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R ELATIVE VALUATION ANALYSIS

9. RELATIVE VALUATION

9.2 R ELATIVE VALUATION ANALYSIS

Sabe-se que a aplicação de agrotóxicos, por si só, não poderá eliminar os problemas de produtividade nas lavouras nem garantir suprimento alimentar, mas estará obrigatoriamente incluída em qualquer programa de melhoramento exequível, juntamente com a adoção de outros itens, tais como técnicas agrícolas mais sofisticadas e uso de transgênicos. Diante disso, é inegável a necessidade de utilizar agrotóxicos, mas a diversidade de produtos oferecidos no mercado e o fato deles terem sido, muitas vezes, utilizados indiscriminadamente causam preocupações na opinião pública e entre especialistas, devido ao potencial que apresentam em contaminar o ambiente.

Van der Werf (1996) relata que o aumento do número de efeitos da aplicação de agrotóxicos tem sido constatado e considerado nas regulamentações, referentes à qualidade dos corpos

d’água, no sentido de aumentar as restrições do uso desses produtos ou mesmo sugerir seu banimento. Embora alguns dos agrotóxicos mais danosos tenham sido eliminados, a opção de uso dos produtos disponíveis para agricultores difere muito com respeito aos riscos que representam no ambiente.

Existe um consenso de que o impacto ambiental de um agrotóxico depende do grau de exposição (sua dispersão e a concentração resultante no ambiente) e suas propriedades toxicológicas. A avaliação de risco ambiental, considerada em esquemas regulatórios, envolve a avaliação e a estimativa da exposição aos agrotóxicos e seus efeitos nos organismos e no ecossistema (VAN DER WERF, 1996).

Agrotóxicos podem ser aplicados pulverizados na cultura ou no solo. Alguns produtos são incorporados ou injetados no solo e aplicados sob diversas formas ou, ainda, no tratamento de sementes. A aplicação do agrotóxico depende do estágio da cultura, fórmula, alvo pretendido, técnica de aplicação, condições do tempo. Quando agrotóxicos são aplicados por aeronaves, estima-se que mais de 50% pode escapar da área alvo por deriva (PIMENTEL; LEVITAN 1986). Quando bombas pulverizadoras são utilizadas, perdas por deriva são menores, mas ainda significantes: 1 – 10% de acordo com Emans et al. (1992) e 10-30% de acordo com PIMENTEL (1995).

Adjuvantes, utilizados na formulação dos agrotóxicos, podem mudar os efeitos agronômicos (efetividade, fitotoxicidade) do produto formulado. Esses adjuvantes podem também afetar o impacto ambiental, como a dispersão e o período da atividade funcional do ingrediente ativo, que pode ser estendido ou ter a degradação retardada. Infelizmente, van der Werf (1996) relata que há poucas informações, disponíveis na literatura científica, acerca dos efeitos e destinos desses adjuvantes no ambiente.

Os agrotóxicos que alcançam o solo ou as plantas, na área alvo, podem ser degradados ou dispersos no ambiente. Agrotóxicos podem volatilizar no ar, escoar superficialmente ou lixiviar atingindo as águas subterrâneas. Além disso, podem ser assimilados pelas plantas ou organismos do solo ou permanecerem no ambiente.

A perda sazonal total em escoamento superficial por aplicação do agrotóxico no solo- superfície é, de acordo com estudos de Leonard (1990) e Schiavon et al. (1995), cerca de 2%

da aplicação e raramente excede 5-10% do total aplicado. Já a fração removida por lixiviação é geralmente ainda menor do que esses valores, segundo pesquisas desenvolvidas por SCHIAVON et al. (1995) e TAYLOR; SPENCER (1990). Por outro lado, perdas por volatilização de 80-90%, em razão da pressão de vapor dos compostos, têm sido mensuradas em poucos dias após a aplicação (GLOTFELTY et al., 1984 apud VAN DER WERF, 1996; TAYLOR; SPENCER, 1990). No entanto, cabe ressaltar que tais perdas/dispersões dependem de fatores ambientais da região, onde o agrotóxico é aplicado, tais como clima, relevo, características e manejo do solo , velocidade dos ventos, quantidade de precipitações pluviais e propriedades dos agrotóxicos.

Acerca do movimento dos agrotóxicos na atmosfera, as preocupações aumentaram durante os anos de 1970 e 1980. Transporte e redeposição de agrotóxicos podem ocorrer a longas distâncias por movimentos atmosféricos. Exemplo disso foi a constatação de agrotóxicos organoclorados, principalmente endosulfan  e dieldrin, em neblinas sobre o oceano no noroeste do Canadá e na neve do ártico, relatada nos trabalhos desenvolvidos por Gregor e Gummer (1989); Schomburg e Glotfelty (1991) (apud VAN DER WERF, 1996), respectivamente. Também Benn e Mcauliffe (1981) relataram sobre a transferência dos agrotóxicos a longas distâncias, realizada por meio de movimentos atmosféricos. Os autores mencionam um estudo realizado por Riseborough et al. (1967), onde foi demonstrado que resíduos de agrotóxicos do Marrocos foram transportados pela atmosfera até Barbados. Segundo os pesquisadores, os resíduos desses produtos, detectados nas ilhas Shetland, viajaram pela atmosfera, provenientes da América do Norte. Mencionam, ainda, que a transferência atmosférica constitui o único mecanismo que explica o nível de DDT (3,2 ppm) em sapos da Sierra Nevada e no esperma de baleias (6,0 ppm), embora nesse último caso, os elevados índices possam ser atribuídos também à transferência via cadeias alimentares. Assim, a contaminação do ambiente por agrotóxicos deve ser analisada globalmente, vez que não se trata de poluição pontual.

A contaminação da água por agrotóxicos pode ocorrer diretamente pela deriva das pulverizações aéreas, por meio da erosão dos solos contaminados, pelo escoamento superficial (runoff), pela lixiviação e ainda pelo descarte e lavagem de tanques e embalagens de produtos.

Águas superficiais contaminadas podem ter efeitos ecotoxicológicos para a fauna e flora aquáticas e para a saúde humana, se utilizadas para abastecimento público. Isso porque esses produtos são geralmente tóxicos para organismos e muitos são dificilmente degradados no ambiente. Ademais, apresentam efeitos bioacumulativos.

Quando os agrotóxicos atingem o ambiente aquático, eles são expostos a diferentes processos físicos, químicos e microbiológicos. A Figura 6.4 ilustra os processos que podem ocorrer nesses ambientes aquáticos: fotólise, volatilização, sedimentação, ressuspensão, sorção/dessorção, biodegradação, bioacumulação e biotransformação. Destaca-se que, de acordo com Holvoet et al. (2007), dois processos apresentam maior impacto no destino dos agrotóxicos no ambiente – sorção/dessorção e biodegradação. Ambos são fortemente influenciados pela presença da camada de sedimento. Há ainda que se destacar a importância de considerar a meia-vida das substâncias na avaliação do comportamento (persistência) delas no ambiente.

Figura 6.4 - Processos que envolvem os agrotóxicos nas águas superficiais.

Fonte: Holvoet et al. (2007).

Salienta-se que as características dos solos interferem direta e indiretamente no comportamento dessas substâncias no ambiente. Dessa forma, a quantidade de matéria

orgânica, a textura e a granulometria, que resultam na porosidade de um solo, constituem fatores de importância na determinação do comportamento dos agentes contaminantes no ambiente. Grande parte dos agrotóxicos pode ser sorvida pelo material orgânico do solo, impedindo que atinjam o lençol freático por percolação. No entanto, essas substâncias, por ocasião das precipitações pluviais, podem atingir as águas superficiais se esse solo contaminado for carreado pelo escoamento superficial (KHAN, 1980).

Movimentos potenciais dos agrotóxicos pelo escoamento superficial ou lixiviação variam, principalmente, com: propriedades do solo e dos agrotóxicos; condições climáticas; relevo local e práticas de manejo do solo (IOWA, 2010).

Já o movimento dos agrotóxicos no solo é função, especialmente, das interações solo/agrotóxico, segundo os seguintes aspectos:

a) características do solo - teor de matéria orgânica; capacidade de troca catiônica

(CTC); pH; textura; umidade e permeabilidade.

b) características do agrotóxico - coeficiente de sorção, normalizado para o carbono

orgânico (Koc); solubilidade em água; constante de dissociação (pka); coeficiente de

partição octanol-água (Kow); pressão de vapor (PV) e meia-vida no solo (DT50).

Segundo Silva e Fay (2004), os agrotóxicos que permanecem na superfície do solo podem ser carreados, pelo escoamento superficial, por meio de: difusão e transporte turbulento dessas substâncias dissolvidas nos poros dos solos pelo fluxo do escoamento; dessorção de partículas do solo; dissolução dos agrotóxicos nos particulados estacionários; redirecionamento dos compostos retidos nos particulados e sua subsequente dissolução ou suspensão na água em movimento.

Silva e Silva (2007) concluem que pelo fato do comportamento dos agrotóxicos no ambiente, principalmente no solo, depender de diversos processos, faz-se importante o desenvolvimento de pesquisas, em condições brasileiras (ambiente tropical), para prevenir possíveis distúrbios ambientais provocados por esses compostos. Esses estudos propiciariam entender o comportamento dos agrotóxicos utilizados no país e assim possibilitar a aplicação desses produtos com eficiência técnica e econômica, identificando os problemas de contaminação e as opções de recuperação do ambiente contaminado.

Além dos fatores relacionados com o comportamento dos agrotóxicos no meio ambiente, devem ser consideradas também as informações toxicológicas das moléculas em questão. A maioria dos agrotóxicos demonstra atividade bioquímica também em espécies não-alvo e, por isso, seu potencial tóxico também constitui fator de preocupação (RIBEIRO; VIEIRA, 2010).