do fiel insere-o em um sistema tão amplo que atualiza o conceito da instituição: o Vale do Amanhecer é uma doutrina política, afinal, as identidades dos adeptos são desconstruídas e reconstruídas para que possam ser inseridos a novas hierarquias associadas a redistribuições de cargos, responsabilidades, personalidades e poderes. O indivíduo está amplamente burocratizado, pois passa a ter a segurança de cavaleiros ou guias missionárias, são chamados de jaguares, doutrinadores, Aparás, yuricys e fazem parte de novas hierarquias de
121 forças, sendo portanto, Arcanos, 7° Raios etc. Assim, temos uma conceituação que aglutina todas as outras qualidades levantadas anteriormente sobre o Vale. Afinal, se anteriormente destaquei a crença na vida após a morte, o resgate cármico, a divisão paramilitar e as desobsessões de espíritos, podemos dizer agora que estas hierarquias e qualidades políticas estão associadas ao resultado cármico do passado de outras vidas e funcionam para a elevação de espíritos para a casa transitória de Mayante.
Nada disso seria possível, afinal, se o adepto participasse de acordos ou conflitos árduos contra espíritos do Vale Negro sem a preparação adequada. Os adeptos precisam saber como conversar ou lutar contra espíritos, por isso, aprendem a desempenhar os rituais, recebem nomenclaturas hierárquicas, utilizam armas adequadas, ou seja, energias superiores, e se posicionam corretamente em postos para desempenhar funções estabelecidas.
Havia concluído anteriormente que a doutrina do Vale do Amanhecer, devido ao mecanismo de funcionamento e periodicidade dos rituais, organiza-se como um Estado soberano. O portal do Vale, o ritual de Abatá e de Imantração protegem o território da cidade contra as forças do caos e da desordem referentes às margens. Entidades, rituais e adeptos participam deste procedimento contra espíritos que não aceitam a lei.
Ademais, lembremos que o centro do Estado do Vale do Amanhecer é um corpo burocrático extraterreno, existente em uma região abstrata, sem deixar de ser onipresente e inalcançável ao mesmo tempo. Isso implica na diferenciação e pluralização de seus representantes, para que se possa garantir a comunicação e a administração de uma doutrina. Por causa da morte de Tia Neiva, a fala de Pai Seta Branca tornou-se perdida, mas representada pelos inúmeros Pretos Velhos. Da mesma forma, suas determinações foram substituídas pelos Trinos, com a diferença de que, agora, as decisões não têm o aval da voz soberana. Enquanto sua voz se diversificou, o seu comando se unificou, afastando-se do centro supremo. Assim, com o objetivo de se aproximar de orientações mais pertinentes, os adeptos são fiéis às informações dos Pretos Velhos, dando pouca importância aos Trinos para valorizar mais o braço extraterreno do Estado do Vale do Amanhecer.
Como consequência desta divisão, podemos avaliar estes dois representantes do Estado, considerando dois aspectos distintos, baseando-nos em um mecanismo fornecido por Ferguson. Exatamente como foi explicado por este autor, o Estado na ótica dos Trinos é apenas um ponto de coordenação e multiplicação de relações de poder. Por outro lado, conforme Pretos Velhos, rituais e energias, Estado é uma substância movimentada entre
122 indivíduos, entidades e rituais, sendo apenas, por meio deste circuito, uma fonte de poder e de cura.
Este Estado soberano extraterrestre possui também uma organização burocrática com seus respectivos representantes responsáveis pela realização dos rituais e da aplicação de seus objetivos. Afinal, em uma distribuição hierárquica tão rigorosa, este Estado exigiria um representante supremo, responsável por decisões que atendem à instituição em aspectos pragmáticos conforme a sua fundação, e a divulgação de suas leis. Também foi ele quem indicou principais representantes entre adeptos da doutrina. Por outro lado, Pai João de Enoch é o executivo do Vale do Amanhecer nos planos espirituais, enquanto que Pai Joaquim das Almas, Pai João de Enoch e Pai Zé Pedro são responsáveis pelo sistema jurídico.
Outrossim, tentamos dar um sentido ao intenso rigor na constância da realização de rituais que implicam uma defesa no território da doutrina: o Vale do Amanhecer não é apenas um sistema burocrático, mas sobretudo um Estado colonizador extraterreno. Isto não implica em uma qualidade cosmológica apenas, mas em uma justificativa de seu mecanismo de funcionamento: sendo um Estado invasor, luta para manter sua ordem coesa em território adverso, sempre atento às reações provenientes de espíritos das margens, tais como os do Vale Negro. Objetivando garantir seu domínio sobre estas entidades, utilizam não apenas do recurso da força, mas também de mais dois outros, o da educação e o da justiça popular. Interpretamos aqui como um método educacional o processo que visa a orientação de espíritos recém chegados à casa transitória de Mayante e o procedimento de orientação que ocorre durante o desempenho do ritual, com o intuito de transformar o modo de pensar da entidade subjugada. Aquilo que chamamos de justiça popular é o método pelo qual a vítima decide sobre a absolvição de seu antigo algoz, hoje o adepto da doutrina, após um certo período de expiação. Agindo deste modo, as inúmeras vítimas de antigas encarnações aplicam uma sentença particular para cada caso, atualizando, assim, o conceito de direito de equidade. Neste caso, quando o espírito entende que houve justiça, aceita seu englobamento no Estado de Pai Seta Branca.
Como se fosse uma consequência deste pensamento, temos a análise de Deleuze e Guattari sobre dois polos de política soberana: o polo de defesa e o jurídico. Sua abordagem muito nos interessa, em virtude da similaridade de suas conclusões com o mecanismo encontrado nesta etnografia. Com base no trabalho destes autores, concluí que o Vale do Amanhecer aplica a violência por meio da manutenção de suas defesas, pois emprega um
123 processo de captura através de redes magnéticas contra os espíritos periféricos, e pelo empenho da justiça contra seus próprios adeptos, devido à submissão e à privação a que os submete. Não podemos nos esquecer, ainda com base nos mesmos autores, que o próprio sistema emprega da violência da usurpação visto que, para a montagem do sistema do Estado, os adeptos do Vale do Amanhecer são submissos a uma espécie de servidão, como peças de uma máquina, pois devem manter com frequência seus rituais mediúnicos, estando sob a direção e controle de uma unidade superior. Seus bônus de trabalhos espirituais também são submetidos a uma espécie de aparelho de captura, responsável por apropriar-se destas moedas espirituais e comparar o excedente, com o necessário para a sua libertação cármica.