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7   EMPIRISK  ANALYSE

7.2   R ESULTATER  OG  ANALYSE  AV  MODELLENE

Letramento é diversão É leitura à luz de vela Ou lá fora, à luz do sol. É uma receita de biscoitos

Uma lista de compras, Recados colocados na geladeira. Um bilhete de amor, Telegramas de parabéns e

Cartas De velhos amigos. É uma Atlas do mundo, Sinais de trânsito, caça ao tesouro, Manuais, instruções, guias É orientações em bulas de Remédios, Para que você não fique perdido.

Kate M. Chong

Vale destacar a magnífica infância de um autor que mostra através de suas memórias como se dava o contexto de leitura que realizava mesmo sem saber ler e escrever, saudável e recheada de felicidade, ainda que simples, significativa para a sua compreensão de mundo:

A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia – e até onde não sou traído pela memória -, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para os riscos e aventuras maiores. [...]. Os “textos”, as “palavras”, as letras daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quando mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber [...]. (FREIRE, 2006, p. 15).

É importante destacar que Paulo Freire (2006) já chegou à escola realizando uma leitura de mundo mesmo antes de saber ler as palavras, teve ajuda de seus pais, mas sua lousa foi o chão e seu giz os gravetos, por isso, quando chegou à escola já possuía um conhecimento e sua professora deu continuidade neste contexto. Isso quer dizer, que a criança quando entra na escola já possui um conhecimento de mundo e que a escola muitas vezes não

aproveita este contexto e nem mesmo procura enriquecer esta aventura de fantasia que a criança possui.

O que aconteceu na infância de Paulo Freire (2006) e é relatado em seu livro “A importância do ato de ler” (1992), retrata de maneira clara e emocionante como a leitura do mundo precede a leitura da palavra, mostrando através de sua experiência de quando nos primeiros anos aprendeu a ler em sua própria casa, rodeado de árvores e animais. Na verdade, aquele mundo era o mundo de suas primeiras leituras. O “texto”, as “palavras”, as “letras” daquela realidade que o educador experimentava ainda criança mais aumentavam a capacidade de perceber os objetos, os sinais que iam se desenvolvendo ao conviver com eles e com sua família. A leitura do mundo foi fundamental para compreensão da importância do ato de ler e escrever ou de reescrever, transformando essa atividade numa prática consciente.

Desde muito cedo, assim como Freire (2006), as crianças já possuem um conhecimento sobre a escrita, constroem suas próprias hipóteses, experiências infantis com a escrita, que foram pesquisadas mais detalhadamente por Ferreiro (2003), prática que será melhor definida posteriormente. O mundo letrado em que vivemos propicia este pensar, pois afinal esta sociedade compõe o resultado de uma trajetória de construções de toda a história da humanidade. Por isso, o homem a cada dia está diferente do homem do passado, pois vão sendo incorporados novos conhecimentos, novas descobertas, novas dimensões de entendimento.

Sabemos que a alfabetização deve dar outro tom, bem mais profundo do que simplesmente ler e escrever palavras e frases, deve ter um sentido revolucionário, de dar consciência da realidade do mundo e poder transformá-la. Nesta questão Paulo Freire foi um dos primeiros a apontar essa força do alfabetismo (SOARES, 2004, p. 36).

Soares (2004, p. 33) aponta a dimensão social da alfabetização, evidenciando o ponto de vista das práticas sociais da leitura e escrita:

Do ponto de vista social, o alfabetismo não é apenas, nem essencialmente, um estado ou condição pessoal; é, sobretudo, uma prática social: o alfabetismo é o que as pessoas fazem com as habilidades e conhecimentos de leitura e escrita, em determinado contexto, e é a relação estabelecida entre essas habilidades e conhecimentos; implica também, e talvez principalmente, em um conjunto de práticas sociais associadas com a leitura e a escrita, efetivamente exercidas pelas pessoas em um contexto social específico. A alfabetização deve ser um processo de formação da pessoa humana, oferecendo condições para o indivíduo se posicionar em um mundo letrado, como afirma Cagliari (2005), será lendo o “mundo” e reescrevendo-o, que uma pessoa se tornará crítica e

consciente. A escola necessita repensar os procedimentos referentes a leitura, reservando um lugar de maior prestígio a essa atividade desde o início do processo de alfabetização. Um aluno que não lê passará a ter dificuldade com a escrita, não entendendo seu funcionamento.

Tfouni (1995, p. 20) apresenta uma diferenciação bastante interessante sobre alfabetização e letramento que deve ser considerada neste contexto: “Enquanto a alfabetização se preocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade”. Letramento nada tem a ver com a escolarização, como mostramos em Freire, que aprendeu a ler e a escrever registrando seus contextos significativos de infância. Nesta perspectiva o letramento pode ser desenvolvido mesmo antes das crianças saberem ler e escrever convencionalmente.

Val (2006, p. 19) também diferencia alfabetização de letramento; assim poder- se-á:

[...] definir alfabetização como o processo específico e indispensável de apropriação do sistema de escrita, a conquista dos princípios alfabético e ortográfico que possibilitem ao aluno ler e escrever com autonomia. Noutras palavras, alfabetização diz respeito à compreensão e ao domínio do chamado “código” escrito, que se organiza em torno de relações entre a pauta sonora da fala e as letras (e outras convenções) usadas para representá-la, a pauta, na escrita.

E ainda continuando:

[...] letramento pode ser definido como o processo de inserção e participação na cultura escrita. Trata-se de um processo que tem início quando a criança começa a conviver com as diferentes manifestações da escrita na sociedade (placas, rótulos, embalagens comerciais, revistas etc.) e se prolonga por toda a vida, com a crescente possibilidade de participação nas práticas sociais que envolvem a língua escrita, como a leitura e redação de contratos, de livros científicos, de obras literárias, por exemplo.

Kleiman (2002, p. 15) coloca a dicotomia entre a simples alfabetização e o processo de letramento, afinal muitas crianças apresentam estratégias orais letradas, antes mesmo de serem alfabetizadas:

Uma criança que compreende quando o adulto lhe diz: “Olha o que a fada madrinha trouxe hoje!”está fazendo uma relação como o texto escrito, o conto de fadas: assim, ela está participando de um evento de letramento (porque, já participou de outros, como o de ouvir uma estorinha antes de dormir); também está aprendendo uma prática discursiva letrada, e portanto essa criança pode ser considerada letrada, mesmo que ainda não saiba ler e escrever. (KLEIMAN, 2002, p. 18).

Scribiner e Cole (apud KLEIMAN, 2002, p. 19) apontam uma definição para esse processo: “[...] podemos definir hoje o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos.” Conclui-se, portanto, que o letramento extrapola a simples decodificação, vai além de apresentar palavras e sílabas. A autora ainda coloca que a escola muitas vezes se preocupa apenas com a alfabetização, com a aquisição do código:

Pode-se afirmar que a escola, a mais importante das agências de letramento, preocupa-se, não com o letramento, prática social, mas com apenas um tipo de prática de letramento, a alfabetização, o processo de aquisição de códigos (alfabético, numérico) processo geralmente concebido em termos de uma competência individual necessária para o sucesso e promoção na escola. (KLEIMAN, 2002, p. 20, grifo da autora).

Soares (2004) aponta que a palavra letramento é um conceito recente introduzido na linguagem da educação há pouco mais de duas décadas, e pode ser explicado como decorrência da necessidade de configurar e definir comportamentos e práticas sociais na área da leitura e escrita que transponha o domínio do sistema alfabético ortográfico, nível de aprendizagem da língua escrita, seguida pelo processo de alfabetização tradicional. Coloca ainda que a expressão tornou mais evidente, devido às práticas sociais de leitura e escrita que foram adquirindo uma maior importância na vida social e nas atividades profissionais, cada vez mais dependentes e centradas na língua escrita, daí a necessidade de ampliação do contexto de alfabetização.

Diante deste contexto atual, nós professores devemos direcionar as práticas de leitura e escrita a um contexto mais amplo de aprendizagem que não fique limitado apenas a técnicas de codificar (escrever) e decodificar (ler). Devemos desenvolver em nossas crianças comportamentos e habilidades de uso competente da língua, e só conseguiremos isto, se realmente atuarmos num contexto de letramento, se mostrarmos aos alunos as maravilhas de desbravar os diversos portadores de textos, diante de uma situação significativa em sala de aula, na qual realmente sintamos necessidade de seu uso, de sua importância diante do meio social.

Kleiman ( 2002, p. 30-31) valoriza as práticas interativas e coletivas em que o conhecimento sobre a escrita é construído através da colaboração numa relação tutorial, ou através da participação em grupos, discutindo as melhores formas de produzir uma carta, interpretando um texto no jornal. Daí a importância de uma pessoa com conhecimento da importância do livro nesse contexto, para a evolução da criança:

O suporte do adulto nesses eventos de letramento é essencial, tanto como no processo de aquisição da oralidade, como também é essencial que o livro, a escrita, seja elemento significativo nessas interações. Por todas essas razões, faz mais sentido reencaminhar o ensino da escrita na escola priorizando o que há de comum e relegando a um segundo plano a diferença.

Como educadores da Educação Infantil, é importante propormos situações didáticas que permitam aos alunos ampliarem a sua compreensão em relação à alfabetização apenas como domínio de código, processo este de fundamental importância no processo de aquisição da lecto-escritura. Entretanto, tal processo complementa-se com o letramento, como processo de valorização e vivência do uso social de diferentes gêneros discursivos. Se se entender esse acesso como desencadeador do domínio da variedade linguística a ser aprendida, será possível construir assim, leitores competentes. A educação Infantil pode ser o berço desta conquista se forem usados mecanismos que envolvam as crianças com o prazer que a leitura e escrita pode trazer para a nossa vida visualizando a verdadeira função social que os gêneros podem oferecer.

Terzi (2002, p. 100) realizou uma pesquisa em uma comunidade carente e verificou que a maioria dos adultos eram analfabetos e afirmavam ser a escrita importante, mas não fazia falta e exaltavam que era uma atividade difícil, expondo essas considerações às crianças. Essa posição dos pais acabou sendo assumida pelas crianças, não visualizando um objetivo claro para aprender a ler e a escrever, duvidando de sua própria capacidade de fazê- lo. E o que se verificou na creche, no maternal, que não havia trabalho com livros e nem envolvimento das crianças em eventos letrados e a pré-escola só introduziu algumas estórias, lidas semanalmente, porém sem discussão. Diante deste contexto, é bom apontar que a escola em especial da educação infantil nada contribuiu para o processo de letramento, sendo que as crianças dessa pesquisa irão encontrar sérios obstáculos para encontrar uma necessidade de aprender e muitas cairão no terrível fracasso escolar. Portanto, é uma situação que não gostaríamos de deparar em nenhuma escola brasileira.

CAPÍTULO 3 EDUCAÇÃO INFANTIL EM BUSCA DE BOAS VIVÊNCIAS EM