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6. RESULTS AND DISCUSSION

6.1 R ESEARCH Q UESTION 1: T RANSPARENCY AND S USTAINABILITY

Trecho 1

O pelotão estava em forma, a voz de comando foi enérgica e a fuzilaria produziu um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soou como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partira cada um dos projéteis que agora o atingiam no peito, no pescoço e na cara. Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme na venda dos olhos. Mais rápido que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por dentro das suas pálpebras, em marcha a ré, quando a sucessão dos fatos talvez resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui e acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens ricocheteando no bojo do seu crânio. O prazo se esgotaria e sobreviria um ultimato, um apito, um alarme, mas Benjamim os entenderia como ameaça de criança contando até três – um... dois... dois... dois e meio... – e se deteria mais um pouco em momentos que lhe pertenciam, e que antes não soubera apreciar. Aprenderia também a penetrar em espaços que não conhecera, em tempos que não eram o seu, com o senso de outras pessoas. E súbito se surpreenderia a caminhar simultaneamente em todas as direções, e tudo alcançaria de um só olhar, e tudo o que ele percebesse jamais cessaria, e mesmo a infinitude caberia numa bolha no interior do sonho de um homem como Benjamim Zambraia, que não se lembra de alguma vez ter morrido em sonho. (p. 9-10) Era tarde: a câmera criara autonomia, deu de encarapitar-se em qualquer parte para flagrar episódios medíocres, e Benjamim já teve ganas de erguer a camisa e cobrir o rosto no meio da rua, ou de investir contra o cinegrafista, à maneira dos bandidos e dos artistas principais.

(p. 11) ... mas Benjamim não é ator, é modelo fotográfico e nunca se entusiasmou com televisão. Gravou certa vez um comercial para uma companhia aérea: estirado na poltrona, representava um passageiro da primeira classe que deveria estar dormindo quando a aeromoça chegasse com o café da manhã. Mas Benjamim percebeu o movimento da câmera, suas pálpebras desandaram a tremelicar e o diretor não teve paciência para repetir a cena, substituiu-o.

Trecho 2

Nem bem toca a campainha, Ariela percebe que Benjamim está acompanhado: há música e murmúrios de mulher em seu apartamento. Decide-se a ir embora, quando por detrás da porta a visitante ergue a voz, constrangendo-a a escutar: “Ela é igual a todas as tuas amiguinhas”. Benjamim mais sopra do que fala: “Ela não passa de uma burguesa presunçosa”, mas a mulher insiste: “Ela me odeia e queria me matar!”, e seu timbre faz lembrar o da recepcionista. Começa a gemer, e de nada vale a Benjamim aumentar o volume do toca-fitas, porque a mulher é histérica: “Eu não ponho mais os pés no laboratório!”. Assim que vira as costas, Ariela ouve ranger a maçaneta: quem entreabre a porta é um senhor curvo, a camisa para fora da calça surrada, os cabelos brancos em desordem e a barba por fazer há uns sete dias. Fala: “como você demorou”, e convida-a a entrar: se o topasse na rua, num ônibus, num restaurante, Ariela não reconheceria Benjamim. “Não seja insensata”, sussurra a voz masculina no quarto escuro, aonde Benjamim acorre para desligar o videocassete. Ariela pára no limiar do apartamento, e pela janela vê a Pedra. Ato contínuo declina a vista, e no chão vê uma pilha de jornais intatos, latas de cerveja, um telefone emborcado, uma caixa redonda de papelão com uma fatia de pizza, o queijo rígido e engorovinhado, e sobre cada coisa, como uma camada de cinzas, pousa a sombra da Pedra. Há o cheiro da Pedra em Benjamim, que à saída do quarto fita Ariela, empedernido; é tão presente a Pedra naquela sala que, se Benjamim viesse a emparedar a janela, parece a Ariela que a Pedra ficaria do lado de dentro. E Ariela recua um passo, dois, gira na ponta do pé, corre, martela o botão do elevador, esmurra a porta do elevador e lança-se pelas escadas.

Benjamim alcança o táxi no momento em que Ariela se ajeitava no banco traseiro; retém com o joelho a porta aberta, agarra-se ao capô, debruça-se por cima dela, arqueja. Ariela permanece sentada na ponta do banco, segurando o trinco, olhando em direção aos pés de Benjamim, descalços nos paralelepípedos. Seus ombros têm marcas de alça de maiô, e a blusa é a mesma de quando Benjamim a conheceu, com malhas que comprimem as formas dos seus seios mas deixam entrever minúcias. O motorista dispara o taxímetro, e Ariela levanta para Benjamim os olhos vermelhos. Põe a bolsa no colo, desliza para a outra extremidade do banco, e Benjamim nunca havia usufruído assento em que Ariela deixasse sua quentura. Ela puxa da bolsa um porta-chaves de plástico, abre-o e dita: “Rua 88, sem número, última casa à esquerda”. O motorista fala “rua 88... rua 88...”, coçando os cabelos pintados, a tintura muito negra e fosca; dá a partida, e Ariela amassa o porta-chaves entre os dedos, parecendo agoniada. Se estivesse prevenido de sua visita, Benjamim sem dúvida cuidaria de fechar a janela do apartamento. Era

de se esperar que ela se chocasse com a súbita visão da Pedra, e Benjamim, que já a desvinculara de Castana Beatriz, enxergou em sua fisionomia, tal e qual, o estupor da mãe quando foi vê-lo em casa pela primeira vez. Na ocasião, Castana Beatriz também escapou escada abaixo, duvidando que Benjamim a seguisse; vagou pelas ruas, parou num cinema qualquer e entrou no meio do filme sem saber de que tratava. Benjamim sentou-se ao seu lado, e na cena em que a filha do barítono aparece estrangulada na cortina, foi Castana Beatriz quem tomou a iniciativa de procurar sua mão. Hoje Benjamim tenciona acompanhar a jornada de Ariela; terminado o expediente, se ela ainda relutar em voltar ao apartamento, poderá pernoitar com ele em hotel não muito elegante, que admita hóspede sem sapatos. Mas amanhã ou depois ela há de se estabelecer com seus pertences no quarto de Ariela: de madrugada experimentará abrir uma fresta na persiana, e na madrugada seguinte outro tanto, e outro tanto, e jamais se decepcionará com a Pedra, porque terá aprendido a admirá-la pouco a pouco. O táxi entra num túnel mal iluminado, e Benjamim envolve a mão de Ariela, que continua cerrada, óssea. Na dianteira, um caminhão de lixo larga lufadas de fumaça, que benjamim não se incomoda de aspirar fundo para declarar: “Este é um dos melhores acontecimentos da minha vida”. Metade da frase cai fora do túnel, em tom alto, e deve soar estapafúrdia à luz do dia porque Ariela recolhe a mão, e o motorista dá uma gargalhada rouca. Sacudindo o volante, dobra uma esquina com prédios de vidro, e fala: “Um judeu levou a mãe ao planetário...”. Interrompe-se ao relancear Benjamim pelo retrovisor, como a temer que ele seja judeu. Entretanto Benjamim começa a suspeitar que conhece aquele sujeito. Busca-o no espelho, mas é difícil identificá-lo porque ele usa uns óculos escuros com armação espessa de borracha, e agora pega a assobiar sem som , enrugando o focinho. E Benjamim sente maior desassossego ao distinguir o sobrado verde-musgo no final da rua. E para lá que o carro aponta, e antes mesmo que ele freie, Ariela já está com um pé no meio-fio. O motorista espera pelo desembarque de Benjamim, e arranca sem ter sido dispensado nem cobrar pela corrida. E Benjamim defronta o sobrado onde Castana Beatriz e seu amante costumavam se encontrar. Vê-se a um metro da porta do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante talvez se abraçassem e se beijassem na boca. Vê Ariela que abre o cadeado e solta a corrente da porta do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante talvez namorassem às pressas, porque ela teria deixado a filha em casa de desconhecidos, e ele não poderia se atrasar para uma reunião com os dissidentes. Vê ArieIa forçar a porta que está travada na soleira do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante talvez nem namorassem, porque necessitariam examinar uns mapas e discutir a América Latina. Vê a dobradiça que se desprende do batente, fazendo tombar a porta no assoalho do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante talvez namorassem com mais fervor, enquanto tramavam derrubar o governo. Vê

bater o sol na muralha de pó, que Ariela atravessa para sumir no interior do sobrado onde, no dia do tiroteio, talvez Castana Beatriz tenha se jogado na frente do amante para morrer primeiro. A poeira assenta na sala vazia, e Benjamim vê a porta deitada sobre as tábuas do assoalho, e vê o chão da casa como a fachada de uma casa sepulta. Pisa na porta, caminha até o pé da escada e chama “Ariela!”, visando o segundo andar às escuras. Pela beira da sala chega a uma cozinha que dá num matagal: a porta dos fundos está trancada a chave. Volta a sala, depara com um homem em contraluz, ocupando quase todo o vão de entrada, e imagina um cliente de Ariela. Faz menção de cumprimentá-lo, mas o homem desloca-se e dá a vez a outro, de igual tamanho. Atrás deste, um outro, e são doze homens que ingressam no sobrado, dispondo-se em semicírculo. Benjamim fecha os olhos, cobre o rosto com a camisa, porém continua a vê-los. Como que através de um olho que girasse no teto, vê doze homens à sua roda, e vê a si próprio em corrupio. “Fogo!”, grita um, e a fuzilaria produz um único estrondo. Mas para Benjamim Zambraia soa como um rufo, e ele seria capaz de dizer em que ordem haviam disparado as doze armas ali defronte. Cego, identificaria cada fuzil e diria de que cano partira cada um dos projéteis que agora o atingiam no peito, e na cara. Tudo se extinguiria com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que já esperava. (p. 160-165)

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I G U R A S

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APÍTULO

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Figuras 1 e 2: efemeridade da tinta sobre o corpo e mulher em posição fetal. O livro de cabeceira, Peter Greenaway.

Figura 3: a cidade sobre a pele (capa e contracapa do CD Carioca).

Figura 4: capa do romance A retomada, de Alain Robbe-Grillet. Figura 5: as letras góticas e o espelhamento (capa e

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APÍTULO

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Figuras 1 a 4: detalhes de composição da cena: a camiseta com a inscrição “Só Jesus Salva”, o binóculo contendo

uísque, o chaveiro em formato de coração, as fotografias com enquadramentos irregulares.

Figuras 5 a 8: caracterização dos personagens. O velho caseiro pintando os cabelos, a camisa do amigo com mancha

Figuras 9 e 10: ambientes claros da casa da irmã e do sítio da família.

Figura 11: Primeiríssimo plano do olho se abrindo. Figura 12: Personagem diante do espelho quebrado.

Figuras 13 e 14: diante do olho mágico, o embate visual.

Figuras 17 e 18: closes nos corpos fragmentados

Figuras 19 e 20: a relação ambígua dos irmãos – olhares e toques

Figura 21: o peignoir esvoaçante sugerindo o movimento do corpo. Figura 22: a cartela final.

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APÍTULO

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Figuras 1 a 4: as várias mídias: a propaganda no ponto de ônibus, as fotografias, Benjamim e seu “camarim”, a reprodução das artes plásticas.

Figuras 5 e 6: passado (explosão de cores) e presente (cores mais neutras).

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APÍTULO

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Figuras 9 a 10: travelling lateral, com imagens estáticas, simulando fotografias

Figuras 11 a 16: simetrias entre o passado e o presente de Benjamim: diante do pelotão de fuzilamento (no início e no

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APÍTULO

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Figura 17: Benjamim diante do espelho, quando da morte de Castana. Figura 18: a gravação do comercial.

Figuras 19 e 20: “dublagem” de paixões na imitação de cena de Um homem, uma mulher

Figuras 21 e 22: cartaz do filme Benjamim e cartaz do filme Um homem, uma mulher (fotograma no filme Benjamim)