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Existem dois outros temas de Ernesto Sales ligados à constituição de uma identidade narrativa (Vieira e Henriques, 2012). Além das questões comumente conhecidas da militância política, nosso entrevistado abordou, em alguns momentos, além dos valores aprendidos pelo pai e mãe, a afirmação da identidade negra e indígena. Neste tópico veremos como “Todo enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva” (Bakhtin, 2016, p. 57).

Antes de citar os trechos em que nosso entrevistado aborda dois temas, a negra e indígena, contextualizaremos como elas são compreendidas no recorte histórico de 1964-1985. Segundo Lourença (2019), durante a ditadura se fortaleceu o mito da democracia racial, no qual almejava-se construir uma visão de que não existia racismo no Brasil. A autora menciona a existência de documentos oficiais relatando preocupações com o movimento black. No campo da resistência foi fundado o Movimento Negro Unificado e, na cultura, surgiram movimentos como o Bloco Ilê Ayê e personalidades como o intelectual Abdias do Nascimento e Carlos Marighella, este último descendente de famílias africanas ex-escravizadas.

No que tange às questões indígenas, o relatório da CNV (2014) comenta sobre as políticas de Estado, daquela época, marcada por omissões e ações sistêmicas como a criação, pela União, de condições propícias ao esbulho de terras indígenas acobertando o poder local, interesses privados e sem a fiscalização das corrupções nos quadros do governo. O Plano de Integração Nacional, segundo o relatório, aponta o fato de grandes interesses privados serem favorecidos pela União atropelando direitos indígenas. O mesmo documento menciona uma estimativa de mais de 8.350 indígenas mortos no período de investigação da CNV, em decorrência da ação direta dos agentes governamentais ou da sua omissão (CNV, 2014).

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De que maneira essas duas variáveis identitárias demarcam a constituição do nosso entrevistado e ressoam em sua voz? O primeiro recorte racial surge, como já citamos, quando Ernesto Sales escolhe como local de embate político, e de residência, uma das regiões do Ceará com maior número de quilombolas. É lá, neste município, que Ernesto Sales atua como militante de um partido político. Além disso, Ernesto Sales afirmou que sofreu racismo quando ocupou um cargo de gestão no conselho de saúde municipal. Na citação a seguir observamos a forma como Ernesto Sales relata a discriminação vivida e relega importância às questões raciais e indígenas:

...tem a história da ancestralidade porque eu venho de uma mistura de negros e índios. Meu pai é de Manaus, mas a minha mãe a parentela vem de Pedra Branca, de Senador Pompeu e ela fala... As bisavós eram indígenas e tal. E a gente...e eu sou negro também. Então, é... Há uma discriminação, né? Ao longo da minha trajetória eu sentia esse peso e, ao mesmo tempo, que tem esse ranço com relação ao meu pai também, né? (Ernesto Sales)

A partir deste tópico iniciamos a apresentação de um dos trabalhos artísticos do Ernesto Sales que diz respeito à história do extermínio da juventude pobre e negra da periferia que, para nosso entrevistado, é uma realidade em que cada vez mais incide sobre jovens e até crianças. A seguir uma breve descrição e a fotografia (Figura 13) do trabalho para exemplificar:

...eu consegui um tronco de oiticica em que ele tinha um corte da, na motosserra quando cortou esse tronco. E eu, nas minhas andanças, eu consegui um machado, tipo aqueles machados de bombeiro americano. Bem pontiagudo e a parte do corte, né. Ai eu pus ali e eu vazei um, como se fosse um feto e taquei melanina nele. Botei a magenta de uma forma bem escura pra representar o feto. Então, foi um formato de um feto. (...) Mas, por outro lado, quando um feto negro aparece, o machado já está apontado pra ele. Entendeu? (Ernesto Sales)

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Figura 13 – Obra sobre a história do extermínio da juventude pobre e negra da periferia de Ernesto Sales

A época da entrevista, Ernesto Sales estava vivendo em uma aldeia indígena no Povo Anacé. Em um dos trechos da fala dele observamos como a Identidade Negra e Indígena relaciona-se à infância. No momento de comentar sobre a produção de um dos produtos artesanais vendidos nas feiras de Fortaleza, que eram os chamados pendentes, feitos para guardar jarros de plantas samambaias, Ernesto Sales relembra os tipos de laços daquela época e de como ele se lembrou do que faz atualmente na aldeia indígena na qual reside.

E você trançar aquilo e hoje eu vejo eu tô morando numa aldeia indígena e eu percebo que aquele laço, aquele nó, é tudo indígena. Sabe. Eu, poxa cara, tem aquela memória infantil né que... ai tá tudo misturado. Sabe? Tá misturado os negros, tá misturado o índio, tá misturado a sobrevivência, tá misturado a resistência. Tá misturado a luta. (Ernesto Sales)

Neste excerto percebemos relações (de sentidos) entre toda espécie de enunciado na comunicação discursiva de Ernesto Sales (o índio, o negro, a criança, a luta). Mesmo

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sabendo que quando o enunciado é tomado para fins de análise sua natureza dialógica é repensada (Bakhtin, 2016) temos a impressão de que, no momento desta afirmação de Ernesto Sales, parece se objetificar à interpretação de Bakhtin de que quando começam a se fazer ouvir as vozes, essas deixam de ser meios exponenciais de expressão e se tornam expressão do momento, realizada; “a voz entrou nelas e passou a dominá-las” (Bakhtin, 2016, p. 97) O “tudo misturado” das matrizes indígenas e negras é um motivo de orgulho pra nossa entrevistado.