No modelo neoclássico as variáveis reais são determinadas de forma independente das variáveis nominais e não dependem, de forma alguma, da quantidade de moeda em circulação. A moeda tem o único propósito de determinar o nível dos preços e, consequentemente, as variáveis nominais. Isto significa que choques monetários afectam apenas, e só, as variáveis nominais. No entanto, choques reais, não só afectam as variáveis reais como também as variáveis nominais. Este resultado ficou conhecido na teoria macroeconómica por “dicotomia neoclássica”. Para um melhor entendimento no que se refere à dicotomia neoclássica, analisemos separadamente os efeitos de um choque monetário e de um choque real positivos.
No modelo neoclássico, um choque monetário positivo faz com que a oferta nominal de moeda (MS) aumente e, instantaneamente, origine um desequilíbrio no mercado monetário
(MS>MD). O aumento da oferta nominal de moeda vai fazer com que o nível de preços
comece a aumentar até o ponto em que o mercado monetário atinja um novo equilíbrio (MS=MD). No novo equilíbrio, o nível de preços terá aumentado na mesma proporção que o
aumento verificado na oferta nominal de moeda (equação 2.33). Consequentemente, os valores nominais das variáveis agregadas também vão aumentar, nomeadamente o salário nominal e na taxa de juro nominal (equações 2.34 e 2.35, respectivamente), enquanto as variáveis reais permanecem inalteradas, nomeadamente o nível de emprego e produto
agregado real. Por outro lado, um choque real positivo, por exemplo, na produtividade marginal do trabalho, faz aumentar o nível de emprego e o nível do produto agregado real de uma economia (ver figura 3). Um aumento do produto agregado real faz com que a procura nominal de moeda aumente e, instantaneamente, surja um desequilíbrio no mercado monetário (MS<MD). No modelo neoclássico, o desequilíbrio no mercado
monetário é suprimido pela sucessiva diminuição do nível de preços até que se atinja o equilíbrio monetário inicial. Consequentemente, algumas variáveis nominais alteram-se, nomeadamente a taxa de juro nominal, que diminui (equação 2.34). Portanto, no modelo neoclássico, enquanto choques monetários afectam, somente, as variáveis nominais, choques reais afectam, tanto as variáveis reais, como nas variáveis nominais.
3. “Teoria geral” de Keynes
A “teoria geral” de Keynes surgiu em 1936 com a obra “A teoria geral do emprego, do
juro e da moeda”35, da autoria do economista britânico John Maynard Keynes. A “teoria
geral” ou, se quisermos, o modelo de Keynes, a surgiu num período particularmente relevante na medida em que a teoria macroeconómica neoclássica denotava incapacidade em explicar alguns dos fenómenos macroeconómicos contemporâneos, nomeadamente os que resultaram da Grande Depressão.36
De acordo com o modelo macroeconómico neoclássico, o elevado desemprego (involuntário) registado nas principais economias afectadas pela Grande Depressão seria (deveria ser) automaticamente suprimido pela “mão invisível” do mercado de trabalho, através da diminuição do salário nominal e, consequentemente, do salário real, até o ponto em que as horas procuradas de trabalho igualassem as horas oferecidas de trabalho. A verdade é que, nos anos que se seguiram à Grande Depressão, mais concretamente entre 1931 e 1934, não só não se verificou uma queda abrupta nos salários nominais como, devido à forte queda no nível dos preços, os salários reais aumentaram na maioria das principais economias afectadas e provocaram um aumento do desemprego involuntário.37 Note que foi exactamente na sequência destas contrariedades que surgiu a “teoria geral” de Keynes, provavelmente a obra e o autor mais influentes da teoria macroeconómica do século XX.
Consciente das limitações dos princípios microeconómicos na explicação da teoria macroeconómica, Keynes apresentou uma “teoria geral” assente em princípios macroeconómicos pioneiros que revelaram-se fundamentais na explicação do comportamento agregado dos agentes económicos. O “princípio da procura efectiva”, reconhecido como um dos principais argumentos de Keynes, estabeleceu pela primeira vez
35
Tradução do título original “The general theory of employment, interest and money”. 36
A Grande Depressão foi o maior e o mais duradouro colapso económico mundial do século XX. Teve origem nos Estados Unidos em 1929 com a queda da bolsa de valores de Nova Iorque, New York Stock Exchange, e rapidamente afectou em larga escala a economia mundial, nomeadamente a Alemanha, França,
Itália, Holanda, Reino Unido e, em especial, o Canadá. De entre os principais resultados (negativos) da Grande Depressão destacam-se as elevadas taxas de desemprego e as quedas acentuadas do produto real e dos preços. Ainda que a recuperação económica de alguns destes países tenha começado a partir de 1932/33, a verdade é que os efeitos negativos da Grande Depressão persistiram até os finais da década de 30, princípios da década de 40, altura em que despoletou a Segunda Guerra Mundial (1939-45) – Romer (1993).
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que o produto agregado nominal de uma economia é determinado pela condição de equilíbrio do mercado agregado de bens, e não pela condição de equilíbrio do mercado laboral, e depreendeu que o nível de “pleno” emprego não é, nem pode ser, considerado uma condição “infalível” de uma economia. Aliás, segundo o autor, o desemprego involuntário é que é, geralmente, uma condição inevitável e persistente nas economias, originado pelos problemas de procura efectiva.38 É por isso que, segundo Keynes, a política monetária e, sobretudo, a política orçamental têm um papel fundamental na actividade económica, quer na minimização dos efeitos adversos dos ciclos económicos, quer na prossecução dos principais objectivos macroeconómicos. A “teoria geral” de Keynes não só influenciou as políticas económicas seguidas por muitos países neste período (décadas de 30 e 40) como prevaleceu até a década de 60, contribuindo para uma nova “revolução” no pensamento económico (“revolução keynesiana”) e para o desenvolvimento da teoria macroeconómica moderna.39
O objectivo deste capítulo é expor, de forma concreta e concisa, como é que se determinam as principais variáveis macroeconómicas de acordo com a “teoria geral” de Keynes, nomeadamente os níveis do produto real (Y) e do emprego (L), o salário real (W/P) e
nominal (W), o nível dos preços (P) e as taxas de juro real (r) e nominal (i).40 Para o efeito destacam-se três componentes fundamentais do modelo: (i) o princípio da procura efectiva, (ii) a teoria dos investimentos nominais e (iii) o mercado monetário. A primeira componente estabelece como é que se determina o produto agregado nominal de equilíbrio de uma economia, a partir da qual se determinam as “restantes” variáveis macroeconómicas, nomeadamente o nível de emprego, enquanto as duas últimas explicam como é que se determinam o nível de investimento agregado nominal e a taxa de juro nominal de mercado de uma economia. O objectivo final é percebermos a importância da política monetária e, sobretudo, da política orçamental na determinação das respectivas variáveis macroeconómicas.
38
Note que este representa o principal argumento de Keynes na rejeição da “lei de Say” do modelo macroeconómico neoclássico.
39
Na literatura económica, John Maynard Keynes é considerado o fundador da teoria macroeconómica moderna.
40
Note que estas são exactamente as mesmas variáveis que foram determinadas no modelo macroeconómico neoclássico (ver introdução do capítulo 2). Esta uniformização é importante para percebermos as análises e conclusões distintas dos dois modelos (que constitui o principal objectivo deste trabalho).
É com base nesta sequência metodológica que vou apresentar de seguida o “modelo” de Keynes. À semelhança do que está exposto na “teoria geral” eu vou expor (essencialmente) as conclusões do modelo para uma economia fechada, sem Estado.41