O principal privilégio do qual desfruta esta família é o fato de que o pior, em termos de violência, não chegou a acontecer, apesar das graves seqüelas que ficaram em Rebeca. Pode-se afirmar que não são apenas seqüelas físicas que afetaram esta mãe, pois, durante a entrevista, ela comenta do vazio e do medo que sente, e de sua vontade de realizar um tratamento psicológico. A violência não matou, mas deixou marcas: algumas visíveis, outras, mais sutis.
Analisando o genograma, percebemos que não há relato de violência intrafamiliar, porém, situações de violência rondam a família há bastante tempo, pois, a
violência do contexto teve reflexos diretos na vida de todos os membros. A cultura da violência aparece claramente na trajetória dos filhos adolescentes, pois, o envolvimento com a Justiça espelha as situações de risco às quais estavam expostos. Faltou conhecer mais a fundo o relacionamento entre os dois irmãos e a história do envolvimento com infrações de Saulo, ficando a incógnita sobre, até que ponto, possa ter influenciado o comportamento de Jó. Podemos levantar a hipótese de que, provavelmente, acompanhar a trajetória do irmão mais velho tenha refletido negativamente na conduta de Jó. A permeabilidade das fronteiras entre ser vítima ou autor de violência também aparece na história dos dois, pois, ambos quase foram vitimados por suspeitas de que tivessem participado da morte de outros jovens.
Ainda a partir do genograma, vemos que a irmã caçula, que aparentemente está fora desse circuito, na verdade, está incluída, pois, apaixona-se justamente por um traficante violento. Lia buscou o risco através do namorado, que lhe agrediu e a ameaçou de morte, deixando-a numa mistura de medo e afeição. A recente morte do rapaz, afetou sobremaneira, não apenas Lia, que presenciou a cena, mas toda a família, agravando o sofrimento e a sensação de insegurança vivenciados. Sabemos que um assassinato sempre gera ressonâncias complicadas e Rebeca relata que não dorme, tem medo e ficou mais traumatizada.
Historicamente, a família falhou na tarefa de proteger os adolescentes. Quando analisamos a linha do tempo, um ponto importante é o fato de Jó ter começado a fazer uso de drogas ainda muito cedo, num período em que os pais já estavam separados. Talvez, a ausência do pai tenha influenciado na dificuldade de Rebeca estabelecer limites sozinha e dar conta de criar os filhos sem a assistência paterna. Rebeca revela que a mãe deve acolher o filho, mesmo quando ele está no mundo do crime. Revela, assim, a cumplicidade como única forma de dar amor.
Pensando ainda no ciclo de violência que os envolve, parece que o grave atentado sofrido por Rebeca não foi suficiente para permitir que Jó revisse suas atitudes, pois, ele mesmo ressalta que, “ficou ainda pior”. A inconseqüência de seus atos é clara nos sucessivos atos infracionais cometidos sem questionamentos acerca dos riscos aos quais estava exposto. Em nenhum momento pensava no fato de que suas atitudes expunham toda a família e poderiam afetar a todos. Nada nem ninguém, naquele momento, teriam a capacidade de impor-lhe limites. Ao contrário, quanto mais a família
era vitimizada, mais eram incitadas as práticas de violência. Quando Jó e Saulo planejaram vingança, tinham claro que a morte poderia alcançá-los também.
O que demarcou o rompimento de Jó com o mundo da ilegalidade foi sua conversão religiosa. Toda a família apega-se à Igreja como única possibilidade de mudança. Parece que, até agora, este objetivo vem sendo atingido e Jó busca afirmação e inclusão através da Igreja. Talvez, de alguma maneira, essa mudança de vida já estivesse sendo processada dentro de Jó, faltando apenas o estopim, que foi justamente o seu contato com a religião e a sensação de nela ter sido verdadeiramente acolhido. A conversão lhe trouxe a chance de voltar a ser gente, vislumbrando novas perspectivas como cidadão, numa postura mais reflexiva acerca do próprio comportamento. No ritmo em que estava, de total exposição a riscos, no futuro só encontraria o vazio.
Outra reflexão a ser feita é a respeito dessa mãe vitimizada. Em todas as famílias entrevistadas nesta pesquisa, a mãe é sempre colocada num altar, como uma figura quase santificada pelos jovens e que, ao menos no discurso, deve ser preservada de qualquer sofrimento. Nesta família, porém, justamente a mãe tornou-se a pessoa mais atingida. A violência sofrida acaba, inevitavelmente, sendo constantemente atualizada, pois, cada vez que Rebeca tenta falar e não consegue, a história de alguma forma é revivida. Impossível esquecê-la. Este trauma é traduzido nas palavras de Rebeca quando ela diz ter se tornado uma pessoa com medo de tudo. O sofrimento psíquico aparece de forma sutil, mas permeia o cotidiano de todos.
Por mais que tenham descrito o processo de perdão vivenciado com o agressor, as feridas nunca serão totalmente apagadas. O contexto da cadeia permitiu que o perdão ocorresse, pois deu uma contenção. O processo de perdão é descrito de uma forma intensa e foi vivenciado como um grande alívio, pois, através da força da religião, tornou-se possível romper com um ciclo maldito: violência – medo - vingança - violência. O rapaz quis matar Jó, atingiu Rebeca, levando Jó a querer vingar a mãe. Se tivesse feito algo, alguém da família do agressor poderia novamente vingar, e o ciclo se perpetuar por gerações. A religião ofereceu à família o corte necessário para essa redenção. A trajetória do sofrimento ao perdão gerou alívio para todos. A maldição foi rompida. O agressor revela que, por medo de vingança e retaliações, já havia planejado o extermínio de todos como uma forma de proteger-se. Pensava em matá-los e, este plano, desvela a lógica de que a única forma de proteção vislumbrada é provocar mais
violências, é a eliminação daquele que aparenta ser uma ameaça em potencial para a própria sobrevivência. Rebeca reconhece no olhar de seu agressor o que o iguala a seus filhos. Consegue ver a sua dimensão humana e a semelhança entre todos os adolescentes, que estão no mesmo barco (ou, poderíamos dizer, na mesma canoa furada). Quando pensa na mãe do rapaz, na verdade, toma a consciência de que, com muita facilidade, também poderia ocupar o lugar dessa mesma mãe, vendo seus próprios filhos praticando os mesmos atos. São meros espelhos, nos quais vítima e algoz se fundem numa imagem só.
O uso de drogas aparece como porta de entrada para a criminalidade. O tráfico é a iniciação num novo mundo, distante da miséria do dia-a-dia: o mundo do consumo, do dinheiro no bolso, do prestígio, da aventura, no qual se pode ser amado e temido ao mesmo tempo e, acima de tudo, ser visto. A marca de virilidade torna-se de maior valor do que o risco de perder a própria vida. Mãe e filho revelam que o mundo do crime está ligado à construção de uma identidade e à possibilidade de adquirir um reconhecimento. Os fatores que são designados como promotores do envolvimento com atos ilícitos são a falta de emprego e a falta de perspectivas. Por trás deles, encontramos a significação maior: a “mente vazia”. Neste momento de vida, é visível o reconhecimento desta família de que se pode “ser mais” de outras maneiras também, existem outras formas de colocar-se no mundo e de preencher a mente. A religião parece, realmente, ter dado a possibilidade de Jó “religar-se” polindo-se de tal maneira que foi possível encontrar seu próprio brilho. Usando essa metáfora, podemos dizer que ele se tornou, ou melhor, está se tornando, sim, uma “pedra lapidada”, na qual as arestas estão sendo aparadas, até revelar sua verdadeira beleza e valor. Toda a situação vivida por Jó anteriormente, provavelmente, ofuscava essa possibilidade.