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3. TEORETISK RAMMEVERK

3.4. R ETTSLIGE RAMMER FOR MEDVIRKNING OG INVOLVERING

acrescentar e distender o discurso profético de Ngungunhana indica uma ênfase neste episódio, talvez por conta da necessidade do aparecimento de futuros heróis que lutem pela liberdade, pois, como veremos no capítulo seguinte, a palavra é a grande semente para o surgimento dos heróis.

Neste sentido, existem duas instâncias no discurso utópico de Ngungunhana que se convergem. O plano metafísico concede à sociedade a certeza do retorno da liberdade e da primavera simbólica. Mesmo imbuída da certeza de um destino livre, é necessário o cultivo da “palavra-semente” para que as próximas gerações se mobilizem em prol da liberdade. Do cultivo da esperança pela palavra, surge o herói que, por sua vez, torna-se mensageiro, guiado por uma natureza divina (função mitológica), mas fruto de uma consciência da realidade que motiva a sua ação na sociedade (função histórica). Daí também se reconhece o heroísmo do imperador. No momento de sua queda, ele é porta- voz do mundo dos espíritos no plano mitológico, mas assume um papel de resistência social no plano histórico.

2.8 A vitória do imperador de Gaza como herói nacional

Após a derrota do imperador, ele é levado à capital da colônia portuguesa, Lourenço Marques, e embarcado para a metrópole, no dia 13 de Janeiro de 1896, junto de uma comitiva de sete mulheres e outros régulos aliados, incluindo Matibejana. Relata-se que eles são recebidos triunfalmente em Lisboa como troféus de guerra e são encaminhados a uma pequena ilha nos Açores. Sobre o final de seus dias, Garcia alega que

Nesta ilha do Atlântico ficariam Gungunhana, Godide, Matibejana e Molungo, apenas os quatro reféns do inicial séquito das quinze pessoas, tendo o régulo de Gaza vivido mais onze anos de um exílio em que de homem animista, analfabeto e irascível, o transformaram, segundo René Pélissier, num outro completamente diferente, batizado, alfabetizado e alcoólico. Triste e só, acabaria por vir a morrer em 23 de Dezembro de 1906, vítima de uma hemorragia cerebral, com uma idade próxima dos 57 anos, menos dez anos de idade que constava da certidão de óbito. (GARCIA, 2008, p. 139)

Enquanto isso, no “inverno” simbólico da terra de Gaza, a narrativa de Chiziane relata que “as mães ainda teriam o trabalho de satisfazer a curiosidade das crianças que perguntavam sem parar” (CHIZIANE, 2008, p. 41) sobre os eventos acorridos no fim do império. As crianças, como terra para as palavras-sementes, “são seres de questões profundas” (CHIZIANE, 2008, p. 41). As mães explicam então às crianças que nas últimas palavras do imperador, ele cantou a liberdade. Entretanto, na edição moçambicana, o narrador se questiona como este canto de liberdade pode ser ensinado por meio das palavras:

A liberdade, vive-se, dizia Nguyuza, o general desertor. Como, explicar então, às crianças o conceito de liberdade, quando, por todo o lado, há prisão, xibalo, deportação? Como explicar que liberdade é palavra, semente, diamante? Como ensinar que é a fêmea que dará à luz uma nova estrela? (CHIZIANE, 2008, p. 41)27

Sendo um recurso utilizado por toda a narrativa, o questionamento talvez seja fruto do discurso indireto-livre. Entretanto, são questões que ganham profundo significado no contexto social moçambicano e nas demais experiências de exploração social. Afinal, como inspirar nas novas gerações o desejo de plena liberdade se afinal nunca a conheceram? Possivelmente, seja no mais profundo cativeiro que esse desejo nasça, mas, para tal, é necessária a palavra como semente da vontade. As mães, então, resumem o discurso do imperador à sua essência: “A liberdade é a gema de pedra preciosa que resiste ao martelo dos tempos” (CHIZIANE, 2008, p. 42).

Mais uma vez, o texto de Chiziane valoriza o tempo da eternidade. Embora Cronos bata seu martelo implacavelmente, há no espírito humano uma gema de pedra preciosa, isto é, o desejo de alçar voo e conquistar a liberdade. Assim, o tempo do cairós não integra apenas o tempo das artes, da experiência religiosa e das revoluções sociais; ele é o tempo de qualquer mulher e qualquer homem imbuídos da boa vontade. O tempo do ser livre:

As mães repetiam, mas com voz baixa para não despertar a ira dos novos invasores. Porque o discurso era um hino de liberdade.

“Continuarei a viver aqui no coração do meu povo. Eu vos digo, portugueses, eu estou aqui, eu não saio, lutarei por esta terra até aos confins da eternidade. Estarei sempre aqui, na forma de uma andorinha. Para predizer o futuro e celebrar os ritos de vida e de

morte. Para escolher o homem bravo que lutará pela liberdade desta terra. A liberdade virá, eu juro!” (CHIZIANE, 2013, p. 44)

Este desfecho nos revela um aspecto de interesse para análise. Há um processo de heroicização de Ngungunhana que se constitui ao longo da narrativa. No início da trama, a personagem era um arrogante e autoritário imperador, porém no final do conto, ele se transforma em uma representação espiritual da luta pelos interesses da terra moçambicana. De forma consciente ou não, este processo utilizado na literatura parece ser uma alegoria da própria história do país. Pode-se notar que, a partir dos movimentos de independência de Moçambique na década de 1960, houve uma intencional conversão do último imperador de Gaza em modelo heroico, reforçado após a libertação nacional. Como mencionado nas perspectivas teóricas, o movimento de libertação em meados do século XX auxiliou na mitificação de personagens históricos construídos ideologicamente na resistência e na luta contra o invasor europeu e, nesse sentido, a figura do imperador desempenhou com perfeição esse papel.

Conforme já apontado, Gungunhana fazia parte de uma genealogia de chefes originários de fora do limite territorial que se convencionou chamar de Moçambique. Ademais, sua dinastia rapinou, eliminou e massacrou vários grupos étnicos do sul moçambicano. A despeito da governança opressiva, o rei nguni se transformaria, na segunda metade do século XX, num arquétipo heroico com significativo papel no reforço de uma consciência nacional e de resistência ao poder colonial. No que tange à estima pela figura do imperador durante o período da luta de libertação, Garcia explica que uma possível razão seja o fato de Manjacaze, a capital do império de Gaza, “ser a terra de origem de muitos dos principais dirigentes [da FRELIMO], partido responsável pela independência e pela governação de Moçambique após a sua autonomização de Portugal”. (GARCIA, 2008, p. 144). Já nos anos oitenta, a antiga capital nguni foi insistentemente fustigada pelos ataques do partido rival, a RENAMO. Assim, para o presidente Samoral Machel, rememorar este local mítico “era uma premissa urgente para reforçar a identidade e a coesão nacionais, num contexto de uma guerra civil que poderia ser fraccionista e resvalar para a rivalidade tribal”. (GARCIA, 2008, p. 144).

No fortalecimento da guerra fremilista contra as investidas do partido rival, apoiado este pelas forças sul-africanas, buscou-se associar a imagem de unidade imperial do reino de Gaza a um símbolo de identidade nacional única. Este processo de mitificação de Ngungunhana culminou com a solicitação do retorno dos restos mortais

do herói, o que foi feito em um pequeno caixão simbólico contendo um pedaço de terra do cemitério açoriano em Junho de 1985.

O pequeno caixão seria encerrado num maior vindo de Moçambique, feito em madeiras locais (chanfuta e jambirre) e decorado com motivos da vida política, militar e social do herói de Manjacaze, num trabalho supervisionado pelos artistas moçambicanos Malangatana Valente e Paulo Come. (GARCIA, 2008, p. 145)

Assim, não há dúvidas de que a constituição de um herói nacionalocorraa partir de uma construção ideológica. Entretanto, a questão que nos interessa investigar é se um símbolo heroico determinado possui uma capacidade transformativa no imaginário social ou sua função é apenas auxiliar na reprodução das estruturas de poder vigentes. Neste aspecto, o conto “Quem manda aqui” cumpre mais do que a missão de construir um herói que simbolize a luta social. A narrativa afirma seu caráter de subversão ao questionar a legitimidade do poder de Ngungunhana, depois da autoridade do poder do colonialismo português. Porém, se o conto mitológico se reatualiza todas as vezes que é contado, esta questão também não seria renovada para o poder atual? De todas as maneiras, o texto elucida que a maior pátria a que o homem deve obediência é a sua liberdade.

Para que o desejo de liberdade nasça no espírito humano, é necessário que seja cultivado por meio da palavra, como salientado neste capítulo. As mulheres, guardiãs da memória, são as transmissoras do utópico retorno da primavera ou da Idade de Ouro. Como Hampatê Ba aponta28, nas sociedades subsaarianas, a palavra não é um mero instrumento de comunicação, mas possui o poder da criação e, portanto, em todas as instâncias da vida, ela é considerada um bem sagrado. Similarmente, no contexto da obra de Paulina Chiziane, a arte de contar histórias não é apenas para entreter os mais jovens, mas um importante canal para ensinar a história guardada na memória, revelar seu significado mítico e, por fim, semear a esperança e o desejo de liberdade.

Os três contos da obra moçambicana realizam o papel de mensageiros da liberdade, embora cada um deles retrate um momento distinto da história de Moçambique. Este primeiro conto, “Quem manda aqui?”, inspirado nos acontecimentos das últimas décadas do século XIX, relata a simbólica partida das andorinhas, tempo do cerceamento da liberdade. Neste tempo obscuro, a esperança é conservada pela profecia

da chegada de futuros heróis, que até este momento, referem-se aos diversos líderes sociais que lutaram, no século seguinte, contra a invasão colonialista, em prol da liberdade do homem africano. No entanto, no processo dos movimentos independentistas, o despertar para a liberdade, a resistência à opressão e a batalha pelo direito de ser livre mostrou-se uma penosa e longa jornada. A narrativa semeia a esperança ao narrar a dura marcha de homens e mulheres ao Zulwine, o princípio do mundo. Afinal, depois do longo caminho, o grupo alcança a condição de liberdade plena em outra dimensão temporal, porém, se o tempo natural é um ciclo eterno, então, um dia, estes humanos-andorinhas voltarão, cantando a chegada da primavera.

CAPÍTULO 3

O HERÓI QUE CONQUISTA A UNIDADE

Análise do conto “Maundlane — O Criador”

Considerações sobre o simbolismo da águia; a jornada do herói; a luta de libertação; identidade nacional em Moçambique; e o valor da ancestralidade

Eu vi o meu povo amarrado todo acorrentado por falta de amor

Minha mãezinha estava comigo E me sustentava com seu grande

Águia Dourada (Chaveirinho)