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Race, Place and Globalization: Nayak (2003)

2. LITERATURE REVIEW

2.3 E THNOGRAPHIC R ESEARCH ON Y OUTH T RANSITION

2.3.3 Race, Place and Globalization: Nayak (2003)

Uma vez que as estratégias de sobrevivência das famílias são abaladas por questões internas ou externas às mesmas, a busca por inovações e transformações surge como necessidade e parece ser um dos grandes motivadores a participação em iniciativas que proponham mudanças.

Pretende-se aqui, portanto, compreender melhor a dinâmica das estratégias de sobrevivência das famílias entrevistadas e a relação desta dinâmica com a participação no projeto. Para tanto, forma exploradas questões como a composição da renda familiar, os diferentes papéis dentro da família, a relação com a comunidade.

As famílias entrevistadas apresentam a seguinte distribuição quanto à fonte de renda: 3 famílias têm o leite como principal fonte de renda, 1, a prestação de serviços no meio rural, 1, o turismo (através de uma casa de campo) e 1 a produção de doces, que inclui o doce feito com o leite produzido na propriedade. Outras 2 famílias não contam com renda atual, nelas os agricultores estão em fase de investimento e ainda não contam com retorno

econômico, porém apostam: um, na produção e beneficiamento de espécies frutíferas e o outro na produção de eucalipto.

Esta caracterização exemplifica bem o contexto geral das famílias rurais de Joanópolis que se sustentam da pecuária leiteira, da produção de eucalipto, da prestação de serviços e do turismo. Além destas, as atividades de agroindústria e de produção e beneficiamento de frutas desempenhadas por duas destas famílias não se apresentam com características gerais da região, contudo apresentam potencial econômico e ecológico.

Estas famílias apresentam uma fonte de renda principal, porém identifica-se que inúmeras outras atividades geradoras de renda são executadas ao mesmo tempo por estas famílias a fim de compor a renda familiar, trazendo à tona a característica marcante da pluriatividade na agricultura familiar.

De acordo com Schneider (2003), deve-se considerar que, tendo em vista, a precariedade e a instabilidade da situação camponesa, o trabalho externo se torna, na maioria dos casos, uma necessidade estrutural. Isto é, a renda obtida neste tipo de trabalho vem a ser indispensável para a reprodução, não só da família, como do próprio estabelecimento familiar. Essa forma de organização do trabalho familiar vem sendo denominada pluriatividade e refere-se a situações sociais em que os indivíduos que compõem uma família com domicílio rural passam a se dedicar ao exercício de um conjunto variado de atividades econômicas e produtivas, não necessariamente ligadas à agricultura ou ao cultivo da terra, e cada vez menos executadas dentro da unidade de produção familiar.

A pluriatividade e o trabalho externo de membros da família não representam necessariamente a desagregação da agricultura camponesa, mas constituem, freqüentemente, elementos positivos, com o qual a própria família pode contar para viabilizar suas estratégias de reprodução social presentes e futuras (WANDERLEY, 1996).

Um exemplo, disto é o trabalho fora da propriedade através da prestação de serviços no meio rural, que é realizada pela maioria das famílias entrevistadas, para compor a renda e para auxiliar aquele que necessita o serviço.

Assim, pode-se dizer que a questão da pluriatividade vai além da estratégia de compor a renda da agricultura familiar, mas diz respeito também ao contexto

social e cultural em que está inserida; relaciona-se com as formas de relação estabelecidas no meio rural, que estão além de serem relações estritamente profissionais.

Com relação à contratação de terceiros, que é difícil pelo custo e pela disponibilidade, também se observou que normalmente contratam vizinhos ou parentes durante períodos específicos ou trabalham com troca de dias. O agricultor Francisco Ribeiro explica como funciona: “Eu falo com os vizinhos, às vezes eu pago um dia, às vezes eu troco, que dizer que um dia vou trabalhar para ele e um ele vem trabalhar para mim. Fazemos bastante isso ai aqui.”

O trabalho contratado é raro e sazonal, ocorrendo em época de maior demanda de trabalho, como plantio de muda, roçada de pastos, construção de cercas, entre outros.

Observou-se que o trabalho relacionado à produção é bastante dividido entre homens e mulheres nas propriedades em que há produção de leite, horta e beneficiamento dos produtos. Nestas propriedades, as mulheres assumem dupla jornada de trabalho, uma relacionada a atividades de produção e outra relacionada aos cuidados com a família e arredores da casa. Nas propriedades nas quais o eucalipto é a principal atividade, a participação da mulher nas atividades produtivas é reduzida, em função das características da atividade, todavia, os cuidados com a família e os arredores da casa se mantêm.

De acordo com Paulilo (2004), as mulheres e as crianças participaram diretamente das atividades consideradas econômicas, enquanto a família existiu como unidade de produção, todavia, com a consolidação do capitalismo, separaram-se os meios de produção do trabalho e o espaço doméstico do espaço de produção. Assim, o único esforço que passou a merecer o nome de trabalho produtivo e a ser remunerado foi o despendido nas atividades consideradas econômicas. Daí a separação entre trabalho produtivo e não produtivo, o que não é fácil de se visualizar quando não há separação entre unidade familiar e de produção, como é o caso da agricultura familiar.

Durante as entrevistas houve alguns diálogos que expressam a complementaridade do trabalho entre homens e mulheres e que mostram a atmosfera de interação criada entre o casal.

Agricultor Otávio Marques: “Trabalhamos em conjunto. O leite por lei já era

Então, graças a Deus trabalhamos em conjunto, ninguém cobra: esse serviço é seu, aquele é meu.”

Agricultora Fátima Marques: “Serviço pesado, fazer cerca já é você (Otávio),

você vai pulverizar o café. Eu até tentei ajudar, mas é um serviço muito cansativo, para mulher já é muito. Mesmo na horta, aí meu Deus, o dia de pegar a bendita máquina é terrível, é pesado. Não é pra mulher, né?!”

Agricultor Orlando Silveira: “Ajuda no que é possível. Tem serviço que é

mais específico para mim, que é mais pesado, cortar o trato, fazer cerca, colocar mourão, fazer buraco. Mas um ajuda o outro. Hoje fomos aplicar um remédio na veia da vaca, não tem como aplicar sozinho, posso fazer 90%, mas se não tiver os 10%. Então, pra completar os 100%, precisa de dois. Inseminação, se for preciso fazer sozinho, eu faço, mas o risco de perder é grande, por causa de detalhezinho mínimo. Eu falo que nós dois trabalharmos junto dá mais certo, do que se chegar outro para ajudar . Mulher é muito melhor.”

Agricultora Rose Silveira: “Eu ajudo de manhã ele a tirar leite e ajudo a pôr o

trato no cocho, depois eu ajudo um pouco no serviço fora, depois o serviço da casa. Ele que agüenta mais, cuida mais do gado, é ele. E outra coisa, fazer cerca, eu preciso ajudar, se ele for fazer, eu preciso ajudar, porque é difícil uma pessoa fazer cerca sozinha, daí eu vou trabalhar em um serviço assim, mas aí é difícil. Então a gente trabalha sempre em conjunto, um ajuda o outro.”

É possível sinalizar que onde o papel da mulher é valorizado, por ela e pela família, seja na produção ou não, se constatou maior complementaridade e troca nas decisões relacionadas à família e à produção, o que também repercutiu na participação no projeto em questão, que valoriza os diferentes papéis dentro da família

Com relação à discussão proposta neste tópico, pode-se dizer que os agricultores estes têm como principal fonte de renda atividades novas na região, como o turismo, a produção de doces, a produção de eucalipto e de frutas ou dependem de atividades tradicionais e consideradas insatisfatórias como a produção de leite e a prestação de serviços. Assim, acredita-se que a situação da principal fonte de renda das famílias entrevistadas, seja por já se apresentarem como um movimento de inovação, seja pela necessidade de inovações em função das dificuldades, foi um motivo determinante para a participação destes agricultores no projeto.

As inovações buscadas tanto querem dizer inovações técnicas nas áreas produtivas já existentes, como a busca pela diversificação de fontes de renda. Observou-se que a busca por diversificação de fontes de renda potencializou a participação de algumas famílias no projeto.

É possível também sinalizar que a relação de complementaridade entre homens e mulheres no trabalho da propriedade agrícola favorece a reflexão e as escolhas feitas pelas famílias, o que também repercutiu na participação das mesmas no projeto em questão.