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5.4 Random Coefficient Models

Nas situações pedagógicas, a considerar estritamente a ponte que pende, alternadamente, do professor ao aluno e deste àquele, em movimentos concêntricos e ininterruptos, somos arrebatados por algo de não evidente a olhos nus, que se insurge a partir de uma presença intersubjetivada, tornada laço. Nesse entremeio trafega por entre vastas possibilidades a se considerar quando da avaliação do ato educativo, o néctar de que se nutre a aprendizagem quando fermentada para consolidação de conhecimentos gestados em torno desses dois personagens.

Nessa relação de encontro há uma interposição, um entremeio provocado pelo modo e intensidade com que se afetam mutuamente professores e alunos em situação pedagógica, a sugerir tratar-se de uma dimensão responsável pelas condições de possibilidade ou de impossibilidade do ato educativo. Por esse viés sempre emerge algo que se deseja tornar ensinado, da ordem da explicitação através de mímicas, poses e palavras do professor, com suas correspondentes demonstrações de eficácia devidamente certificadas e checadas pelas metodologias avaliativas que trarão a anunciação de acolhimento ou rechaço daquilo que se pretendeu veicular como necessário conhecimento.

Amiúde estranha e incompreensivelmente, (mesmo que garantidos aportes e perspectivas filosóficas consistentes, ideais condições de excelência técnica no âmbito da pedagogia e didática), ainda assim, não são raros os anúncios de fracasso, as queixas advindas de professores e pais relativas aos impasses vividos por alunos em suas incursões rumo à aprendizagem.

Grande parte das pesquisas epistemológicas que visam elucidar as razões ou a essência disso que atravessa tal específico encontro do ensino-aprendizagem movimentado por e entre professores e alunos, e que teria a condição de tornar o conhecimento possível ou irrealizável, tem como objetivo precípuo, a determinação de sua territorialidade, de sua exata localização para que em seguida seja extirpado por algum torpedo didático pós-moderno de precisão cirúrgica.

São inúmeras as compreensões pedagógicas que se sucedem e pendem à culpabilização do professor por tantos insucessos, com razões explicativas que vão desde uma má formação profissional à falta de compromisso, ou mesmo a questões de ausência de dons pessoais. Noutros momentos, tendem a vislumbrar no aluno, desde o principal agente fomentador dos fracassos escolares, em razão de seus defeitos adquiridos ainda no seio de uma família inadequada, a questões de mero caráter.

Com ares de quem acabam de promover a mais extraordinária superação dialética há ainda os que visualizam o verdadeiro lócus de tal acontecimento na interação entre esses dois protagonistas. E finalmente, de modo a não permitir qualquer contradição possível, como se com a constatação estivessem trazendo uma grande contribuição à superação do impasse, há os que anunciam ser o lugar de acertos ou fracassos da aprendizagem, a relação formada por professores, alunos e seu entorno, com as implicações de ordem econômica, política, cultural. Essa lista topográfica não teria fim, uma vez que a cada rodada, mais elementos podem, sem contradição, ser adicionados ao rol de possibilidades vigentes.

Mais que topografar, anuncia-se como carente de compreensão e anunciação, aquilo que se dá entre educadores e educandos, em situação escolar de aprendizagem, e que são definidoras das condições de possibilidade para toda e qualquer tessitura de conhecimento.

Os olhos de olhar essa dimensão não poderiam situar-se a partir do lugar do pesquisador, daquele que busca encontrar tais sutilezas e a partir delas, tecer revelações, o que empobreceria a dimensão arqueológica de que se necessita numa empreitada assim. Para esse fim, se contará com a narrativa de três professores, em diferentes contextos históricos e sociais que ao contarem suas trajetórias de formação e práxis educativa, revelam no não intencionado de suas palavras, naquilo que se insurge como sua fratura, seu tropo ou mesmo inteireza, a dimensão do sujeito desejante que terá como meta, aportar ao rol de saberes necessários à prática do educador, uma instância de saber que não se sabe com suas pulsões provocativas de atos, gestos e intenções, de significativa relevância ao objeto da pedagógica.

Entre os modelos explicativos da aprendizagem, imperam as compreensões substancialistas, como se o isso que intermedia o lugar de acontecimento da aprendizagem fosse algo em si, cuja essência detivesse a graça de suportar a ponte necessária entre o que é dirigido ao aluno em forma de estímulo e sua reação advinda ao modo de uma esperada respondência exitosa, sujeita a controle científico.

Seguindo essa perspectiva, impera o olhar voltado para as interações com o meio. Assim, sempre que não houver sucesso, nada mais resta senão que esmerar nas fórmulas de programação de inusitados estímulos, além das repetições exaustivas de

exercícios. Todo fracasso terá sido devido a associações imprecisas, inadequadas, inapropriadas, incapazes de provocar os desejados resultados.

O isso que se situa às margens da presença efetuada entre professores e alunos de fato parece não estar à mercê do controle volitivo de qualquer dos partícipes do ato de construção do conhecimento, o que conduz à ingênua noção de que uma vez conhecidas as tramas legais que regem a lógica da aprendizagem, ter-se-ia em mãos a chance de obturar o que precisa ser consertado naquilo que manca no ato educativo. No entanto, nenhuma das suposições sugeridas a servir de entremeio, tais como organismo, inteligência ou mesmo o eu, poderia ser responsável pela passagem de status do saber, tão desejada por Freire, que vai do conhecimento ingênuo ao conhecimento epistêmico.

É a psicanálise que nos traz a compreensão de que no corpo se inscrevem as representações psíquicas inconscientes, estruturando-se ao modo de uma linguagem, constituídas por textos proliferados em inscrições, decalques, pinturas rupestres esculpidas na carne dos humanos, impondo-lhe formatos, jeitos e estéticas. Terá sido sempre e ao cabo a ordem da palavra regida pelo significante, pronunciada em nome e por determinação dele, (disposto em cadeia), que anunciará aquilo que há de advir dali onde estava o isso. Fugidio, imperscrutável, imprevisível, jamais sujeito a qualquer estratégia de contenção, determinação, previsão ou nomeação.

Onde se localiza a contextura da aprendizagem, seu nascedouro? Freud nos faz referência a uma outra cena, sobre a qual nada podemos interpor. É nesse lugar onde habita o isso que se pretende ouvir anunciado nas narrativas de professores, sugerido

pelo viés de suas falas fendidas, faltosas, submetidas ao tropo, deslizes que as constituem como verdade.

Mas que legitimidade teriam essas falas? Como estariam investidas de valor a uma rigorosa pesquisa científica? Faz-se necessário determinar o que se compreende como verdade de modo a garantir-lhe a licitude demandada a uma tal investigação.

Capítulo V