• No results found

Como encaixar o corpo na guerra dos gêneros? Como instituir o desejo em corpos afectados pelas intensidades e paixões? Como definir mulher, homem e criança, mesmo utilizando, como retórica, identidade móveis, fluídas, nômades? Os afectos mal-ditos não são um retorno ao Mesmo. Não se trata do Molar sem Molecular, não são uma função e/ou uma estrutura, não se trata mais de binaridade, de dualidade, em prol de políticas públicas para camponeses. Trata-se, doravante, do acontecimento, da matilha, do contágio, dos devires imperceptíveis. O corpo como esquecimento ativo contra as Coisas do gênero. Corpo a-significante, a-paralelo, movediço, geografia e não história. Gênero não os pega mais! Como veremos nesta subseção, os corpos dos afectos mal-ditos abandonaram a missão, a ‘âncora’, o ‘porto seguro’, a identidade cultural, sobretudo, o identitário. Quem os faz rodopiar, escorregar, se perder, escapar, é o desejo, perdido nas paixões. Máquina desejante, agenciadora dos Corpos Sem Órgãos. Os corpos fugidios são da ordem do indizível das sexualidades camponesas, nada a declarar, nada a oficializar, apenas a experimentar.

Nesse sentido, um outro conceito bom para experimentar os interstícios dos afectos mal-ditos é o de mônodas, do infinitamente pequeno, do imperceptível, proposto por Leibniz e reinventado por Gabriel Tarde. Neste sentido, inicio esta subseção com Tiago Themudo (2002), intérprete de Tarde, ao iniciar sua introdução ao pensamento daquele sociólogo: como pensar as várias formas de organização, composição e transformação do social sem descartar os elementos concretos que o compõem? Como pensar o laço social não mais entre duas identidades lógicas, mas entre dois corpos de desejo agindo um sobre

o outro, constituindo um ao outro? 79 Inquietações estas que também norteiam as minhas preocupações com o corpo em sociedades rurais.

Nesse sentido, Themudo problematiza:

Nos são estranhos os sistemas sociológicos e antropológicos, e até psicanalíticos, em que a sociedade é considerada como uma enorme amplificação das lógicas familiares de relações. Sendo a família o berço das sociedades, a homogeneidade primeira, origem das marcações fundamentais do desejo, estabilidade primeira que os homens primitivos conseguiram estabelecer entre si, de onde derivariam todas as outras formas de composição social. Célula mãe de todas as sociedades, social in natura, desejo in natura.

Desta forma, sempre teremos uma referência de um homogêneo primeiro, de uma semelhança primeira, de onde poderemos derivar toda diferença considerada. A diferença em si permanece sem explicação.80

Ao reinventar as mônodas em Leibniz81, Gabriel Tarde (2003) pensa o social como um sistema vivo e em constante evolução, e tal evolução não segue uma única linha, uma única determinação, mas uma rede de vias, onde as encruzilhadas são abundantes. O que interessa ao sociólogo não é o universo das grandes representações, mas o mundo molecular das pequenas composições e transformações. Neste sentido, Tarde alerta que devemos reconhecer no fundo de cada ser a presença de uma dobra irredutível de originalidade e heterogeneidade. Para Themudo, intérprete de Tarde, o real jamais se esgotaria na sua constituição atual, tal atualidade representa apenas um possível entre milhões de outros, uma pequena paragem em um universo de constantes agitações virtuais 82. Assim o real não é senão ligado à imensidão do possível, do infinito. Eis portanto o intermezzo entre monologia e sociologia proposta por Tarde:

Nós devemos mergulhar nas profundezas microscópicas, ou ainda, ultramicroscópicas do infinitamente pequeno para aí sempre descobrirmos germes vivos e organismos completos, nos quais a observação ou a indução nos leva a reconhecer tanto as características da animalidade quanto as da vegetação, pois os dois reinos se confundem

in minimis. 83

Desta forma, o mundo físico e vivo, quanto o mundo social, a série de acontecimentos atuais, passíveis de serem representados, não esgotam, como acentua Themudo em sua interpretação de Tarde, todas as propriedades, todas as possibilidades, do real, pois o real não é uma série inteiramente previsível de acontecimentos, ordenados, mas um desdobramento processual de fluxos em constante remanejamento, de formas e fronteiras constantemente desfiguradas 84.Assim, a inovação de Tarde se pauta em que o

social não é mais animado por forças abstratas, mas por uma multiplicidade de indivíduos em constante interpenetração, em mútua constituição.

Em um sistema monadológico ou atomista qualquer, todo fenômeno é uma nebulosa de ações emanadas de uma multiplicidade de agentes que são como pequenos deuses invisíveis e inumeráveis. 85

O possível é mais rico que o real. Assim, e aqui recobro a construção normativa e naturalizada de um Texto Brasileiro sobre o rural, não poderíamos representar o desdobramento de uma única série, de uma única idéia para um único problema. Tentar afirmar tal unidade significa reavivar a substância, fazer do real um simples reflexo de uma unidade primeira e homogênea, significa ignorar a diversidade e a diferenciação. Significa, como acentua Themudo, sobretudo, negar a produção do novo, tanto no mundo natural como social, instaurando uma verdadeira paixão pelos imperativos do Mesmo e da Ordem.

Nesse sentido, para Themudo, se os homens apresentam semelhanças que permitem a qualquer identidade de se instalar enquanto termo explicativo, é preciso não instalar aí a naturalidade da mesma. As identidades, e para o nosso caso, o desejo de identidade dos gêneros, pelos teóricos do campesinato, em universos camponeses e para além deles, não preexistem às ações, mas são impostas por elas e para elas, pois as identidades definem um território, mas não mapeiam todo o indivíduo. E assim, Themudo continua suas indagações:

Como explicar a enorme diversidade de costumes e hábitos, de desejos, sons, texturas, cores, linguagens, habilidades, existentes no mundo, se o fundo do espírito fosse composto de semelhança e homogeneidade. Deveríamos antes esperar um mundo formado por cópias perfeitas desse modelo inicial. Séries de acontecimentos onde nada deveria sair do lugar, de onde nenhuma surpresa poderia sair. Mas este não é o caso do mundo em que vivemos. É o singular e não o universal que confere a razão de ser das séries de acontecimentos, naturais ou sociais.86

Dessa forma, a importância dada a Tarde ao indivíduo, nos processos de análise das transformações e formações sociais, não representa nenhuma tentação contratualista. Ela representa, por sua vez, uma possibilidade de livrar as reflexões sobre o social do Império da Identidade, e não mais afirmar a semelhança lá onde vibram as diferenças, pois o indivíduo em Tarde diz respeito a uma singularidade e não a uma identidade.

Existir é diferir, e, de certa forma, a diferença é a dimensão substancial das coisas, aquilo que elas têm de mais próprio e mais comum. É preciso partir daí, evitando qualquer explicação; para onde tudo caminha, mesmo a identidade, de onde falsamente partimos. Pois a identidade é apenas um mínimo, não passando de uma espécie, e

espécie infinitamente rara, de diferença, assim como o repouso é apenas um caso do movimento e o círculo uma variedade singular da elipse. Partir da identidade primordial significa supor como origem uma singularidade prodigiosamente improvável, uma coincidência impossível de seres múltiplos, ao mesmo tempo distintos e semelhantes, ou seja, o inexplicável mistério de um ser simples único, posteriormente dividido não se sabe por quê.87

E Tarde ainda interroga: se tudo vem da identidade e se tudo visa e vai à identidade e para ela vai, qual a fonte desse rio de variedade que nos deslumbra? 88. Ao diferenciar as mônadas em Leibniz e Tarde, Themudo acresce que as primeiras são destituídas de portas e janelas, incapazes de qualquer forma de interação afetiva entre elas, enquanto as segundas são capazes de se modificar umas às outras numa espécie de associacionalismo afetivo universal. Para Themudo, elas formam assim uma sociedade onde cada mônoda desenvolve sua própria individualidade (singularidade) e através de uma espécie de irradiação que contribui para a constituição das outras individualidades. Esta irradiação será definida por Tarde através das três formas da repetição universal: a ondulação, no mundo físico, a hereditariedade, no mundo orgânico, e a imitação, no mundo social.89

Assim para Tarde:

Na verdade (...) o átomo, naturalmente sugerido pela lei de Newton (que em vão se tenta

explicar, de tempos em tempos, através dos deslocamentos do éter), deixa de ser um universo para si, não somente um microcosmo, como o queria Leibniz, mas todo o cosmo

conquistado e absorvido por um único ser.90

Para Tarde, a fonte ativa do finito, da forma, do indivíduo, está no infinitamente pequeno, no imperceptível. Analisar, e aqui me aproximo de Themudo, o social somente através de suas representações identitárias bem definidas, significa ignorar sua irredutível processualidade e sua incrível diversidade. Nem sempre palpáveis ou disciplináveis pela representação; uma diversidade que não se esgota no fenômeno, sempre passageiro e parcial na apresentação das agitações e da diferença. 91

E Tarde acresce:

Assim, afastaríamos da maneira mais simples a objeção fundamental que poderia ser feita a toda tentativa atomista ou monadológica, ou seja, a de pensar o contínuo fenomênico através da descontinuidade elementar. Com efeito, o que colocamos no

descontinuo final senão o contínuo? Colocamos (...) a totalidade dos outros seres. No

fundo de cada coisa, há toda coisa real ou possível.92

Para Tarde, toda diferença é conceitual em última instância. Neste sentido, chego a algumas indagações sobre o pensamento tardiano: Como Tarde pensa a sociedade, o social? Como ele constrói sua sociologia do infinitamente pequeno? As sociedades, para o autor, são o intercruzamento multiplicador destas séries. O social é como a integral de diversas ações diferenciais, moleculares, em um sentido coletivo, pois mesmo formadas as grandes estruturas sociais, elas não deixam de estar apoiadas sobre um terreno de diferenças subjetivas em constante vibração, que pode a qualquer momento ganhar amplitude e introduzir a mudança nas macroorganizações. São pequenas percepções e volições não integradas nos sistemas dominantes. Para Themudo, se as pequenas percepções e apetições são os diferenciais da consciência, poderíamos dizer que há consciências que são como que os diferenciais do social. O mundo é sempre formado pela continuidade de uma continuidade, mesmo que a possibilidade da divergência venha destronar a razão como princípio dessa continuidade.93

E para Tarde:

A argumentação de modo algum se sustenta se negarmos a característica real do espaço, mas a pretensa lei é contradita por mil exemplos que nos mostram a homogeneidade relativa nascendo da heterogeneidade, dos quais os mais impressionantes são fornecidos pela observação das sociedades, sejam elas humanas ou animais.94

Afirmar o Ser, como acentua Themudo, significa negar a diferença, significa instaurar o império do Mesmo em um mundo onde floresce a diversidade. Mas (...) eu só possuo aquilo que me afeta, e o que me afeta são fluxos, fluxos de crença e desejo em constante conexão e desconexão 95, pois parto do pressuposto que o mundo é a expressão desejante dos agentes reais que o compõem.

Para Tarde:

Homens, todos eles, que falam com os mais diversos sotaques, entonações, timbres de voz e gestos: eis o elemento social, verdadeiro caos de heterogeneidades discordantes. Com o tempo, porém, surgem dessa confusa Babel hábitos gerais de linguagem formuláveis em leis gramaticais. Essas leis, por sua vez, pelo relacionamento conjunto de um número cada vez maior de falantes, servem tão-somente para destacar o estilo próprio de suas idéias: outro gênero de discordância.96

Para o autor, o fato social elementar não pode mais situar na generalidade de uma representação, mas no processo através do qual se engendra tal representação, pois toda representação coletiva já é a resultante de uma composição dominante de formas de ver e desejar o real, ela é produzida e reproduzida em cada engrenagem singular do mundo social: ação de um indivíduo sobre o outro.

Os fatos sociais são como espécies híbridas, pois tanto os indivíduos se constituem pelos fluxos exteriores que passam por eles quanto o social não se explica independentemente das individualidades que propagam suas séries através de uma combinação singular 97.Para Tarde, o social não é exterior aos indivíduos, mas está nos indivíduos na forma de singularidades, de propriedades adquiridas imitativamente; e decorre dos indivíduos na forma de fluxos de crença e desejo que expressam tais singularidades. Assim, Themudo em sua reinvenção de Tarde, discorre que uma imitação se define pela “ação à distância” de um indivíduo sobre outro; ação sempre referida à propagação de uma força, à conexão com outras intensidades. E é daí que o social deriva dos fluxos de crença e desejo propagados no tempo e no espaço.

E Tarde disserta:

Quanto mais nos aproximamos do elemento individual, mais há variabilidade nos fenômenos observados.98

A imitação está para a criação assim como a repetição está para a diferença; potência de diferenciação interna reagitando o campo das diferenças externas, em suma, a repetição como o diferenciador da diferença. Neste sentido, Themudo continua:

Confundir o Normal com o Geral parece ser confundir o geral com o medíocre. Interesse do poder não compartilhado por Tarde: a tristeza não é a regra, não pode ser a regra. É na criação que a vida se afirma, no infinitesimal de uma pequena nuança, numa intensidade fugidia que ofusca os olhos viciados dos sociólogos. Um corpo não pode ser

afastado daquilo que pode, da dimensão afetiva de seus problemas, mesmo que para isso “o social” tenha que ser ferido.99

Assim, para Themudo, se Leibniz cria uma cartografia de singularidades pré- individuais e pré-significantes da consciência, há em Tarde uma cartografia dos diferenciais das subjetividades e das sociedades, pois uma invenção é uma singularidade na medida em que ela vem instaurar uma variação, por mais ínfima que seja, em um sistema cultural qualquer.

E Tarde complementa:

A simplicidade da natureza que apreendemos atualmente é o resultado de uma complexidade infinita, e que, sob uma aparente uniformidade, se encontra uma diversidade cujas profundezas e segredos não foram ainda sondados por nós. 100

Eis o que propõe Tarde, substituir a macrossociologia das grandes representações por uma microssociologia dos acontecimentos. Trata-se, como ressalta Themudo, de apreender o social em seu dinamismo diacrônico, em suas operações de mudança; somente assim se pode falar do arranjo de seus macroagenciamentos.

Os maiores problemas do futuro encontrarão suas soluções neste domínio inexplorado do infinitamente pequeno, onde se encontram, sem dúvida, as realidades fundamentais, sutis, maravilhosas e profundas.101

Para Tarde, o social é composto por forças afetivas em ressonância, em mútua agitação e transformação. O que o caracteriza, segundo Themudo, não são estados que devem ser transformados em entidades da representação, mas tendências em maior ou menor grau de agitação e propagação.

E Tarde aponta:

Estejamos certos, o fundo das coisas não é tão pobre, tão monónoto, tão descolorido quanto supomos. Os tipos são apenas freios, as leis são apenas diques, opostos em vão ao transbordamento de diferenças revolucionárias, internas, nas quais se elaboram secretamente as leis e os tipos de amanhã, e que, apesar da superposição de seus jugos múltiplos, apesar da disciplina química e vital, apesar da razão e da mecânica celeste, acabam um dia, como os homens de uma nação, derrubando todas as barreiras e fazendo dos próprios cacos um instrumento de diversidade superior.102

Seguindo este viés, e ao pensar o afecto e seus fluxos e refluxos, Themudo indaga: convenhamos que um “mapa sociológico e etnológico” dos afetos é bem diferente de uma determinação genérica e específica do social e das subjetividades. Uma análise das propagações, das oposições e das adaptações criadoras entre os afetos e as paixões que ressoam sobre a superfície do socius. 103

E Tarde conceitua:

Na hipótese das mônodas, ao contrário, tudo vem de uma fonte. Cada uma delas extrai o mundo para si. Elas pertencem, é claro, umas às outras, mas elas podem se pertencer mais ou menos, cada uma aspirando ao mais alto grau de posse; daí sua concentração gradual. Ou, ainda, elas podem se pertencer de mil maneiras diferentes, cada uma delas aspirando a conhecer novas maneiras de se apropriar de suas semelhantes. Daí suas

transformações. É para conquistar que elas se transformam; mas como elas jamais se submetem a uma delas senão por interesse, o ambicioso sonho de todas elas não se realiza por completo, de modo que as mônadas vassalas servem à mônada soberana, enquanto esta as utiliza.104

Assim, para Tarde, o campo da intervenção é da ordem do acontecimento, cuja atualização não pode estar prevista por considerações tais como “meio social”, pois esta sempre implica uma causalidade externa na explicação da produção da novidade. Para Themudo a invenção sempre se refere a um movimento interno de diferenciação dos fluxos imitativos vindos de fora, uma “causa interna de diversidade”; é o resultado maquínico do desejo recriando conexões, reinventando cruzamentos. 105

E Tarde continua:

Nascidos diversos, eles tendem a se diversificar; é sua natureza que o exige. Por outro lado, sua diversidade se deve àquilo que são: não unidades, mas totalidades especiais.

106

Crenças e desejos que constituem a matéria intensiva fundamental de todas as formações sociais; é disso que se trata em um verdadeiro estudo da sociedade: desejos humanos, com suas variedades de intensidade, sua potência de diferenciação, e não leis naturais. Se Tarde parece procurar uma lógica da descrição dos acontecimentos sociais e de suas evoluções sem recorrer a modelos deterministas e estáticos, sem recorrer a nenhuma substância fundamental que funcione como razão suficiente de todo e qualquer fenômeno, me aproximo de sua proposta ao pensar em um corpo fugidio, engendrado pelas linhas de fuga do desejo, emanado pelos afectos mal-ditos.

É preciso ver em toda modificação espontânea de uma espécie viva, mesmo a mais fugaz, a visada de uma outra espécie, que ela atingiria com a condição de se amplificar suficientemente.107

Ainda a título de desenvolvimento do conceito que levanto, os corpos fugidios dos afectos mal-ditos, recobro o infinitamente pequeno, o imperceptível, o indizível, rompendo com o pretenso desejo de identidade, desejo viciado, drogado (cf. Rolnik, 2005), dos gêneros, do Império da Identidade prêt-à-porter. Neste ínterim nos distancio consideravelmente do conceito de identidade proposto por Lévi-Strauss (1987):

L’Identité est une sorte de foyer virtuel auquel il nous est indispensable de nous référer pour expliquer un certain nombre de choses, mais sans qu’il ait jamais d’existence réelle.

108

A ótica explicativa da identidade e da representação não explica nada no trato das infinitas possibilidades do corpo, do imperceptível, do luxuriosamente excessivo, do indizível das sexualidades camponesas, por mais virtual ou irreal que seja. A título de exemplificação recobro a idéia (identidade) de vermelho não permite perceber o que é realmente vermelho e, em conseqüência, distingui-lo de outras cores. Ora, tal concepção de coisa, como acentua Lins (2005), omite uma pequenina diferença, uma simples nuança que desmorona a imagem que fazíamos do pensamento. A idéia do vermelho, portanto, não contém apenas o vermelho, mas também todas as cores que ela não é, mas sem as quais ela não poderia ser. Um vermelho sensível contém sempre algo das outras cores, e não é necessário se libertar dos matizes do mundo real. 109 Após este exemplo, indago: o que são homens, mulheres e crianças camponesas?

Eis uma guerra de identidade dos gêneros, figuras lutando por seus interesses, pelo discurso militante do “politicamente correto”. Não só nos teóricos das sociedades urbanas, ditas “complexas”, especialmente o assim chamado gênero feminino, oprimido, politizado e consciente de si, em sua luta constante contra o assim chamado gênero masculino e/ou as reinvidicações identitárias dos grupos gays, lésbicas, trangêneros, transsexuais, panssexuais, bissexuais e outros sexuais instituídos contra o bicho-papão de uma dita heterossexualidade, que para alguns, além da identidade heterossexual ser hegemônica discursivamente, esta ainda é compulsória110, ou nas ambiências do rural, no trato dos homens e das mulheres camponeses, para não falar das crianças e de outras Coisas mais...111

Em Tristes gêneros, Suely Rolnik (1998a) discorre que os personagens são feitos de figuras através das quais eles se representam, assim como nós os representamos; tais figuras são efetivamente classificáveis em identidades ou gêneros e funcionam segundo uma lógica binária de oposições e contradições, cujo atrito pode transformar-se em conflito112. Logo, o que pensar de uma sexualidade camponesa a partir exclusivamente do dito englobante (macho) e do englobado (fêmea), de um mito adâmico no campo (o corpo- bíblico)? Ou dito de outra forma, como pensar o desejo, e de sua afectação, a partir da centralização na família extensa camponesa, que preserva indiscutivelmente e