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Ainda que a construção de um monumento em homenagem aos açorianos em Porto Alegre tenha sido pensada em um passado distante das comemorações do Biênio da Colonização e Imigração, foi no ano de 1974 que esta obra se efetivou98.
98 Já no ano de 1961, por iniciativa de Leonel Brizola, Governador do estado na época, se realizou um concurso, mediante sua autorização, para que juntamente com a Praça dos Açorianos,se erguesse uma obra de arte como forma de homenagear os casais que chegaram por volta de 1752 ao Porto d’Ornelas. Como vencedora do
A partir da consagração da data de fundação da cidade de Porto Alegre como sendo em 26 de março de 1772, através da Lei Nº 3.609 de 29 de dezembro de 197199, pelo então
prefeito da cidade Telmo Thompson Flores, se estabeleceu uma nova data comemorativa100
para a cidade, que no ano seguinte celebrou seu Segundo Centenário, e que em 1974 inaugurou um monumento em homenagem aos primeiros colonizadores.
A construção do Monumento aos Açorianos se inseriu em um momento em que a cidade de Porto Alegre estava sob o comando de um plano de governo municipal que executava grandes obras, em meio a um planejamento de crescimento urbano101. A urbanização da
cidade modificou sua paisagem e o modo de vivê-la, causando incômodo a alguns moradores preocupados com a preservação do patrimônio histórico. Buscando dar ouvidos a esta parcela da população, principalmente intelectuais que pressionaram a prefeitura, foi nomeada uma Comissão para inventariar prédios e espaços de preservação histórica, além da publicação de obras históricas, álbuns comemorativos e encomendas de painéis e esculturas, buscando rememorar o passado porto-alegrense (MONTEIRO, 2005).
É no bojo destes acontecimentos que se propôs novamente a construção de um monumento em homenagem aos primeiros povoadores da cidade de Porto Alegre, através da Secretaria de Obras e Viação. A proposta inicial era que se projetasse uma obra em conjunto, reunindo Carlos Tenius, Vasco Prado e Francisco Stockinger, o que não funcionou como esperado devido às características de trabalho de cada um dos artistas. Então, em 1973, Carlos Tenius102 apresentou uma pré-maquete de sua autoria para o monumento, proposta esta que
foi aceita.
O monumento foi inaugurado às 10 horas do dia 26 de março de 1974, pelo Embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva. Estavam presentes na inauguração do Monumento aos Açorianos o Governador Euclides Triches e sua esposa, Neda Triches, os Presidentes da Assembléia Legislativa, Deputado Fernando Gonçalves, do Tribunal de Justiça, Desembargador Pedro Soares Muñoz, o Cardeal Vicente Scherer, o Vice-Presidente do Tribunal de Alçada, Juiz Alaor Wiltgen Terra, o Vice-Governador Edmar Fetter, o concurso saiu Maria de Lourdes Sanchez Hecker, formada em escultura pelo Instituto de Artes de Porto Alegre. Porém, com a sucessão governamental, o concurso foi esquecido, assim como a realização da obra.
99 PORTO ALEGRE. Lei Nº 3.609, de 21 de Dezembro de 1971. Consagra, como data de Fundação de Porto Alegre, o dia 26 de março. Disponível: < https://leismunicipais.com.br>. Acesso em: 25 de novembro de 2016. 100 Anteriormente a data de colonização da cidade de Porto Alegre era comemorada em 05 de novembro.
101 Foram realizadas obras viárias com o fim de facilitar o trânsito na cidade, a construção do calçadão da Rua da Praia para o tráfego de pedestres, e a manutenção de espaços de cultura e lazer, como a mudança do Auditório Araújo Viana.
102 Carlos Gustavo Tenius, nascido em Porto Alegre em 1939, foi o escultor do Monumento aos Açorianos e do Monumento ao Centenário da Imigração Italiana. Formado em escultura pela Escola de Artes da UFRGS. Ganhou notoriedade no estado após participar de diversos concursos de arte e esculpir outras obras pelas cidades.
Comandante da V Zona Aérea, Brigadeiro Leonardo Teixeira Collares, o Presidente da Comissão Executiva das Comemorações Luso-Brasileiras, Poty Medeiros, Secretários de Estado e do Município, Deputados, Vereadores, escolares e populares.
A obra se localiza na Praça dos Açorianos103, e possui medidas grandiosas: altura
mínima de 7,50 metros e máxima de 15 metros, com um comprimento de 24 metros, e pesando cerca de 10 toneladas. O material utilizado para a feitura da obra foi um aço- anticorrosivo chamado SAC, responsável pela coloração avermelhada que o monumento possui. Custou aos cofres públicos em torno de 500 mil cruzeiros.
Figurativamente, de acordo com explicação dada por seu escultor, Carlos Tenius, o monumento representa os açorianos de forma simbólica, através da imagem abstrata de um grupo de pessoas se movimentando de oeste para leste, numa projeção ao céu:
“Foi justamente tendo em vista este espírito, que construí verdadeiros gigantes de aço. Eles não são os açorianos propriamente ditos, mas a homenagem que a cidade presta à grandeza do legado que os açorianos nos deixaram. As dimensões, bem como o próprio tratamento figurativo se prendem ao fato de tratar-se de homens. Do ponto de vista artístico, mais do que heróis de uma conquista, as figuras que agora se erguem no local são os meus heróis” (JORNAL CORREIO DO POVO, 24/03/1974. s/p).
Figura 11: Monumento aos Açorianos.
Fonte: RODILON TEIXEIRA, in: http://rodilonteixeira.blogspot.com.br.
103 A Praça dos Açorianos é constituída pelo Monumento aos Açorianos e pela Ponte de Pedra que ligava o Centro da cidade a Zona Sul, tombada em 1979.
No ato inaugural, se descerrou um marco comemorativo ao acontecimento, que traz os seguintes dizeres: “Jamais sonhariam aqueles casais açorianos que da semente que lançaram ao solo brotaria o esplendor dessa cidade”, assinado pelo prefeito de Porto Alegre e o Embaixador de Portugal. Neste momento, discursou o Prefeito Telmo Thompson Flores:
“[...] Pois aquele pequeno e tão modesto aglomerado de povoadores assume as proporções que a história tantas vezes oferece, neste momento em que vivemos o Biênio da Colonização, que explica o amanhecer do Rio Grande do Sul. [...] Dentre as solenidades de hoje, que assinalam a data da cidade, ela vem prestar a sua homenagem de estremado carinho aos pioneiros açorianos que aqui chegaram há 200 anos, para edificá-la e engrandecê-la. Este monumento, que aqui erguemos, de autoria do escultor Carlos Gustavo Tenius, relevo de arte no Parque dos Açorianos, simbolizará para todo o sempre a imorredura gratidão dos habitantes da “mui leal e valorosa cidade” de Porto Alegre” (JORNAL CORREIO DO POVO, 27/03/1974. s/p).
Após sua inauguração, a obra recebeu severas críticas, afinal, por se utilizar de formas e materiais não convencionais, o monumento foi chamado de “o paliteiro”.
Sobre o Monumento aos Açorianos em Porto Alegre, concluímos que esta obra, que não foi a primeira proposta de uma homenagem a este grupo imigrante, se efetivou durante as comemorações do Biênio da Colonização e Imigração por pelo menos três motivos: a valorização e demarcação da nova data comemorativa da cidade de Porto Alegre, que foi instaurada em 1971; a demonstração de preocupação com o patrimônio e a história da cidade por parte da Prefeitura Municipal, que vinha realizando obras de modernização; e por fim, a oportunidade suscitada pela passagem das comemorações do Biênio da Colonização e Imigração para demarcar a presença açoriana na cidade, de forma grandiosa e impactante. Simbolicamente, segundo seu autor, o monumento buscou valorizar a saga açoriana, dando às figuras abstratas formas que foram capazes de demonstrar sua força e empenho, através do tamanho e material utilizado, e também por sua representação. Buscando marcar este momento, mas também facilitando o entendimento da obra, a placa alusiva a inauguração do monumento trouxe uma mensagem de gratidão e reconhecimento à contribuição deste grupo para a cidade. Como mensagens simbólicas nem sempre são de fácil compreensão, a repercussão do monumento após sua inauguração não foi tão positiva quanto se esperava. As primeiras opiniões transitavam em torno de um completo desentendimento do que se queria comunicar, com falas que inclusive colocaram em dúvida a estética da obra.