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Na escola A, juntamente com a colega B, observei uma aula de 6º ano de 50 minutos e pelas palavras do próprio professor era a sua “pior turma” a nível de comportamento. Este mostrou-se bastante nervoso com a nossa presença apesar de tal visita ter sido atempadamente combinada. Apresentou-nos à turma e disse-lhes em jeito de brincadeira “não me deixem mal visto”. Durante toda a aula, o professor olhava constantemente para nós as duas e falava de uma forma bastante nervosa e apressada para a turma. Esta escola encontra-se inserida num bairro social e confesso que para a

“pior turma” esperava ter encontrado um ambiente de indisciplina bastante pior, até pelo feedback transmitido pelas colegas que lá estagiavam.

Nessa aula estavam presentes 17 alunos, muitos de raça africana e ainda alguns de etnia cigana. A aula resumiu-se ao aperfeiçoamento de uma peça instrumental para a flauta de bisel do mesmo manual da minha escola de estágio. No geral, apenas identifiquei dois alunos que não colaboraram e perturbavam constantemente a aula, parecendo querer chamar a atenção, sem que porém conseguissem perturbar o esforço e empenho dos restantes colegas que me surpreenderam positivamente a nível comportamental e musical. Pelo contrário, estes dois alunos demonstraram saber transtornar por completo o professor que revelou não saber lidar com essa situação, deixando que basicamente eles fizessem o que quisessem. Por exemplo, levantavam-se quando queriam, fazendo alarido e, quando pediram ao professor para irem para a bateria, o professor acedeu, na vã esperança que assim eles se acalmassem, o que naturalmente não aconteceu.

Musicalmente, o professor demonstrava bastante talento ao improvisar em vários momentos. Utilizava o piano eletrónico para acompanhar a melodia das flautas, interpretadas pela turma, mostrando uma preocupação extra de não se limitar à utilização dos karaokes disponibilizados pelo manual. Todavia, a interpretação da turma era feita através da leitura da partitura, sendo que já não estavam a aprender mas sim a treinar a mesma para ser avaliada na próxima aula fiquei sem saber se a sua aprendizagem tinha sido informal ou formal. Porém, reparei que o professor privilegiava a leitura cantada da melodia, em vez da rezada, como preparação à interpretação instrumental.

Quanto à gestão de aula, o professor mostrou-se bastante desorganizado, o que me levou a acreditar que não teria um planeamento pré estabelecido. O seu discurso mostrou-se bastante incoerente pois contradizia-se bastante e fiquei particularmente surpreendida pela forma como frequentemente se dirigia aos alunos, com expressões do género: “oh pah”, “então pá?” e “ta fixe!”.

3.5.4.2 Escola B

Deslocar-me a esta escola foi, sem dúvida, uma lufada de ar fresco. Fomos muitíssimo bem recebidas, tanto pelos funcionários, como pelos vários professores com

53 quem nos cruzámos. O professor com quem tínhamos contatado estava à nossa espera e fez-nos uma simpática visita guiada pela escola. Falou-nos de imediato dos projetos musicais referentes a esse ano letivo e passámos por vários espaços onde se encontravam expostos diversos trabalhos musicais.

A Educação Musical era partilhada com outra professora que se mostrou também muito recetiva à nossa presença e revelou uma excelente relação com o colega. As secretárias das salas de Educação Musical encontravam-se cheias de livros e cds, sendo que os professores se encontravam a preparar as aulas em conjunto antes da nossa chegada. O manual adotado nesta escola também era o mesmo da minha escola de estágio, mas ambos os professores não pareciam restringirem-se ao mesmo, utilizando- o como possível recurso aos objetivos por eles traçados, em vez de ser o manual a ditar os mesmos.

Enquanto estávamos numa das salas a conversar com o professor, romperam por lá dentro um grande número de alunos entusiasmados com flautas de bisel a pedir para ensaiarem com o professor. Como o professor estava connosco, a professora rapidamente se prontificou nessa tarefa. O professor explicou-nos então, que isso acontecia regularmente, independentemente de serem seus alunos ou da professora e que, desta forma, os alunos eram como se fossem dos dois, até porque muitos eram os projetos em que trabalhavam em conjunto. Acrescentou também, que era usual entrar nas aulas da professora, assim como vice-versa, e participar ativamente na mesma.

Nas duas aulas observadas, ambas a turmas do 7º ano e com a duração de 50 minutos, o professor realizou atividades completamente diferentes, embora fossem as duas turmas do mesmo ano, o que me demonstrou uma preocupação da sua parte na adequação às diferentes caraterísticas de cada turma. Em ambas, demonstrou uma excelente relação com os alunos.

Na primeira aula observada, recorreu à utilização de jogos rítmicos com palavras, da autoria de Jos Wuytack, utilizando percussões corporais para a experimentação dos ritmos que estavam a ser aprendidos. Na segunda aula, havia uma continuidade do trabalho que tinha sido iniciado na aula anterior e resumiu-se à continuação da aprendizagem da melodia principal da música “Star Wars” na flauta de bisel, onde não foi apresentada a partitura musical para ser lida. Em vez disso, através do áudio os alunos

54 retiraram a melodia de ouvido. Este processo foi muito bem dirigido pelo professor ao dar tempo de experimentação individual por parte dos alunos e ao indicar alguns pontos principais de ajuda, tanto no ritmo como na altura dos sons, de uma forma que os alunos quase não sentiam que estavam a ser, por ele, conduzidos. O trabalho realizado nesta turma identificou-se bastante com o trabalho que desenvolvi nas minhas aulas lecionadas.

O tipo de relação professor-aluno observado fez-me lembrar a do outro professor da minha escola de estágio que tanto ralhava como brincava com os alunos revelando uma relação saudável, onde foi possível verificar acima de tudo um grande e efetivo respeito dos alunos pelo professor.

No final das duas aulas, o professor reservou um tempo de conversa connosco onde nos quis conhecer um pouco e perceber o que tínhamos achado das suas estratégias de trabalho. Ao demonstrar uma abertura à reflexão do que tinha acontecido na sua aula, essa conversa revelou-se um excelente espaço à reflexão partilhada. Para além de ter apreciado bastante a oportunidade de assistir ao trabalho musical efetuado com turmas de 7º ano, o que me motivou foi essencialmente ter respirado música durante toda a minha visita e ter assistido a professores e alunos felizes! Identifiquei-me totalmente com esta dinâmica e senti-me genuinamente agradecida por verificar que de facto é possível tudo aquilo em que eu passei a investir e pretendo manter na minha futura docência profissional.