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6.3 Resultatanalyse

6.3.5 Rammefaktorer og ytre påvirkninger

A efervescência da revista Presença, no início de 1930, não foi suficiente para apaziguar os conflitos decorrentes da diversidade de opiniões dos colaboradores a cada número. Embora houvesse o convívio cordial entre escritores de Coimbra e de Lisboa, as individualidades começavam a se fazer notar.

É Adolfo Casais Monteiro, numa recolha de textos publicada nos anos de 1970, que salienta a “diversidade do espírito Presencista”33 a fim de rebater a ideia corrente de que

havia “unidade de pensamento” entre os colaboradores da revista. Para Casais Monteiro, essa falsa impressão foi difundida, sobretudo, por João Gaspar Simões, um dos historiadores do movimento, que, em seu estudo-antologia História do movimento da Presença (1955), supostamente, teria apresentado como posicionamento consensual da revista aquilo que refletia, na verdade, sua opinião particular. Casais Monteiro também condena as análises que identificam o ponto de vista da Presença atrelado exclusivamente às ideias do mentor da revista, José Régio, como, segundo sua opinião, seria a tônica do importante e polêmico ensaio de Eduardo Lourenço “Presença ou a contra-revolução do Modernismo Português” (1961).

Segundo Casais Monteiro, nunca houve “unidade” strict sensu. Havia apenas unidade nos textos assinados pela redação, uma vez que cada colaborador era o responsável único por aquilo que escrevia. Jorge de Sena, por sua vez, com o mesmo intuito de mostrar as disjunções ocorridas no movimento, rebate a noção de que houvesse em Portugal uma “Geração presencista”, pois entende que na medida em que coexistiram no período vários

32 DI, p. 128.

33 CASAIS MONTEIRO, Adolfo. O que foi e o que não foi o movimento de Presença. Lisboa: Imprensa

grupos de escritores, também nascidos na primeira década de 1900 tal qual os expoentes do presencismo, estes não poderiam ser considerados uma “geração”, como denomina Régio e depois, Lourenço, mas somente um “grupo”. Jorge de Sena afirma:

(...) sucede que grande parte dos neo-realistas, a gente dita dos Cadernos de Poesia, mais muitos dos que se reuniram na Távola Redonda e na Árvore, e até os mais velhos dos surrealistas, somos na verdade todos uma só geração. E isto nos permite talvez situar e compreender o “presencismo”, como ao mesmo tempo uma época e um grupo estrito, desde que não atribuamos àquele ismo um carácter rígido de unidade doutrinária, ou de prática estética, que ele não possui34.

Além de aludir a tais disjunções, Sena refuta com veemência a ideia de que seria ele mesmo um membro epigonal do movimento. Ao mesmo tempo, o trecho em destaque ajuda a compreender alguns fatores da dissidência de membros da revista em 1930. Passada a fase inicial de formação e début literário, quando a convivência intelectual facilitava a circulação de ideias, as variadas perspectivas individuais que iam se definindo nem sempre convergiam para os rumos estéticos propostos pela direção da revista. Essa circunstância parece ter motivado a decisão de Adolfo Rocha, Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bittencourt de enviar uma carta aberta de ruptura aos diretores da Presença, datada de 16 de junho de 1930. Vejamos o trecho inicial:

A “Presença” que se propunha, como folha de arte e crítica, defender o direito que assiste a cada um de seguir o seu caminho, começou a contradizer-se.

A força dos que, dentro dela, nesse sentido trabalham, vai sendo aproveitada, a pouco e pouco, para marcar um caminho padrão.

Aclamando a liberdade em arte e, consequentemente, o individualismo na criação artística, individualismo que a nós se impõe como o que há mais verdadeiro no modernismo, e acima de qualquer lugar que lhe possa caber em mais definições e interpretações, presença aponta-nos confiante, a perspectiva de um tipo único de liberdade35.

A breve carta deixa a entender que os três dissidentes estavam à procura, cada um a seu modo, de um novo espaço de criação individual, livre do caráter doutrinário para o qual parecia caminhar a revista. Nesta carta, indiretamente, vemos uma crítica ao papel de “mestre” do grupo atribuído então, nos círculos jornalísticos de Lisboa, a José Régio.

Embora nos pareça plausível que a principal razão do desligamento de Miguel Torga da revista tenha sido a procura por identidade e individualidade – como sugere a imagem de escritor “independente”, como tantas vezes foi descrito ao longo de sua carreira – a pequena

34 SENA, Jorge de. Régio, Casais, a “presença” e outros afins, cit., p. 21. Nota: Cadernos de poesia, Árvore e Távola redonda foram revistas literárias portuguesas dedicadas à poesia, nas décadas de 1940 e 1950.

história registra ainda uma ou outra rusga que contribuíram para pôr termo à contribuição. Jorge de Sena vai nessa direção quando afirma: “As dissidências da presença, todas na base das rivalidades pessoais, mostram como a presença nunca superou as suas origens juvenis, senão muito significativamente, para fins de história literária”36.

Ao contrário do que ocorreu com outros membros da revista que posteriormente vieram a público para manifestar as razões da separação, Miguel Torga nunca quis esclarecer publicamente os motivos de sua dissidência. Preferiu silenciar suas razões, mesmo que tenha deixado algumas indicações nos seus escritos, como a passagem de A criação do mundo em que menciona a ruptura da qual fora o “principal responsável” ou a carta endereçada a Eduardo Lourenço, em que menciona, em tom de desabafo, a antiga querela:

Quanto à cisão, propriamente dita, toda a gente sabe, e os novos estão à vista, que se tratou dum limpo e legítimo acto de discordância do caminho que a PRESENÇA levava, além do mais guiada pelo espírito apaixonado, dogmático e rancoroso do mesmo Simões que começava nessa altura a tomar o freio nos dentes e ainda agora, à distância de tantas léguas, não é capaz da mínima compreensão ou respeito por ninguém. Essa discordância de fundo e de forma, que de minha parte tentei justificar depois como pude, fundando o MANIFESTO, escrevendo o que escrevi e colocando-me na situação em que me encontro, é hoje para mim tão actual como então. Se voltasse atrás, repetiria na mesma paz de consciência o que fiz em nome de uma arte que continuo a querer livre e rebelde, e arejada por todos os ventos da vida37.

De qualquer forma, na época da ruptura, o influxo presencista já havia sido recebido. A publicação havia apresentado e discutido, em suas páginas, autores emblemáticos para o projeto literário de Miguel Torga, como Marcel Proust, André Gide, Fiódor Dostoievski, Eça de Queirós, Ortega y Gasset, Fernando Pessoa entre muitos outros. A partir daí nosso autor encontrava-se pronto para trilhar seu próprio caminho como leitor, poeta e escritor intimista.

36 Id., Ibid., p. 79.