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Rapport: Forvaltningen av Svalbard

O capítulo anterior apresentou uma breve incursão pelas literaturas contemporâneas de língua francesa e inglesa à luz da relação íntima existente entre o erotismo e a morte, com um maior enfoque na produção literária de Marquês de Sade e Henry Miller. Ao desenvolvermos esse estudo, deparámo-nos com um quadro bastante extenso de autores que escreveram o erotismo negro, obrigando-nos a uma abreviação necessária para que pudéssemos proceder, dentro dos limites deste estudo, à análise de Square Tolstoi, do autor português Nuno Bragança. Torna-se ainda premente enquadrar a obra do autor no panorama literário nacional para que a inovação de Bragança se torne ainda mais evidente e os seus traços distintivos mais salientes.

Antes de mais, deveremos assinalar que, se a dupla questão do erotismo e da morte se manifestou exponencialmente na contemporaneidade literária internacional, o mesmo não aconteceu em território luso. Não escasseia somente este topos na literatura portuguesa, mas também na produção teórico-crítica nacional. Reconheçamos, contudo, que o tema da violência e dos excessos eróticos não se assumiu como a exceção, alargando-se este absentismo à temática do erotismo de forma geral. David Mourão-Ferreira, no seu prefácio à Antologia de Poesia

Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia, afirmou inicialmente:

“«Finalmente!» «Até que enfim!» «Já não era sem tempo!» - Com exclamações como estas, e outras semelhantes, será decerto recebido o aparecimento da presente Antologia (…)” (Correia, 1999: 9). Contudo, a voz de Mourão-Ferreira não foi a

única a ecoar a escassez da atenção a Eros na tradição crítica e literária portuguesa, juntando-se António Mega Ferreira que revelou alguma dificuldade na elaboração da sua antologia de ficção erótica portuguesa contemporânea por rarearem os autores que apresentam o viés erótico como um topos medular da sua bibliografia. Ademais, comentou ainda o cariz internacional da pesquisa para proceder a um comentário introdutório e teórico (cf. Ferreira, 2005: 18).

Com um tom mais casual, Francisco Luís, em 2010, questiona de forma assaz desenvolta, num artigo do Público: “Andamos a escrever mais sobre sexo, mas será que temos jeito?” Assim, vários escritores do cenário literário português reuniram-se para comentar a presença discreta de Eros nas letras lusas. Ainda que não seja relevante para o nosso objeto de estudo apresentar extensamente os motivos que proporcionaram este reservado e brando erotismo, assinalamos sucintamente as ideias de autores como Lídia Jorge, Pedro Mexia, Inês Pedrosa e Mega Ferreira que destacaram o desconforto e embaraço lusitanos, a ditadura salazarista e a consequente ostracização do erotismo ou o difícil manuseamento do léxico português.

Ainda que se trate de um erotismo discreto – distinguindo-se das restantes literaturas lusófonas e de autores como os abordados no capítulo anterior –, a contemporaneidade literária portuguesa apresenta alguns casos que poetizaram e enfatizaram o amor sensual. Se Natália Correia, em 1966, publicou uma antologia de poesia erótica e satírica, António Mega Ferreira abraçou, por sua vez, o estudo desta temática na ficção portuguesa contemporânea, como referimos previamente. Não sendo Nuno Bragança um poeta, revela-se mais pertinente uma breve consideração sobre escritores que prosaram sobre o erotismo de forma a enquadrar o autor lisbonense e a evidenciar a sua profunda e singular visão do universo erótico.

Iniciando, por conseguinte, esta curta exposição, parece-nos oportuno aludir a nomes como Manuel Teixeira-Gomes, os modernistas Mário de Sá-Carneiro e José de Almada Negreiros, José Régio e ainda Vitorino Nemésio, Luiz Pacheco, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Hélia Correia. Torna-se, contudo, fulcral assinalar e destacar Sinais de Fogo de Jorge de Sena, publicado em 1979. Romance inacabado e autobiográfico que, sendo um Bildungsroman, narra, no espoletar da Guerra Civil espanhola, a aprendizagem de Jorge que se faz por meio de uma contínua descoberta sexual. Assim, apesar de a política acarretar uma importância crucial na obra, a manifestação diversificada da sexualidade assume-se como uma outra linha fundamental. Como D.H. Lawrence, Jorge de Sena derrubou

tabus, escrevendo sobre homossexualidade, relações orgiásticas e uniões extraconjugais, abolindo a compostura do Eros português. A dupla questão do erotismo e da morte revela-se na violência, no frenesim e no universo catastrófico que surge nos meandros das relações entre as personagens:

Daí em diante, tudo foi uma confusão de grandes sombras que se projectavam no fundo da igreja, com toda a gente misturada, as mulheres correndo nuas, toda a gente bebendo das garrafas que o Matos fora buscar ao carro, e com o rapaz nu participando, já com as pernas desamarradas. A certa altura, separando-me da mulher que tinha nos braços, vi o Rodrigues de pé, nu da cintura para baixo, com uma mulher abraçada nos joelhos dele que batia palmas. Marcava o compasso aos movimentos do Luís e do rapaz, ambos no chão em cima da sua mulher. O rapaz acabou primeiro, e ficou como que inanimado. (Sena, 2003: 140)

Mega Ferreira, nas páginas introdutórias à sua antologia, salienta inclusive que

Sinais de Fogo é a única obra ficcional portuguesa que aborda o erotismo com a

mesma veemência que autores como Pier Paolo Pasolini, Henry Miller e Raymond Queneau (cf. Ferreira, 2005: 20). Apesar de Jorge de Sena se enquadrar, neste sentido, no mesmo filão que os autores estrangeiros citados, não poderemos corroborar a afirmação de Mega Ferreira que indica o magnum opus de Sena como a única portadora de uma palavra erótica intensa e impetuosa, pois isso seria descurar obras como A Noite e o Riso e Square Tolstoi, da autoria de Nuno Bragança. A violência e a transgressão, que se refletem em sujeitos e relações descontínuas, que se alimentam de álcool, tabaco e sexo, são uma presença em A Noite e o Riso e uma constante em

Square Tolstoi. Não pretendemos de modo algum reduzir a bibliografia de Bragança a

um hino boémio – tal seria uma interpretação errónea –, mas assinalámo-la como uma eterna viagem pela procura e compreensão do eu, do que é ser homem e ser português, viagem na qual o erotismo negro se assume como veículo, como arma. Em 1989, o documentário Grande Plano de ... Nuno Bragança, inserido numa coleção intitulada “Escritores e Literatura Portuguesa”, contou com a presença de várias figuras dos cenários literário e artístico português, entre as quais convém realçar, por enquanto, António Alçada Baptista que aludiu precisamente à influência que Henry Miller assumiu na produção escrita e na biografia do escritor lisboeta. Assim, Nuno Bragança, amante dos escritores da libertação, reproduziu ecos da mesma no campo político, mas também, com relevância não menor, em matéria de sexualidade.

Um dos poucos autores que parece não olvidar a obra de Bragança é Urbano Tavares Rodrigues, seu amigo pessoal, que, ao escrever o ensaio O Erotismo na

longo das páginas deste texto, deparamos com uma análise das mais variadas manifestações eróticas na literatura portuguesa, contudo nelas parece imperar um erotismo puro e poético, desprovido de obscenidade. Apesar de também poético e repleto de mestria, Bragança abraça um universo obsceno e carregadamente erótico, que se impõe como um meio para uma ansiada – e desesperada - exploração do âmago da escrita e da vida:

É nessa nova situação cultural que a escrita sobre o corpo se desenvolve e prolifera. Nuno Bragança, que havia já publicado A Noite e o Riso [irónico romance de aprendizagem, de humor desaforado, que resolvia preconceitos e, na esteira de Almada Negreiros, reumanizava o submundo da estúrdia e da prostituição (da noite)], elabora em Square Tolstoi, com a mesma destreza verbal, rápida e espirituosa, o quente combinado do desbragamento (álcool,

partouzes, sexo em grupo, excessos eróticos), da resistência, da amizade e do amor, num

romance entre Paris e Lisboa que nos fala também da emigração (económica e política) e do destino dos homens governados pelo acaso e pela incerteza. (Rodrigues, 2001:153)

Ainda que profundamente singular, Bragança não terá sido o único autor português a implementar o tema erótico na sua bibliografia literária. Se Jorge de Sena o fez, torna-se igualmente fundamental referir o erotismo na voz feminina e, por conseguinte, assinalar Natália Correia. Altamente influenciada pela poética surrealista e, consequentemente, pela subversão da linguagem e pelo culto do corpo e do viés erótico, a autora também se terá destacado na prosa com Madona (1968). Seguindo a tradição moderna que elegera Paris como espaço de eleição para a experiência mundana e para a produção artística – como tinham feito Charles Baudelaire, Henry Miller e, posteriormente, o faria Nuno Bragança –, a capital francesa assume-se como o destino escolhido por Branca, que procurava a liberdade e um corte profundo com o tradicionalismo que imperava em terras açorianas. É, portanto, em Paris onde se viria a apaixonar mais tarde por Miguel. A autodescoberta da protagonista – que parecia não buscar apenas a sua libertação enquanto mulher, mas a de todas as mulheres – concede ao leitor uma viagem pelo mundo do sexo e da perversidade e pelo universo do corpo, através de um combate profundo entre amantes e de um questionamento pertinente:

Contudo custava-me que ele não fosse cioso da minha nudez. Procurei fazer-lhe sentir o meu despeito (...). Numa cega precipitação tirei o vestido pela cabeça e saí seminua daquele mar de corpos enrodilhados sobre o divã (...). Como um fantasma de mim mesma, fui tirando o soutien e depois as calças e depois o ligueiro e finalmente as meias enquanto o preto da Martinica com um bater repetido de palmas ia impondo aos meus movimentos um ritmo de jazz. (...) Quem era esse estranho que me fitava dos confins do mundo com um olhar toldado por um nocturno prazer (...)? Se assim fosse, todas as suas impressionantes teorias traziam o selo de uma mera perversão e não fazia sentido que eu estivesse ali torturadamente nua, com

uma louca vontade de chorar e para reter as lágrimas pregava os olhos no cartaz da União das Mulheres Francesas. (Correia, 2010: 46/47)

Após este brevíssimo apontamento da dupla questão do erotismo e da morte na prosa literária portuguesa da contemporaneidade, resta-nos assinalar que a obscenidade e a violência erótica não se assumem como uma presença acentuada nas letras lusas, ainda que não esteja ausente. Por conseguinte, deparamo-nos com um erotismo discreto e cauteloso. Opondo-se a este contexto, surge a obra de Nuno Bragança – lamentavelmente um tanto breve – que, apesar de se irmanar com vozes como as de Jorge de Sena, Natália Correia e até Casimiro de Brito – apresenta uma singularidade no estilo e um humor constante que se alia a uma destreza absoluta na escrita sobre o sexo, a solidão, o artista e o inexorável destino.