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: RAN – SHAKESPEARE PÅ JAPANSK

Dentre os grupos de rap que se formaram nos arredores de Brasília, o Câmbio Negro foi um dos primeiros a despontar no cenário do hip hop nacional. Inicialmente composto pelos DJ Jamaika e MC X, o grupo – constituído no ano de 1990 – gravou seu primeiro vinil em 1993. Devido ao sucesso, algumas de suas músicas foram executadas em rádios comerciais de São Paulo, a terra onde o rap estava mais estabelecido no país (RAFFA, 2007: 238). No ano seguinte, com novos integrantes45, o Câmbio Negro adotou o formato de banda e passou também a participar de festivais de outros gêneros musicais. Essa abertura permitiu que o grupo levasse suas letras e rimas para públicos diferentes.

A composição Diário de um Feto, título do segundo disco do Câmbio Negro, é um exemplo da contundência dos temas e versos do grupo:

Minha mãe lavava, passava, e o dinheiro nunca dava Eu sem poder fazer nada, só observava

Meu pai saía bem cedo, emprego não arranjava Lava carro, engraxava, mas a miséria aumentava

[...] Até que um dia o desespero enlouqueceu minha mãe Disse não querer pra mi aquela vida sofrida

Comida já não havia, agora comíamos lixo Falou que um filho seu jamais seria um bicho Abriu as pernas com uma haste de metal Me furou, machucou, torceu, dilacerou, estocou Minha mãe me matou!!!

44 idem

45 Em 1995, DJ Jamaika saiu do Câmbio Negro. A nova formação incluía os músicos Bell (guitarra), Ritchie

Legítimo representante do rap produzido no Distrito Federal, o Câmbio Negro sempre destacou em suas músicas os problemas e conflitos vividos pela juventude de Ceilândia, “a cidade-satélite mais famosa entre aqueles que curtem o rap nacional país” (RAFFA, 2007: 351) e é um dos responsáveis pela visibilidade que o rap brasiliense adquiriu junto ao público apreciador do gênero no país. O terceiro e último CD do Câmbio Negro foi produzido no ano de 1999, depois da saída do MC X.

Outro representante do hip hop candango é Genival Oliveira Gonçalves. O cidadão brasiliense de 43 anos, que adotou o nome artístico de GOG, é reconhecido no mundo do hip hop nacional como o poeta do rap. Nascido em Brasília, filho de pais recém-chegados do Piauí, GOG ingressou no mundo do hip hop pela porta do break e, atualmente, é um dos rappers nacionais mais celebrados no Brasil. Em entrevista ao Programa Provocações46, concedida em junho de 2008, GOG chegou a ser comparado por Antônio Abujamra aos Racionais MC’s pela contundência do seu discurso e dos seus versos, que estão gravados em oito discos e em um DVD.

Seguidor do rap “consciente” ou engajado, o poeta brasiliense explora temáticas variadas e não utiliza palavrões em suas músicas. O discurso é menos ácido do que o usualmente encontrado no hip hop e figuras de linguagem – como a metáfora – possibilitam interpretações mais amplas para um discurso politizado, que não se compromete com erros grosseiros de português.

A utilização de recursos característicos do “mundo das letras” pode estar ligada à história de vida de Genival. O rapper brasiliense freqüentou escola pública e teve acesso ao ensino superior, estudando Economia por alguns semestres em uma faculdade particular de Brasília. Essa experiência deixou marcas na visão de mundo de GOG, que defende publicamente e em suas músicas, um maior contato da juventude com a literatura e a informação.

A opção por adotar um estilo menos verborrágico e ofensivo é intencional e tem o objetivo de atrair e conquistar novos adeptos, inclusive fora da faixa etária do principal grupo consumidor do gênero: a juventude da periferia. Além de familiares desse público e outras pessoas ligadas à comunidade onde vivem, a fórmula musical produzida por GOG abre espaço

46 Provocações é um programa de entrevistas exibido semanalmente pela TV Cultura, que tem como apresentador o

para que professores, universitários e outras camadas da sociedade tenham uma linha direta com o rap (GOG apud PIMENTEL, 2007: 117).

GOG conseguiu atingir, por meio do seu trabalho com a música, o que muitos rappers sonham: a autonomia financeira. Ao contrário de centenas de artistas e grupos de rap, que dependem de um emprego formal para sobreviver e desempenhar suas atividades musicais, o poeta do rap nacional vive dos seus discos, shows e participações em palestras. A estimativa é a de que, desde o primeiro disco de vinil, GOG tenha vendido algo perto de 400 mil discos, muitos de forma direta, isto é, nos locais onde se apresentava.

O que parece contribuir para a carreira de GOG, que está há mais de 25 anos na estrada, é a disposição para a experimentação e a diversidade. Depois se aproximar da literatura marginal e do repente, o rapper brasiliense gravou e cantou com Lenine a composição de sua autoria Eu e

Lenine, que ficou conhecida pelo nome de A Ponte. Executada em rádios e apresentações de

ambos os artistas, o rap A Ponte evidenciou – mesmo para os não apreciadores do gênero – o talento poético de Genival.

A ponte começou depois mas terminou Bem antes que as obras do metrô Quem mora fora do avião

Bate palma, aplaude, apóia, pede diversão A ponte é muito, muito iluminada

O pôr-do-sol numa visão privilegiada O povo quer passar, vê nela algo místico A ponte virou ponto turístico

É...a ponte simboliza união No nosso caso, Brasília e o sertão

(a ponte não é de concreto, não é de ferro, não é de cimento) É do vermelho, é do azul é de cada elemento

Os versos dessa composição exemplificam a utilização da metáfora em seu discurso. O avião é uma referência que GOG faz ao Plano-Piloto da cidade de Brasília; já a cor vermelha e usada como metáfora para os morenos, pobres, que vivem na região administrativa de São Sebastião que é, freqüentemente, tomada pela poeira fina e avermelhada do solo sem pavimentação. O azul, finalmente, é uma menção irônica aos ricos, que teriam sangue nobre e que se valem da ponte para vencer o percurso entre o Lago Sul (bairro nobre de Brasília) e a região central das repartições e escritórios.

Além da aproximação com a MPB por meio do cantor Lenine, GOG também gravou com Maria Rita e reuniu em seu primeiro DVD nomes como Paulo Diniz e Gerson King Combo. Sua agenda prevê viagens para a realização de, pelo menos, cinco shows por mês e o contato iniciado com representantes da literatura marginal, como Sérgio Vaz e Ferréz, aumentam sua participação em eventos que ocorrem nas periferias brasileiras, especificamente, em São Paulo, caso dos Saraus da Cooperifa47.