Partindo da avaliação do tipo de contactos de cada mulher com os seus familiares e amigos procurámos caracterizar as redes de sociabilidade das nossas entrevistadas. Estabelecemos como critérios de classificação das redes de amizade, quanto à sua amplitude e frequência de contactos, os seguintes:
- rede ampla: número de amigos individuais ou de casal igual ou superior a oito - rede intermédia: número de amigos entre sete e quatro
- rede restritas: número de amigos igual ou menor que três.
- rede apertada se existem contactos com a maioria doa amigos com periodicidade mensal ou menor
- rede rala se o contacto com a maioria dos amigos tiver uma periodicidade superior a um mês.
O grau de intimidade das relações foi explicitado pela própria entrevistada em íntima ou próxima e não íntima.
Relativamente às redes familiares classificámo-las quanto ao tipo de familiares envolvidos no contacto com a mulher e quanto à frequência dos encontros. No que se refere ao primeiro caso encontrámos sociabilidades materno-centradas, centramento parental ego ou parental-conjugal, fraternal ego ou fraternal-conjugal, filial ou familiar alargado. No que se refere à frequência de encontros definimo-las como:
- Intensas: frequência igual ou inferior a 2 semanas
- Moderadas: frequência superior a duas semanas e igual ou inferior a dois meses - Espaçadas: frequência superior a dois meses
Apresentamos nos quadros 11.1 e 11.2 os dados relativos à caracterização das redes de amizade e das sociabilidades familiares nas mulheres de classe média alta (cf. anexo G1)
Quadro 11.1 - Caracterização das redes de amizade das mulheres de classe média-alta
Sociabilidades – Redes de amigos: tipologias
Predomínio conjugal
Predomínio individual
Ampla Intermédias Restrita Apertada Ralas Apertada Rala Apertada Rala
Grupo etário Nome I NI I NI I NI I N I I NI I NI 20-34 anos Carmo Mª João Carolina Carlota Inês
Legenda: I – Íntimas; NI – Não Íntimas
35-49 anos Helena Ana Sara Josefa Isabel Inexistente - 50-65 anos Luísa Rosário Margarida Adriana Teresa
Quadro 11. 2 – Sociabilidades familiares – tipologias na classe social média alta
Sociabilidades familiares – tipologias
Parental Fraternal Grupos
etários
Nomes Maternal Filial Família Ego
Ego Conj. Ego Conj. alargada
Carmo 20-34 Mª João anos Carolina Carlota Inês Helena 35-49 Ana
Legenda: - contacto frequente; - contacto moderado; - contacto espaçado
Analisando os dois quadros anteriores verificamos que, no escalão etário mais jovem deste grupo social, as redes de amizade são amplas para todas as entrevistadas, existe intimidade ou proximidade num número considerável de relações e os contactos são frequentes. Os contactos com familiares são também frequentes privilegiando, contudo, na sua maioria, as famílias das mulheres relativamente às dos respectivos cônjuges. As mulheres do grupo etário seguinte apresentam situações muito diversificadas. Redes de amizades pobres, sem intimidade, e contactos frequentes com familiares como no caso de Josefa. Na situação de Ana, uma rede de amigos ampla, com intimidade mas com contactos familiares individuais, moderados e dirigidos apenas à sua família de origem. Helena nega a existência de amigos do casal, revela uma rede moderada de amigos individuais com os quais mantém um contacto pouco frequente pela existência de distância física e, finalmente, Sara e Isabel apresentam amplas redes de amizades, com intimidade e contactos frequentes e convívio regular com os familiares de ambos os cônjuges. No escalão etário mais elevado três das mulheres, Luísa, Rosário e Teresa, apresentam amplas
anos Sara Josefa Isabel Luisa 50-64 Rosário anos Margarida Adriana Teresa
redes de relações de amizade, com intimidade relacional e também um contacto regular e frequente com outros familiares. Adriana possui não só um vasto número de amigos individuais com que mantém contactos continuados como uma ampla rede de contactos pessoais que decorrem da sua posição de empresária, sendo contudo o convívio com familiares quase dirigido a um dos enteados e Margarida, apresentando uma rede ainda ampla de amigos, tem com os mesmos uma relação mais espaçada no tempo, constituindo os familiares de origem de ambos os cônjuges a principal fonte de contactos regulares.
As situações em que em que não se verificam contactos com o sistema parental ego correspondem a morte de ambos os progenitores, ou, num dos casos, a situações de conflito com os mesmos. De igual forma, o único contacto materno centrado refere-se a uma separação precoce dos pais e a um maior afastamento do pai.
Nos quadros 11.3 e 11.4 apresentamos os mesmos elementos, correspondentes às entrevistadas da classe-média baixa. (cf. anexos G2)
Quadro 11. 3 – Caracterização das redes de amizade das mulheres de classe média-baixa
Sociabilidades – Redes de amigos: tipologias
Predomínio conjugal
Predomínio individual
Ampla Intermédias Restrita Grupo
Etário
Apertada Rala Apertada Rala Apertada Rala I NI I NI I NI I NI I NI I NI Nome
=
Legenda: I – Íntimas; NI – Não Íntimas
20-34 anos Zulmira Leonor Paula Sónia Cristina = 35-49 anos Mariana Esmeralda Olinda Márcia Elisabete Inexistente = = 50-65 anos Georgina Lurdes Valentina Júlia Clara Inexistente Inexistente Inexistente Inexistente Inexistente Inexistente
Neste grupo social as redes de amizade são globalmente menos amplas, predominam ainda os contactos frequentes e uma intimidade relacional. Nas situações de inexistência de relações de amizade as mesmas são recusadas pelas mulheres, que elegem a sua privacidade e intimidade familiar ou, indirectamente afastadas pelo marido. Esta é a situação de Lurdes, com um casamento de 38 anos, cuja família se encontra em fase de ninho vazio:
“Ele tornou-se, agora, muito cioso da minha companhia.”
[Lurdes, 58 anos, escriturária]
Quadro 11. 4 – Sociabilidades familiares – tipologias na classe social média baixa
Sociabilidades familiares – tipologias
Parental Fraternal Grupos etários Nomes Maternal Ego Filial Família alargada Ego Afim Ego Afim
Legenda: - contacto frequente; - contacto intermédio; - contacto espaçado
Aqui a rede de sociabilidades familiares é globalmente menos ampla e os contactos tendem a ser menos frequentes do que na classe média -alta, o que se justifica por uma maior mobilidade geográfica de algumas destas famílias, com residência longínqua dos pais e dificuldades de deslocações frequentes. Existem ainda vários casos de morte dos pais pelo que os elos familiares se passam a fazer sobretudo pelo sistema fraternal.
20-34 anos Zulmira Leonor Paula Sónia Cristina 35-49 anos Mariana Esmeralda Olinda Márcia Elisabete / Georgina 50-64 Lurdes anos Valentina Júlia Clara
11.2 Orientações
Procurámos captar nas nossas entrevistas não só o grau de importância acordado pela mulher à sua actividade profissional, mas também, a importância que esta concede à família, relativamente ao conjunto de campos que constituem a sua vida.
A análise das respostas das entrevistadas, completada com elementos que descrevemos já, noutros capítulos – interesses e actividades individuais e conjugais – possibilitam-nos, de alguma forma, apreender as orientações ou centramentos presentes nas mulheres que entrevistámos.
. No quadro 11.5 apresentaremos, em resumo, os dados atrás mencionados referentes às mulheres de classe média alta, fazendo corresponder a cada mulher o tipo de orientação percebido.
Embora a família seja o espaço prioritário para a maioria das mulheres entrevistadas da classe média alta, não é o único importante. Para algumas, família e profissão têm pesos semelhantes na sua vida e não poderiam facilmente prescindir de qualquer uma delas, como nos refere Helena e Carlota, ambas com orientações polivalentes como poderemos observar em seguida no quadro 11.5.
“Gosto muito do que estou a fazer. Se já gostava de dar aulas, neste momento sinto-me muito realizada porque eu penso que tenho um certo perfil para lidar com este tipo de meninos, para os incentivar, motivar e ensinar as estratégias para que eles possam evoluir. Sinto-me mais satisfeita ainda. E o trabalho realiza as pessoas. E se bem que eu seja caseira e goste de me dedicar à minha casa, ao meu marido e às minhas filhas eu também gosto de trabalhar. O ritmo que eu estava a ter era um ritmo demasiado… mas agora é um ritmo normal e eu estou contente. Eu sou muito caseira, muito esposa e mãe galinha, mas não prescindiria da minha actividade profissional. Estão quase ao mesmo nível mas com fins diferentes.”
[Helena, 39 anos, professora do ensino secundário, duas filhas de 11 e 8 anos]
“ Tem muita importância a vida profissional. É assim, adoro os meus filhos mas acho que não era capaz de estar sem trabalhar. Até porque a minha vida começa às 9.30 e só saio às seis e meia, tenho uma vida muito agitada aqui dentro da farmácia. Gosto muito daquilo que faço e não me estava a ver dondoca em casa. Claro que se acontece alguma coisa aos meus filhos, se eles adoecem, eles tornam-se a prioridade. Mas no dia a dia tenho a vida muito facilitada por ter uma empregada interna. Faz-me tudo. Reconheço que ela é o meu braço direito. Eu digo-lhe: Ela passa mais tempo com eles do que eu, mas não me estava a ver sem trabalhar.”
Quadro 11.5 - Espaços vitais; centramentos ou orientações, das mulheres de classe social média- alta.
Grupos etários
Nome Família Importância da profissão
Interesses ou actividades exteriores à família
Orientação
A prioridade é mesmo, nalguns casos, concedida ao trabalho profissional como nos casos de Margarida e Adriana, onde predominam mesmo centramentos profissionais:
“Sempre foi muita. Às vezes pergunto-me mesmo se eu me devia ter casado. Mas casei, cá estou. Ainda em solteira a actividade profissional foi sempre o que preencheu quase a totalidade da minha vida; se calhar também ocupou muito espaço porque eu não tinha outras coisas para o ocupar. Não foi muito fácil, com esta dedicação profissional que eu sempre tive, enquadrar a minha vida pessoal e familiar. Não foi…nem é. Nem sempre é fácil, embora desde que eu estive doente, tenha tentado diminuir o espaço da vida profissional. Não é só o espaço, é a importância que tem na minha cabeça. Sempre sonhei fazer isto que eu faço e tenho uma expectativa em relação àquilo que faço que é aquilo que eu acho certo ou errado que um médico faça. A minha relação fundamental com os doentes é de ajuda aos doentes. Não é tanto diagnosticar doenças mas ajudá-los a viver com essas doenças e que eles percorram o seu caminho da melhor forma possível. Eu acho que de facto nós estamos cá para ajudar e devia estar o mais tempo possível para ajudar. E tenho dificuldade em gerir este limite. Até que ponto eu estou cá para ajudar e me anulo a mim e ao resto. O resto é a família.
Carmo
importante
Importante; nesta fase menos satisfatório
Politica
Actividades lúdicas ligadas a arte Convívio com amigos
Polivalente Mª João
+ importante
Importante
se possível a meio tempo em algumas fases
Convivo com amigos Algum trabalho voluntário
Polivalente Carolina = importância
= importância
Convivo com amigos Viagens
Polivalente 20-34
Carlota
+ importante
Muito importante Política
Convívio com amigos
Polivalente anos
Inês + importante
Importante mas nesta fase menos; se possível a meio tempo mas não deixaria de trabalhar
Actividades profissionais do marido
Convivo com amigos
Polivalente
Helena
= importância
= importância
Actividades profissionais mutuas Questões sociais
Polivalente
Ana
+ importante Muito importante como desafio e realização pessoal
Convívio com a amigos Actividades lúdicas ligadas a arte Política
Polivalente
Sara + importante
Muito importante como realização pessoal
Convívio com amigos
Actividades lúdicas ligadas a arte
Polivalente Josefa
35-49 anos
+ importante
Não tem Trabalho sindical voluntário Interna Familiar predominante Isabel + importante
Escolha sempre em função da família
Convívio com amigos
Actividades lúdicas ligadas a arte
Polivalente Luísa = importância
= importância
Convivo com amigos Politica
Actividades lúdicas ligadas a arte Realização ocasional de trabalho voluntário
Polivalente
Rosário + importante
Muito importante pela realização pessoal
Convívio com amigos Trabalho voluntário Questões sociais, religiosas e politicas Polivalente 50-64 17 Margarida importante ++ importante
Leitura, viagens Profissional mas com outros interesses 20 Adriana ― importante ++ importante Trabalho voluntário
Convivo com amigos 1º T. profissional 2ºT. voluntário anos
26 Teresa
Se calhar, pelo tempo que eu lhe dou e pela dedicação, se calhar, para mim o mais importante é a profissão.”
[Margarida, 51 anos, médica, casada há 16 anos, uma filha de 13 anos]
“Importância da actividade profissional…É muita. Sempre foi. Até porque eu não tenho filhos, a minha empresa é a obra que eu deixo. É amor. É verdade que eu não consigo estar sem trabalhar. Mas não é só isso, porque eu tenho muito trabalho voluntário e poderia dedicar-me só a isso, mas … é amor à obra feita. Se eu tivesse de ordenar ficaria primeiro a actividade profissional, depois o trabalho na Ordem e por fim a família. Se a actividade profissional acabar, para manter este tipo de vida que eu levo em casa, eu preciso do trabalho na Ordem, preciso de fazer qualquer coisa no exterior.”
[Adriana, 64 anos, economista, empresária, 2º casamento há sete anos, sem filhos]
Mesmo para as mulheres para quem a família toma a primazia, a profissão continua sendo um importante espaço da sua realização pessoal como o afirmam Inês e Carlota, ambas com orientações polivalentes:
“Neste momento (a profissão) é secundária. Eu gosto daquilo que faço, mas neste momento punha as minhas filhas em primeiro lugar. Mas não deixaria de trabalhar porque gosto do meu trabalho. Não me via sem trabalhar. Se eu tivesse um part-time se calhar gostava. Podia ter um bocadinho mais de tempo para mim sozinha… se calhar gostava. Mas deixar de trabalhar não. E não me posso esquecer que elas também crescem e o que agora me ocupa muito tempo depois vai passar…Depois o que é que eu faço? E gosto mesmo daquilo que faço.”
[Inês, 34 anos, ictiopatologista, duas filhas de 3 e 1 ano]
Neste momento já tem mais importância do que teve, por exemplo, há dois anos. Porque como elas já estão mais crescidas eu já consigo estar aqui a 100%. E eu acho fundamental ter a minha actividade profissional. Se estivesse em casa dava um bocado em doida, não é? Não conseguia. Eu acho que é importante estarmos ocupadas com outras coisas.
A família tem mais. Até porque se é preciso alguma coisa, eu saio daqui, nem que tenha que vir para cá trabalhar à noite, mas vou ter com elas ou com o meu marido, se ele precisar, mas mais com elas…Não sei porquê, mas se calhar porque elas precisam muito de mim
[Carlota, 31 anos, engenheira agrónoma, três filhas de 5, 3 e 2 anos]
Apenas Josefa, actualmente sem desempenho profissional, e dedicando uma parte do seu tempo a trabalho voluntário, considera a família como a sua área vital primordial, ainda que sobre tal se possa exprimir da seguinte forma:
“Quando trabalhava sentia-me mais independente e por outro lado mais útil às pessoas…Podia ajudar. Sinto falta… Desde pequena fui educada para trabalhar fora, para ser útil e depois chegou uma certa altura…fiquei pela família.”
[Josefa, 41 anos, assistente social, desempregada]
De um modo geral, neste grupo de maiores recursos económicos e sociais, os centramentos são preferencialmente polivalentes, embora exista, num expressivo número de situações, um grande envolvimento profissional.
Quadro 11. 6 - Espaços vitais, centramentos ou orientações das mulheres de classe social média-baixa.
Também neste grupo social a família parece ser a área de maior investimento de uma parte significativa das mulheres entrevistadas. Ainda que o trabalho profissional pareça adquirir aqui uma menor importância, particularmente no último escalão etário, a verdade é que, mesmo não sendo sempre o trabalho idealizado, ele se torna imprescindível para algumas das mulheres e não apenas por questões de ordem económica. Assim o entendem, entre outras, Zulmira e Esmeralda que evidenciam uma orientação polivalente:
“Neste momento, aquilo que eu faço eu não gosto. É bom a gente fazer uma coisa que de facto a gente gosta. O que eu faço eu não gosto, em primeiro lugar. Em segundo lugar a minha profissão, eu faço para não ficar parada, sem dinheiro. Quando uma mulher trabalha, mesmo naquilo que ela não gosta, ela sente mais liberdade. Tem dinheiro, compra aquilo que quiser, ela se sente livre, mesmo que esteja com alguém, ela sente-se livre. Ela tem dinheiro dela, ela faz aquilo que ela quiser.
Grupo etário
Nome Família Importância da profissão
Interesses ou actividades exteriores à família
Orientação Zulmira + importante Embora sem gostar, considera
importante
Aspectos religiosos Vida académica
Polivalente
Leonor + importante Não tem Família de origem Familiar 20-34
anos
Estudar eu gosto. Gosto muito. Eu quero atingir um objectivo. É uma luta, eu tenho de conseguir. Mas para mim a família está em primeiro lugar. Se o meu marido estiver doente eu não vou trabalhar e também não vou às aulas. Quer dizer… Em primeiro lugar é Deus; a família em segundo lugar. Com a parte religiosa você se sente mais forte mesmo para lidar com algumas dificuldades em casa.”
[Zulmira, 26 anos, empregada de cozinha, estudante do 12º ano, sem filhos]
“É uma coisa que eu gosto, acho que tem muita importância. Agora se ficasse sem emprego também acho que me ia sentir a pessoa mais infeliz deste mundo. Eu comecei a trabalhar aos 14 anos e a vida profissional para mim é muito importante. Por causa do dinheiro e por causa de tudo, porque acho
Paula + importante Deixou o trabalho e optou pela família
Os mesmos do marido Familiar
Sónia = importância = importância Convívio com amigos Polivalente Cristina + importante Gostava de fazer outra coisa Família de origem Familiar
Mariana - importante + importante Convívio com amigas e mãe Polivalente Esmeralda + importante Importante por se sentir útil ---- Polivalente Olinda + importante Desempregada – pré-reforma --- Familiar Márcia + importante Muito importante também Trabalho voluntário regular
Actividade académica
Polivalente 35-49
anos
Elisabete = importância = importância Convivio com colegas Polivalente e amigos
Georgina + importante o marido
Não é importante Não tem Familiar Lurdes + importante Hoje é menos importante Familiar 50-64
Valentina + importante Não tem, mas já foi muito importante
Não tem Familiar anos
Júlia + importante Não tem Não tem Familiar Clara + importante Muito importante Convivio com amigos Polivalente
que assim não nos sentimos inúteis. E depois, aquilo é uma coisa que nós temos. Tenho o trabalho, tenho obrigações, tenho de cumprir. Assim como em casa, sou uma peça fundamental.”
[Esmeralda, 41 anos, auxiliar de educação]
Para Sónia e Elisabete, família e profissão parecem ter nas suas vidas pesos muito semelhantes:
“Ah é tudo (importante), porque eu gosto do que faço! A família está primeiro mas… é ela por ela.”
[Sónia, 33 anos, cabeleireira]
“A vida profissional tem muita importância. Gosto do trabalho. Mesmo que pudesse não deixava. Também pelos colegas; nós somos dez com o nosso chefe onze e vivemos em família. Se for preciso algum fazer um serviço quando outro não faz não há problema.
Embora goste do que faço eu gosto muito da família. Têm o mesmo peso. Sim, aliás eu sacrifico muito a minha família por causa do meu trabalho. Entro às 10h e devia sair às 16h e nunca saio antes das 18h. A família e o trabalho passam sempre à frente.”
[Elisabete, 41 anos, técnica de sinalização luminosa]
Apesar de um grande investimento de algumas mulheres na actividade profissional, predominam neste grupo social famílias cujos centramentos são essencialmente internos, familiares, em contraste com as orientações maioritariamente polivalentes das famílias de capitais escolares e económicos mais elevados. Os casos de Paula e Georgina revelam esta orientação familiar preferencial:
“Quando foi preciso, optei pela família. Deixei tudo em Lisboa, o trabalho, a minha família, os amigos, e fui com o meu marido.”
[Amélia, 34 anos, recepcionista de consultório, desempregada]
“ Eu gosto tanto do meu marido; punha-o a ele em primeiro lugar. O meu marido ocupa sempre o primeiro lugar.”
[Georgina, 53 anos, dama de companhia]
11. 3 Abertura familiar
A análise simultânea das sociabilidades e das orientações familiares permite-nos traçar para cada família o perfil do grau de permeabilidade das suas fronteiras externas, ou seja, do grau de abertura familiar. Com base nos critérios expostos no quadro seguinte
considerámos três graus de abertura das famílias ao exterior: abertura, abertura fraca e fechamento
Quadro 11.7 - Graus de abertura familiar e respectivos critérios de inclusão
Abertura familiar Moderada abertura familiar Fechamento familiar
Existência de diversas formas de convívio exterior à família, rede ampla de contactos
e Orientação externa ou polivalente
Existência de diversas formas de convívio exterior à família mas com orientação familiar ou conjugal
ou
convívio familiar predominante com elementos da família alargada e orientação polivalente ou externa
Contactos predominantemente dirigidos à família alargada ou inexistência de contactos exteriores ao núcleo de coabitação
e
Orientação conjugal ou familiar
Os resultados da classificação, quanto ao grau de abertura familiar, das famílias das mulheres entrevistadas encontram-se patentes no quadro 11.8
Quadro 11.8 - Grau de abertura familiar: resultados por grupos etários e classes sociais Classe Social Média-Alta Classe Social Média-Baixa Grupos
Etários
Nome Grau de Abertura Familiar Nome Grau de Abertura Familiar Carmo Abertura Sónia Abertura