Quando falamos especificamente em “inteligência coletiva” estamos nos referindo a um conceito criado por Lévy (2003, pp. 95-121), a partir do que ele denomina de virtualização da inteligência, provocada pelas mudanças nos processos de relacionamento social, em decorrência do desenvolvimento das redes digitais planetárias e pela interconexão generalizada possibilitada pelas novas TICs.
Lévy define preliminarmente a inteligência coletiva como uma inteligência distribuída em toda parte, continuamente valorizada e sinergizada em tempo real. Essa definição pode parecer simples, mas não é. Ela traz em seu bojo uma teorização intensa, que coloca o ser humano como fator central desse processo, a ponto de Lévy classificar a inteligência coletiva como uma idéia utópica.
Para chegar ao conceito de inteligência coletiva, Lévy traça um longo e complexo caminho que leva em consideração a parte coletiva da cognição e da afetividade pessoal (aquilo que nos torna humanos), a questão em torno do “coletivo pensante” (que de maneira genérica poderia ser definido como a capacidade coletiva em gerar conhecimento por meio das relações humanas) e por fim as novas tecnologias que abrem possibilidades de modificar as relações de poder e ampliar a participação da individualidade nos processos coletivos.
Lévy (idem) considera como inteligência “o conjunto canônico de aptidões cognitivas como o saber, a capacidade de perceber, de lembrar, de aprender, de
imaginar e de raciocinar” e destaca que o pensar do ser jamais é um pensar isolado, mas sempre a corrente de um diálogo, real ou imaginários, sendo impossível ao ser humano exercer as funções “das faculdades mentais superiores senão em função da interação em comunidades vivas, com suas heranças, seus conflitos e seus projetos”. Temos aí, portanto, a base do “coletivo pensante”.
Ao seguir por essa linha conceitual sobre o conhecimento e aprendizagem, Lévy se aproxima de teóricos da aprendizagem como Vygotski, Bakhtin, Pierce e Freire. Esses teóricos, apesar de defenderem posições diferenciadas sobre os processos de aprendizagem, têm em comum o considerar que não existe o “pensar isolado” ou “aprender isolado”, mas tanto o pensar como o aprender ocorrem sempre em função de relações, em que o pensar e o aprender existem em função um do outro, do meio, da troca, do diálogo, da linguagem, dos símbolos.
Também se aproxima de outros teóricos como Maturana, Varella e Capra, para quem qualquer ser vivo só existe em função do meio, e esse ser, ao se relacionar com o meio num processo intenso de troca, é moldado pelo meio ao mesmo tempo que o molda, sem com isso perder suas características próprias.
A partir da virtualização da inteligência, os chamados “coletivos pensantes” ganham nova dimensão, nunca antes possível, por meio da comunicação desterritorializada e instantânea. Esses “coletivos” são pessoas que participam de diferentes grupos, motivados no mais das vezes por interesses pessoais, que ao se expressarem, e assim negociarem seus interesses pessoais em redes sociais, ingressam num processo de partilha e de crescimento solidário, sendo que o convívio e a partilha acabam por gerar integração, aprendizagem, conhecimento e reconhecimento.
Porém, segundo Lévy (idem), esse processo somente poderá ser considerado como inteligência coletiva se a construção do conhecimento ocorrer concomitantemente com a valorização de cada ser humano participante do processo, pelo reconhecimento da importância da sua individualidade e de suas competências pessoais na geração do conhecimento universal.
Tal inteligência estaria livre de relações de poder e dominação, seria emergente e não imposta, respeitosa em relação às singularidades e valorizaria a diversidade de recursos e competências, e não desqualificaria em nome de uma racionalidade ou de um
modelo dominante. Somente desta forma a soma das partes poderia ser considerada mais que o todo.
Costa30 reforça que a inteligência coletiva “não é a fusão das inteligências individuais numa espécie de magma comunitário mas, ao contrário, é a valorização e a reativação mútua das singularidades”.
Para Lévy, o conceito integral de “inteligência coletiva” é uma utopia tecnopolítica, pois apesar de as novas TICs possibilitarem a virtualização da inteligência, ainda há que se definir a forma como tal inteligência poderia ser estruturada e, principalmente, como ela poderia mudar as relações de dominação e de interesses presentes na sociedade desde os primórdios da história da humanidade.
Ao nosso ver, Lévy mostra, com o conceito de inteligência coletiva, um preocupação humanizante e de valoração da individualidade em meio ao ambiente caótico, e muitas vezes impessoal, característico dos ambientes cibernéticos, em especial a Internet. Mostra também uma preocupação em utilizar as novas tecnologias em favor do desenvolvimento da democracia direta, participativa e não meramente representativa.
Kerckhove31, ao propor “inteligência conectiva” como o termo mais adequado para a geração de conhecimento que se processa por meio das relações humanas no ciberespaço, diria que o conceito de inteligência coletiva proposto por Lévy poderia ser comparado, em aplicabilidade, ao conceito de inconsciente coletivo de Jung, que é uma boa teoria conceitual, mas que não possui, na visão dele, aplicação prática, dada sua complexidade.
É fato que existe a tentativa de aplicação dos conceitos de inteligência coletiva num modelo de gestão do conhecimento, utilizado por organizações públicas e privadas, denominado “árvores do conhecimento”. Tal modelo visa cartografar, de forma dinâmica e continuada, a multiplicidade organizada das competências dos indivíduos que integram a organização, os percursos de aprendizagem e experiências dos membros
30 COSTA, Rogério Costa da, A cartografia dos saberes – A sinergia das inteligências e a partilha dos
conhecimentos em www.dicc.com.br arquivos cartograf_saberes.doc acessado em setembro de 2007 – pág 3
31KERCKHOVE, Derrick de, entrevista à revista Semiosfera, Revista eletrônica de Comunicação e
Cultura da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ano 1, Nº 1, outubro de 2001, Rio de Janeiro. No
http://www.eco.ufrj.br/semiosfera/anteriores/semiosfera01/perfil/entrevis/txtentre.htm acessado em fevereiro de 2009
da coletividade. A árvore cresce e se transforma na medida da evolução das competências da própria comunidade, ao mesmo tempo permite o indivíduo localizar sua contribuição pessoal no processo e se sentir participante e valorizado. (Lévy32)
Independente do resultado da aplicação do conceito de inteligência coletiva no modelo “árvores do conhecimento”, também é fato que a aplicabilidade de tal conceito de forma mais ampla é algo que ainda está por ocorrer, talvez uma utopia, como propõe o próprio Lévy.
Porém há novas definições modernas sobre o significado de utopia, não mais algo impossível, mas um conceito que orienta a visão em direção ao futuro, que expressa uma rebelião frente ao apresentado pela realidade, que propõe uma transformação radical, muitas vezes por ação revolucionária. (Teixeira33)
Diante disso, em princípio podemos dizer que a “inteligência coletiva”, da forma que é proposta por Lévy, em sua plenitude, pode ser considerada sim uma visão em direção ao futuro, mas que ainda não espelha as práticas generalizadas e atuais de geração de conhecimento pelos “coletivos inteligentes” no ciberespaço.