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Através das visitas domiciliares e entrevistas realizadas nesta investigação, foi possível delinear várias situações, representadas não apenas pelas listadas nos objetivos do estudo, como também por situações não previstas que enriqueceram um pouco mais esta pesquisa, tal como se segue.

Uma vez que se usou o termo falha, como ações ou omissões no procedimento com conseqüente não realização da diálise na forma prescrita, isto

é, ações que não produzam o efeito desejado, foi então possível levantar algumas falhas da aplicação da técnica dialítica no domicílio dos pacientes, no decorrer do estudo, abaixo explicitadas:

• despejar o efluente em pia utilizada para a anti-sepsia das mãos, ou tanque da casa, onde são lavadas as roupas da família, e em alguns casos, usada mesmo para a lavagem de louças. A pia para anti-sepsia das mãos deve estar limpa, em condições para o uso, preferencialmente, exclusivo a serviço da DP.

• sair do quarto da diálise peritoneal para lavagem das mãos em outro cômodo da casa, passando por locais onde outras pessoas possam estar sem máscara, com janelas abertas ou semi-abertas, portas da casa para abrir e fechar.

• usar produtos não indicados (PVPI degermante, detergente líquido) ou insuficientes (somente água e sabão ou somente álcool 70%) para a limpeza correta do cateter.

• inadequação do tempo e número de vezes para a anti-sepsia das mãos em relação à terapia dialítica utilizada.

• mudar a seqüência dos passos necessários a uma diálise apropriada. • modificar algum item preconizado à realização da diálise peritoneal. • reduzir o número e tempo das trocas dialíticas.

Acredita-se que estas falhas, inclusive algumas das quais já citadas, poderiam estar envolvidas com complicações clínicas relatadas pelos cuidadores, assim como, com o aparecimento de novas intercorrências, além de poderem estar associadas com as transferências de modalidade terapêutica para HD.

não somente às falhas supracitadas, mas a outras de igual ou maior importância, que podem prejudicar de alguma forma a aplicação da técnica de diálise e o tratamento do paciente. São elas:

• pressa, ansiedade, preocupações, medos, cansaço físico e mental,

impaciência, excesso de tarefas e responsabilidades, não

comprometimento e envolvimento por parte do cuidador

• não aceitação do uso de máscara pela criança (especialmente, pelos menores de 4 anos)

• revolta do paciente com relação à necessidade da diálise e à doença em si • baixa auto-estima e vergonha do paciente com relação ao cateter no

abdome

• ansiedade e inquietude do paciente (manipulação do cateter)

Somando-se a estes, acredita-se que alguns fatores e condições, poderiam igualmente, dificultar o tratamento da DRC e/ou sua adesão:

• religião da família

• renda per capita insuficiente

• dificuldade de acesso moradia – hospital • desorganização da casa, higiene precária • luz fraca na casa e no quarto de diálise

• moradia precária, em construção ou acabamento • água não tratada, ou dificuldade para seu tratamento • mesa enferrujada ou de madeira, soltando partes (lascas)

• umidade ou mofo no quarto da diálise e na casa em geral • ausência de pia para anti-sepsia das mãos no quarto da diálise • torneira inadequada, difícil de abrir e fechar com os cotovelos

• localização da moradia próxima a áreas industriais – poluição, poeira • presença de insetos no quarto durante o procedimento (moscas, formigas) • excesso de objetos no quarto da diálise possibilitando acúmulo de poeira • dificuldades financeiras; alimentação precária do paciente e família • dificuldade em comprar material de limpeza e desinfecção

• ausência de vidros na janela ou com falhas/gretas/trincas, permitindo a passagem de ar e poeira

• ausência de um local adequado, específico para o armazenamento do estoque de bolsas

• berço baixo, inadequado à necessidade de gravidade para a drenagem do líquido peritoneal

Mesmo com tantas condições dificultando o processo de diálise peritoneal, detectou-se também, fatores facilitadores para o tratamento da DRC e sua adesão:

• criança ativa, estabilidade clínica

• localização da moradia em ambiente tranqüilo

• presença de quarto próprio para diálise (alguns com televisão - TV) • boas condições de higiene e organização da casa

• boas relações familiares, irmãos cuidadosos e carinhosos • ajuda financeira de amigos, parentes e comunidade local

• presença de animal de estimação e espaço para a criança brincar

• dedicação e envolvimento do cuidador e familiares com os cuidados com o paciente

• fios elétricos extensos da cicladora, assim como equipo longo da bolsa, permitindo à criança ir a outros cômodos da casa, ficar com familiares, assistir TV ou brincar, durante o processo de diálise

• presença de local apropriado e exclusivo para o armazenamento do estoque de bolsas, suspenso sobre madeira

• uso de caixa de papelão ou madeira com lâmpada em seu interior, para aquecer a solução previamente, na DPAC

• uso da cicladora, que proporciona maior liberdade para realização de outras atividades, além de diminuir os riscos de complicações devido a menor manipulação do cateter

Todos estes fatores observados, muitas vezes apontados pelos próprios cuidadores e pacientes, permitiram verificar a importância de conhecê-los e identificá-los e, principalmente, de sugerir que, com entendimento de cada uma das partes envolvidas no cuidado com o paciente e as trocas de experiências, é possível melhorar o conjunto em prol da saúde do paciente e da vida familiar.

O conhecimento desses elementos pode subsidiar, por exemplo, a promoção de encontros e eventos, com o intuito de fortalecer o vínculo: paciente/família e instituição, bem como dos pacientes entre si, além de possibilitar a reciclagem das orientações fornecidas aos cuidadores, favorecendo a redução das taxas de complicações clínicas e internações.