por ele junto da filha, como se percebe nos versos iniciais da cantiga: ―Roga-m‘hoje, filha, o voss‘amigo / muit‘aficado que vos rogasse / que de vos amar nom vos pesasse‖ (vv. 1- 3). Através destes pedidos da mãe e do relato do desespero manifesto do amigo, percebemos também qual tem sido o comportamento da filha face ao seu pretendente, rejeitando as suas provas de amor e desprezando o seu sofrimento por não ser por ela retribuído. Respondendo aos apelos desesperados do amigo, a mãe tenta, então, fazer com qua a filha se apiede do namorado, dando conta do estado de grande aflição e agonia em que este se encontrava e reportando as suas súplicas. Ao mesmo tempo, sempre no intuito de convencer a filha a ser mais branda para com o amigo, a madre revela a sua crença na sinceridade e profundidade do amor do amigo, afirmando que ele

307―- De que morredes, filha, a do corpo velido?‖ (B 567, V 170). 308 Texto integral em anexo (anexo X).

ama a velida ―de coraçom‖, e alegando que ela própria não considera que a filha perca nada em aceitá-lo como pretendente, ganhando antes com isso – desde que, como reitera, mais não lhe conceda: ―Ca de vos el amar de coraçom / nom vej‘eu rem que vós i perçades, / sem i mais haver, mais gaanhades‖ (vv. 13-15).

Percebemos bem o estado de aflição e coita do amigo pela forma como a mãe da donzela se refere às suas súplicas insistentes e à sua postura sofredora, recordando, principalmente, o seu choro convulsivo, aspeto que, segundo conta, mais a comovera: ―E, u m‘estava em vós falando / e m‘esto que vos digo rogava, / doí-me del, tam muito chorava‖ (vv. 7-9). O próprio facto de o amigo endereçar este pedido de ajuda à mãe da amada é bem comprovativo do desespero absoluto em que se encontra, não vendo mais nenhum meio para conquistar o favor da amada a não ser este arriscado pedido a uma figura que, naturalmente, seria contrária à sua causa. Contudo, se perigoso, o pedido de ajuda que o amigo endereça à mãe da sua é bastante inteligente, dada a influência e preponderância que esta tem nas opiniões e decisões da filha.

Apercebendo-se, assim, da coita amorosa do amigo da filha, prova inegável da sinceridade dos seus sentimentos, a madre roga e coage mesmo a velida a não rejeitar a sua corte, declarando ―e por en vos rog‘e vos castigo‖ (v. 4), ―e por en, filha, [vos] rog‘e mando / que vos nom pês de vos el bem querer / mais nom vos mand‘i, filha, mais fazer.‖ (vv. 10-12). Nesta enunciação, é de salientar a jocosa admoestação que a mãe acrescenta às intercessões que faz em favor do amigo, advertindo a filha de que não deve conceder ao amigo nenhum outro favor para além da sua misericórdia. Este pormenor mostra, uma vez mais, a perspicácia de D. Dinis, que adivinha bem os receios e advertências das madres preocupadas com o ―prez‖ das suas filhas, e garante também verosimilhança a esta figura feminina e à situação exposta, na medida em que, se apenas defendesse o amigo e aconselhasse a filha satisfazer todos os seus pedidos, a figura materna não teria consistência nem realidade e a farsa da ficção da voz seria de imediato desmascarada, ouvindo-se apenas o desejo masculino cantado pelos lábios do fantoche da mãe. Ao mesmo tempo, este detalhe inclui alguma malícia na composição, deixando intuir quais seriam os desejos do amigo. E, aliás, a própria enunciação deste trecho e, especialmente, a interpretação da cantiga, poderia já provocar explicitamente a interpretação maliciosa, na medida em que, como nota Francisco Nodar Manso309, a

expressão ―bem querer‖ poderia constituir um jogo semântico, mostrando simultaneamente a devoção do amigo e o seu desejo de obter um bem carnal.

Por tudo isto, apesar de, neste texto, percebermos claramente que é uma mente masculina que manobra o fantoche da mãe da velida, servindo-se dela para pressionar a amada a não mais rejeitar as suas súplicas e pedidos, o que denuncia o processo de fingimento que subjaz à cantiga, a figura materna está tão bem construída que somos levados a crer na realidade desta ficção, por mais bizarra que ela seja, por apresentar uma madre muito distinta daquela que costuma intervir nos cancioneiros. Além disso, é de notar a estratégia argumentativa que está na base desta ficção, pois se, como vimos, o amigo já se servira da amiga da velida para tentar cativar a sua piedade, aqui arrisca ainda mais e pede a colaboração da mãe da amada, que, detendo autoridade moral sobre a filha, teria ainda mais influência nas suas decisões.