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Barack Obama foi citado pela primeira vez na história do jornal Folha de S.Paulo na edição de 1° de agosto de 2004, cinco dias após o então candidato ao Senado por Illinois ter sido o orador principal na convenção do Partido Democrata que escolheu John Kerry para concorrer à Presidência. No texto “Bush achou que Obama era Osama”, o colunista Elio Gaspari traçou um perfil sobre o democrata com base em um artigo escrito pelo jornalista William Finnegan e publicado na revista New Yorker.

Despedindo-se de uma comitiva de parlamentares que o visitavam na Casa Branca, George Bush se assustou com um enfeite na roupa de uma deputada. Era um nome que começava com “O” e terminava com “ama”. Deu um passo para trás. “É Obama, com B”, esclareceu a senhora, contando-lhe quem era o tal sujeito. Bush se aquietou: “Bem, eu não o conheço”. “Vai conhecê-lo”, respondeu a deputada. Na semana passada, o mundo conheceu Barack Obama, a incrível novidade da política americana, o mais recente candidato à condição de favorito para vir a ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.Obama tem 42 anos e em novembro será eleito senador pelo Estado de Illinois. Será o quinto senador negro na história do país, o único no atual plenário.Na quarta-feira, ele fez o principal discurso da convenção democrata, em Boston. Produziu uma bela página da oratória política americana. Barack Obama veio para ficar.32

Até o final do ano de 2004, Obama foi citado mais quatro vezes em publicações da Folha

de S.Paulo, sendo uma vez em um artigo do The New York Times e, em outra, em texto do

Financial Times, ambos reproduzidos pelo enunciador. No ano seguinte, o então senador por Illinois foi retratado em apenas quatro reportagens da Folha. Obama começou a ter mais visibilidade na publicação brasileira a partir de junho de 2006, quando o enunciador o chama de “atual estrela em ascensão do Partido Democrata e um dos nomes cogitados à pré-candidatura nas eleições presidenciais de 2008”. Em 10 de fevereiro do ano seguinte, Obama entrou formalmente

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na disputa pela pré-candidatura e o enunciador destacou a fala do democrata, que se apresentou como o candidato “da mudança”.

No corpus pesquisado, a Folha de S. Paulo publicou 690 reportagens, artigos e editoriais, e Barack Obama obteve visibilidade superior à de McCain em todos os meses. No total, o democrata é citado em 95,1% dos textos contra 76,5% de McCain. O enunciador utilizou, durante sua cobertura jornalística, artigos do The New York Times e do britânico Financial Times, duas publicações que declararam apoio a Obama em seus editoriais.

O veículo de comunicação brasileiro repetiu as convocações realizadas pelos dois jornais americanos analisados nesta pesquisa e os dois temas mais citados no corpus da Folha de S.Paulo foram economia e política externa. Já a crise do mercado financeiro norte-americano foi o subtema econômico de maior visibilidade do jornal brasileiro.

Para fins desta discussão, é importante relembrarmos que, em um primeiro momento, as influências na imprensa brasileira foram europeias. No decorrer do século XX, aos poucos os veículos de comunicação passaram a sofrer influências norte-americanas. De acordo com Carlos Eduardo Lins da Silva, autor de O adiantado da hora: a influência americana sobre o jornalismo

brasileiro, na década de 1940, dois importantes jornalistas brasileiros foram para os Estados Unidos e voltaram dispostos a mudar alguns dos padrões da imprensa nacional. Um deles, Pompeu de Souza, realizou uma das mais importantes transformações do jornalismo contemporâneo. Segundo o autor, é no Diário Carioca que o lide – o primeiro parágrafo de uma notícia, onde são respondidas seis perguntas básicas: o quê, quem, quando, onde, como e por que – foi adotado como norma. Samuel Wainer também foi citado pelo autor como o jornalista que ajudou a consolidar a influência da imprensa norte-americana no Brasil (cf.: SILVA, 1990, p. 77, 79).

Silva (1990) também diz em sua obra que a Folha de S.Paulo é um caso ilustrativo de influência consciente, não ocasional, do jornalismo norte-americano, tanto em quesitos gráficos quanto editoriais. Um exemplo é a adoção da autocrítica pública por parte do ombudsman, um profissional de mídia que visa a receber, investigar e encaminhar as queixas dos leitores, e ainda realizar a crítica interna do jornal uma vez por semana. A função foi criada no jornalismo dos EUA nos anos de 1960 e incorporada no jornal brasileiro em 24 de setembro de 1989. Segundo a

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Folha de S.Paulo, a criação do cargo era algo considerado desde 1986, após o sucesso das experiências realizadas pelos jornais espanhol El País e norte-americano The Washington Post.33

Thompson (1999), estudioso da influência da mídia na formação das sociedades modernas, afirma que, depois da I Guerra Mundial, foi observada a expansão de duas agências americanas, a Associated Press (AP) e a United Press Association (UPA), posteriormente transformada em United Press International (UPI), exercendo crescente pressão sobre as agências europeias (THOMPSON, 1999, p.140).

O enunciador brasileiro ainda lançou mão de textos de agências de notícias internacionais. Segundo Natali (2004), as agências internacionais pensam em um cliente abstrato ao redigirem seus despachos. Esse cliente pode ser uma emissora de rádio da Tailândia, uma revista semanal da Bélgica ou um jornal diário do Brasil. As agências deram viabilidade econômica ao noticiário internacional porque um texto distribuído a centenas de jornais que assinam os serviços de uma agência sai incomparavelmente mais barato do que um texto produzido por um correspondente ou enviado especial, cujos custos são cobertos inteiramente por um jornal ou uma revista, segundo explica Natali. Uma consequência da generalização dos serviços das agências é o relativo apartidarismo do noticiário. Esta não é uma postura ética, e, sim, uma postura de mercado (cf.: NATALI, 2004, p. 31, 57). Entretanto, 85% de todo o corpus foi produzido pelo enunciador por meio de reportagens de seus correspondentes e enviados especiais nos Estados Unidos.

Gráfico 8 – Corpus mensal da Folha de S.Paulo

Corpus da Folha de S.Paulo

Junho/08 102 Julho/08 95 Agosto/08 109 Setembro/08 125 Outubro/08 170 Novembro/08 * 89 Total geral 690

Fonte: Levantamento da autora

* Período do corpus analisado é de 1º a 5 de novembro

33 As regras sobre o cargo de ombudsman na Folha de S.Paulo estão disponíveis no site:

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Gráfico 9 - A visibilidade de Obama e McCain na Folha de S.Paulo

Fonte: Levantamento da autora

O jornal produziu textos e artigos para abordar a política externa dos Estados Unidos em relação à América Latina, especialmente no que dizia respeito ao Brasil. Neste contexto, foram publicadas reportagens sobre iniciativas energéticas brasileiras abordando a questão do etanol e o programa de biocombustíveis do país, bem como discussões sobre o bloco comercial sul- americano.

As fontes entrevistadas pelo enunciador ressaltaram que a vitória de um presidente democrata poderia trazer mais liberalismo nas relações políticas, ao passo que seria mais conservador no protecionismo. Já a vitória de um presidente republicano poderia representar a adoção de relações políticas mais conservadoras com o Brasil, enquanto as relações comerciais seriam mais flexíveis.