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A afirmação de que o fenômeno do trabalho infantil possui um elemento cultural na sua constituição é encontrada na literatura sobre o tema, em documentos governamentais e de outras organizações e, inclusive, no discurso de autoridades. Durante a cerimônia de assinatura do Decreto nº. 6.481/08 sobre as piores formas de trabalho infantil, no Palácio do Planalto, o Presidente Lula, em seu discurso, chamou a atenção sobre a questão cultural, sinalizando que mesmo com o rigor da lei e da fiscalização ainda persiste a exploração da mão-de-obra infantil. Nas palavras do Presidente, “muitas vezes essas coisas acontecem, não porque não tenha lei, não porque não tenha fiscal, não porque não tenha decisão. Acontecem, às vezes, porque é uma coisa ainda muito cultural no nosso País” (BRASIL, 2008h). Mas,

considerando que o tema cultura suscite muitos debates, de que há diferentes vertentes nas Ciências Sociais que o interpretam de acordo com os seus paradigmas, o mesmo pode acontecer com as pessoas que lidam com a questão do trabalho infantil no âmbito do Estado.

Porém, em que consiste esse aspecto cultural? Abaixo, destacamos algumas opiniões dos entrevistados:

Quando eu falo de mediação cultural, é mais do que o comportamento, é a escolaridade, é todo um conjunto do pensar da família, de como que ela vê o mundo, do quê que ela entende que é mais ou menos importante e aí a educação, a escolaridade dela é fundamental também para discutir a cultura. Eu tô chamando cultural esse conjunto. (sic) (G.1, grifo nosso).

Eu acho que tem a questão histórico-cultural da sociedade, do país que a gente vive, agravada ou abrandada dependendo de onde você mora, de onde você está, no nordeste, no interior, ou no sudeste, ou na família que você está inserida [...] A nossa história, a nossa formação histórica e cultural é no sentido de que pobre trabalha e tem que buscar trabalho, se não é vagabundo. E o rico como tem dinheiro e tudo, vai para a escola. (sic) (R.2).

Há quem acredite que o aspecto cultural está relacionado só à classe trabalhadora, porque, para os mais ricos, a questão não está posta, pois seus filhos não trabalham:

Eu volto a dizer: é cultural só para os filhos dos trabalhadores, seja campesinata, seja trabalhadora urbana, entendeu? Porque assim é o imaginário da família. Que aí eu acho que a gente tem que discutir família, o imaginário da família pobre, entendeu? ((sic) G.2, grifo nosso).

Outro considera que a questão cultural está relacionada à trajetória de trabalho dos pais, que também foram crianças trabalhadoras:

Primeiro é a perpetuação daquilo “ ah, eu trabalhei” , o pai e a mãe falando, “eu trabalhei a partir dos 7, 8 anos então, não vejo problema”, então tem a cultura do seguinte “eu fiz, não foi problema prá mim então não será para o meu filho”. (sic) (G.3, grifo nosso).

Foi lembrada também a influência do cristianismo sobre a percepção do trabalho como algo que enobrece o homem, a visão positiva sobre o trabalho e a experiência no Brasil da escravidão do povo negro:

eu acho que já vem desde a concepção mesmo cristã que a gente tem de trabalho, que o trabalho enobrece o homem. A gente teve uma sociedade escravocrata também, [...] então você continua com essa questão que o

pobre tem que trabalhar. O futuro do pobre é o trabalho e o futuro do rico é estudar para ser o patrão. Infelizmente a gente ainda tem essa remanescência da cultura. (sic) (R.3, grifo nosso).

Você não pode negar que o trabalho em si é um valor positivo, [...] legítimo numa sociedade capitalista. Porque é o trabalho que realmente contribui para dar dignidade para uma pessoa, para uma família. O problema é que se transfere esse valor positivo como alguma coisa que vai formar e educar as crianças pobres. (sic) (R.7, grifo nosso).

Como podemos observar, o aspecto cultural do trabalho infantil remete aparentemente a diferentes percepções. Contudo, identificamos que há uma perspectiva comum, a de que há, na sociedade, a visão dos mais ricos sobre o trabalho e a visão dos mais pobres. De que há uma reprodução da visão da elite – a de que quem tem que trabalhar é o pobre – que é introjetada por este segmento. Bourdieu (apud MICELI, 1974) explica essa característica da sociedade ao desvendar a relação que existe entre a organização de um campo simbólico (em que se encontram os discursos, as mensagens e as representações, que têm a função de simular as relações sociais reais) e a sua função ideológica e política de legitimar a perspectiva do sistema de dominação. O poder simbólico caracterizado por Bourdieu (2007) é capaz de impor significados para manter a sociedade em uma ordem vigente. Junto a isso, é preciso também considerar a importância do trabalho na vida dos indivíduos, pois de acordo com Marx (1987), nas diferentes etapas históricas da organização da sociedade, o trabalho esteve presente. Tanto na sociedade antiga, quanto na feudal ou no período caracterizado como sociedade burguesa, as relações de produção determinaram o momento do desenvolvimento de cada uma delas. No momento atual, quando se discute as mudanças ocorridas no mundo do trabalho, Antunes (1995) destaca que, apesar de grande parcela da população ser excluída do mercado formal devido a essas transformações, a classe-que-vive-do-trabalho está longe de ser extinta, pois o trabalho continua a ter centralidade na vida das pessoas, uma vez que a nossa sociedade vive da produção de mercadorias.

Então, podemos sinalizar que o trabalho é uma categoria central na vida de todos os indivíduos, o que muda é o seu conteúdo, o seu significado para cada grupo social e, pelas observações dos entrevistados, há uma reprodução da visão da elite do que deve ser o trabalho para as famílias pobres.