O Supergrupo São Francisco engloba duas unidades neoproterozóicas: o Grupo Macaúbas, glacio-continental e o Grupo Bambuí, marinho.
3.1.2.1GRUPO MACAÚBAS
Segundo Pflug & Renger (1973), Moraes e Guimarães na edição (1930) denominaram Formação Macaúbas a anteriormente chamada Série de Lavras por Moraes (1929), que a descreveu como
Dissertação de Mestrado – UFMG - 2012 30 a NE de Inhany e continua para NE, formando extensas chapadas que se prolongam ao oriente do Jequitinhonha”. O nome Macaúbas se refere ao rio Macaúbas, norte de Minas Gerais, e litologicamente predominam na base rochas clásticas, enquanto para o topo observa-se uma participação maior de siltitos e filitos.
Segundo Alkmim & Martins-Neto (2001), o Grupo Macaúbas no interior do cráton é caracterizado por uma associação de diamictitos, arenitos e pelitos, representando depósitos glacio-continentais proximais e distais (aluviais, lacustres), sendo muito pouco expressivas as áreas de afloramento na Bacia do São Francisco.
3.1.2.2GRUPO BAMBUÍ
Segundo Costa & Branco (1960) e Pflug & Renger (1973), Rimann (1917) adotou uma sugestão de H. Williams (1914), o qual denominou Série Bambuí um conjunto de rochas calcíferas e ardosianas aflorantes a oeste do rio São Francisco, até então denominadas “Ubergansgebirge” (tradução literal: montanhas de transição) por Von Eschwege. Estas rochas recobrem uma extensa área, desde parte da Bacia do rio São Francisco em Minas Gerais e Bahia, até Ceará e Bahia e cobrindo também vasta área em Goiás.
Segundo Pflug & Renger (1973), as rochas argilosas e calcárias que bordejam o rio São Francisco a partir de suas nascentes em Minas Gerais até a Bahia foram reconhecidas como uma formação própria por vários geólogos, incluindo Von Eschwege em 1832. Ainda de acordo com esses autores, Rimann (1917) introduziu a denominação Série Bambuí: “... a série Bambuí tem suas camadas muito dobradas e geralmente inclinadas e deve ser de idade Siluriana, em vista dos corais de fósseis encontrados por Sr. Derby nas rochas calcárias da mesma formação em Bom Jesus da Lapa”.
Costa & Branco (1960) definiram uma estratigrafia para a então Série Bambuí no Centro Norte de Minas Gerais, distinguindo três Formações:
i) Carrancas, basal, caracterizada por um conglomerado basal seguido de quartzo-filitos, às vezes calcíferos que representam uma sedimentação pelítica em transição para sedimentação química;
ii)Sete Lagoas, sobreposta e em concordância com a anterior, segue-se um período de sedimentação química, caracterizado por um calcário puro marmorizado, bem recristalizado e cor cinza azulada a negra devido a inclusões de grafita;
iii)Rio Paraopeba, no topo da série predomina uma sedimentação clástica, que inclui quatro membros da base para o topo:
a)Serra de Sta. Helena, caracterizada por ardósias e ambiente de deposição, águas profundas sem turbulência;
b)Lagoa do Jacaré, de sedimentação de mar raso, com turbulência e clima quente, caracterizado por siltito com matriz clorito-calcífera e calcários oolíticos;
c) Três Marias, de sedimentação de mar raso com fases subaéreas, turbulência (estuarino-deltáica) e de clima quente, caracterizado por siltitos com matriz rica em sericita, clorita e lentes de arcósio;
d) Serra da Saudade, de sedimentação mar calmo médio a raso, com siltitos e ardósias verdes (Tabela 3.1). Segundo esses autores, o ambiente passa da base para o topo, de águas profundas e sem turbulência para águas rasas e de maior turbulência, à medida que a bacia foi se enchendo.
Segundo Almeida (1977), “o Grupo Bambuí e correlatos sobre o cráton do São Francisco representam a sedimentação marinha resultante de sua submersão quase total, por ocasião do desenvolvimento do segundo estágio estrutural dos geossinclíneos marginais”. Ainda segundo Almeida op cit “A Formação Três Marias, de natureza silto-arenosa com intercalações de arcósios representa o estágio molássico, do Ciclo Brasiliano”.
Dissertação de Mestrado – UFMG - 2011 32
Tabela 3.1: Estratigrafia da Série Bambuí no Centro Norte de Minas Gerais (retirada de Costa & Branco, 1960).
Formação Membro Caracteres litológicos Ambientes de deposição Sedimento Espessura
aproximada Principais ocorrências
rio Paraopeba
Serra da
Saudade Siltitos e ardósias verdes calcíferos
Mar calmo de profundidade média a rasa Sedimentação clástica Acima de 300 m Serra da Saudade São Gonçalo do Abaeté
Três Marias Curvelo São Gonçalo
Lagoa do Jacaré Felixlândia
Serra de Sta Helena - Sete Lagoas - Paraopeba Três Marias
Siltitos-matriz sericito-clorítica granulação silte a areia fina com
aleitamento gradacional. Lentes de arcósio.
Mar raso com fases subáreas com turbulência (estuarino
deltaico). Clima quente. Lagoa do
Jacaré
Siltito matriz clorito-calcífera, com leitos de calcário (oolitos).
Mar raso com turbulência e clima quente. Serra de Sta.
Helena Ardósias
Águas mais profundas sem
turbulência. 200 m
Sete Lagoas
Calários cinza-negro grafitosos. Calcários marmorizados geralmente silicosos. Mármores
cloríticos.
Mar calmo de profundidade média a raso (Diferenciações mais de metamorfismo, às
vezes locais).
Sedimentação
química 200 m
Nova Granja - Lagoa Santa -Pedro Leopoldo
–Matosinhos - Sete Lagoas –Maquiné - João
Pinheiro – Paracatu - Serra do Cipó Carrancas Quartzo, clorita, filito, calcíferos.
Conglomerado basal. Sedimentação pelítica Zero a poucos metros km 30 estrada de Sete Lagoas- Dr. Lund.
Segundo (Alkmim & Martins Neto, 2001; Martins Neto & Alkmim 2001), a Megassequência Bambuí (Grupo Bambuí, Vazante e correlatos) representa a principal cobertura do Cráton São Francisco, aflorando também nas suas faixas móveis adjacentes, sobretudo na faixa Brasília a oeste. O Grupo Bambuí constitui a unidade característica da Bacia do São Francisco, exibindo a maior área de afloramento de todas as unidades. Encerra um pacote de rochas carbonáticas alternadas com terrígenos, dividido nas Formações da base para o topo:
i) Carrancas - ruditos - conglomerados e diamictitos delgados;
ii) Sete Lagoas - margas, calcilutitos, calcarenitos, biolutitos – calcarenitos e calcissiltitos cinza escuros de água rasa portadores de estromatólito;
iii) Serra de Santa Helena - pelitos – folhelhos e ardósias que mostram em direção ao topo uma tendência de aumento progressivo do retrabalhamento por ondas de tempestade da proporção siltítica e da intercalação de lentes e camadas silto-arenosas;
iv) Lagoa do Jacaré - calcarenitos oolíticos e oncolíticos, pelitos; v) Serra da Saudade - pelitos;
vi) Três Marias - arcóseos, arenitos e conglomerados de origem marinho-raso a fluvial. Esta sequência marca uma transgressão marinha generalizada sobre o cráton e início de uma bacia de antepaís (sítio receptor de sedimentos provenientes de áreas soerguidas nas vizinhanças). O caráter de bacia de antepaís, antes atribuído somente à sedimentação da formação de topo (Fm. Três Marias), tem sido estendido a toda unidade. (Alkmim & Martins Neto, 2001; Martins Neto & Alkmim 2001).