Conforme Nails (2002, p.8-10), Agatão viveu entre 447 a ±401 a.C. Oriundo de Atenas, tinha com pai Tisamenus e exercia a poesia como profissão. Nos textos platônicos, o tragediógrafo é citado no Protágoras 315e, no Epigrama 6, e consta como personagem central no Banquete. O mesmo também é uma das figuras que compõem o Banquete de Xenofonte e aparece em três peças de Aristófanes – As Rãs, Tesmofórias, Geritades; é ainda citado na Ética
a Eudemo 1232b, e na Poética de Aristóteles.
Segundo Souza (2003, p.293), é seguro defender que o contexto no qual Platão insere os acontecimentos desse banquete estão correlacionados à primeira grande vitória agatônica em um concurso público em 417-416 a.C. Para este autor, a elegância e o caráter erótico são elementos essenciais daquilo que a tradição legou sobre Agatão. Dentre outras, teria sido autor de algumas tragédias, como: Aérope, Alcméon, Tiestes, Mísios, Télefo, Anteu/Anthos,
Aquiles.
Para além dessas informações gerais, o conjunto de características que mais se ressalta no poeta, conforme à maioria desses testemunhos antigos é: sua beleza (194d), seu esforço para permanecer com a aparência de jovem e sua postura efeminada (é assim que Aristófanes o retrata comicamente nas Tesmofórias). Assim, é possível concluir que essa última faceta de Agatão pode ser compreendida como o produto direto do desejo de manutenção das características de um rapaz imberbe, o que lhe permitiria a continuidade de seu relacionamento com Pausânias, mesmo após o período de tempo tradicionalmente aceito ter passado (esse é um argumento central para compreensão tanto dos discursos do poeta como do seu erastes).
Outro argumento que poderia ser levantado com relação a este comportamento não paradigmático de Agatão para a sociedade de sua época é apresentado pelo próprio personagem
Agatão na comédia As Tesmofórias de Aristófanes. A partir do v. 146336, em seu diálogo com um parente, afirma que cabe a um poeta adequar a sua maneira de viver de acordo com as ideias e personagens retratados em sua obra.
Nas palavras da personagem Agatão na peça aristofânica:
Ai meu velho, meu velho! O que te faz falar é a dor de cotovelo! Mas não me atingiu a picada. Cá por mim trago uma roupa conforme a minha maneira de pensar. É preciso que o poeta atue de acordo com as suas peças, que lhes adapte o seu tipo de vida. Por exemplo, se se fazem peças com mulheres, é preciso que o corpo participe dessa natureza. (ARISTÓFANES, As mulheres que celebram as Tesmofórias, v. 147-153).
É contra toda essa concepção mimética da composição artística, bem como de uma proposta de paidéia derivada de uma mentalidade poética, aqui representada por Agatão, que Platão se oporá com muita veemência, e por isso utilizará do mesmo escrutínio de Aristófanes para criticar Agatão e os poetas: a sátira.
Para o poeta, como demonstrado neste longo, mas imprescindível excerto, a mímesis entre ele e sua obra é uma imposição estético-existencial como afirma-nos Silva em seu comentário sobre As mulheres no parlamento de Aristófanes:
Como novidade na exploração do tema da crítica literária, pela primeira vez é emitida, pela boca de Agatón, uma teoria sobre a crítica estética: entre o artista e a obra é forçoso que exista conformidade. O poeta é livre de escolher as suas criações conforme as tendências naturais que o distinguem. Mas a esse impulso íntimo e congênito da physis, pode acrescentar-se a intervenção da mímesis, como um esforço deliberado para suprir a insuficiência da natureza. Mimesis é aqui entendida como a representação sugestiva de um estado físico ou psicológico, que se pretende recriar. A arte já não é apenas espontaneidade, mas a téchne indispensável converte-a num ato racional e calculado. A Agatón, de acordo com o retrato cômico do homem, sobejam dotes como cultor de gunaikeia drámata; será para a criação dos andreia que o poeta se verá forçado a recorrer à imitação. Na concepção de Aristófanes, mímesis não é, como na definição aristotélica (Poética 1448b 5-9), um componente congênito da natureza humana, mas antes um subsídio onde a physis se revela insuficiente. E essa posição teórica encontra em Agatón, autor de um trabalho insano de técnica e aperfeiçoamento (cf. vv. 52-57), o interlocutor apropriado. (SILVA, 1988, p. 26).
A partir dessa elucidativa citação torna-se mais evidente que a afamada oposição de Platão aos poetas faz parte de uma contraposição a toda uma concepção onto-epistêmica- paidética. Opor-se aos poetas não se trata apenas de divergir quanto ao modo como os indivíduos elaboram seus conteúdos de entretenimento e cultura, mas diz respeito à contestação de todo um quadro teórico.
Toda a defesa de uma estabilidade do conhecimento, da possibilidade de uma postulação lógico-ontológica da verdade e de um ideal de homem, concebidos por Platão, entram em divergência absoluta com aquilo que – de maneira implícita, mas extremamente sedutora – manifesta-se como a indústria de uma paidéia poética.
Por isso, deve-se tornar o mais evidente possível: a desaprovação de Platão/Sócrates para com Agatão/Górgias é muito mais fruto de uma rejeição ao desenvolvimento de um projeto educacional fundamentado nos pressupostos da sofística e dos poetas, do que o resultado de uma rivalidade pessoal337.
337 Na verdade, uma interpretação em tal nível – tomando a oposição de Platão a Agatão e Górgias como algo pessoal –, além de simplória, é completamente reducionista, sendo incapaz de vislumbrar a relevância e a seriedade do projeto erótico-paidético de Platão encenado por Sócrates no Banquete, assim como a inegável relevância do sofista Górgias nos diálogos platônicos (SANTOS, 2011, p.55), inclusive neste diálogo.
Como se demonstrou ao longo de todo diálogo, somente alguém como Platão e Sócrates, imbuído de uma compreensão paidética fundamentada numa racionalidade que, simultaneamente, produza e possua uma estabilidade onto-epistêmica poderá operar com categorias do campo da retórica e da poética, sem comprometer o macroprojeto de uma paidéia capaz de formar bons cidadãos.
É tomando como fundamento essa concepção teórica que se pode validar e justificar o recorrente uso de citações poéticas, recursos retóricos e imagens artísticas no texto platônico. Aquilo que é criticado e denunciado acerca dos poetas e sofistas é exatamente o elemento pedagógico utilizado pelo filósofo.
Enquanto sofistas e poetas utilizam-se de suas ferramentas retórico-estéticas para “piὀtἳὄ”Ν umἳΝ ὀὁὦãὁΝ tὄὠgiἵἳ da realidade – pressupondo, inclusive, em alguns contextos a impossibilidade de um conhecimento efetivo da realidade (KERFERD, 2003, p.25-30) – o filósofo, nesse caso encarnado na personagem Sócrates, manuseará o mesmo aparato discursivo, todavia, com o firme propósito de estabelecer critérios mínimos, mas indispensáveis para a estruturação do conhecimento.
Retomando a estratégia da íntima associação entre artista e sua obra de arte, defendida pelo Agatão das Tesmofórias e assumido procedimentalmente por Agatão no
Banquete, é necessário compreender que tal argumento é utilizado pelo personagem naquele
contexto para justificar um procedimento muito mais próximo ao perfil feminino desempenhado naquela sociedade do que ao masculino – como apontam alguns especialistas, segundo um escólio antigo contido na obra, uma tragédia seria de homens ou de mulheres não em virtude da temática ou dos personagens principais, e sim, devido à natureza do coro que a compõe.
Associando a mesma ideia atribuída a Agatão nas Tesmofórias por Aristófanes, ao procedimento de mímesis de si através da descrição de Eros aqui no Banquete de Platão, pode- se compreender com maior clareza por que o deus a ser louvado possui, segundo a concepção do tragediógrafo, uma série de características similares ao próprio poeta.
A compreensão do papel desempenhado pela personagem Agatão no Banquete, torna-se crucial para a leitura que se fará desse diálogo platônico como um todo. Como afirma- nos Regali (2016, p.204), o discurso de Agatão deve ser analisado com bastante atenção, pois: ele precede imediatamente à fala de Sócrates – e por isso cerimonialmente seria o discurso que estaria no nível mais próximo ao do filósofo – servindo de plataforma a partir da qual o mestre de Platão desenvolverá todo seu encômio.
É necessário perceber que tὁἶἳὅΝἳὅΝὅupὁὅtἳὅΝ“ἵὁὄὄἷὦὴἷὅ”Νas quais a sacerdotisa de Mantinéia fez à concepção socrática de Eros no memorável encontro que esses tiveram, são, na verdade, contraposições às principais afirmações defendidas por Agatão em seu gabo. Entretanto, deve-se destacar a existência de premissas importantíssimas do discurso do tragediógrafo com as quais Diotima concordará integralmente; por exemplo, quando o poeta relaciona diretamente a compreensão do Eros à captação daquilo que seja o belo em si, este estará antecipando um dos principais aspectos da argumentação da sacerdotisa segundo Sócrates narrará.
Diante dessas justificativas, fica explícita a necessidade de conceder uma reflexão pormenorizada acerca do conceito de Eros extraído da fala de Agatão registrada no Banquete. Entretanto, é claro que se deve reconhecer, majoritariamente, ao longo da historiografia filosófica tradicional, que os intérpretes concederam aos discursos de Sócrates e Alcibíades um destaque com relação aos proferidos pelos demais simposiastas.
Com efeito, não há dúvidas de que, levando em consideração inclusive a extensão que seus encômios ocupam na estrutura literária do Banquete e a riqueza de detalhes contidos nas falas de Sócrates e Alcibíades, esses dois personagens apresentam de maneira mais nítida a teoria platônica relativa ao amor.
Contudo, desprezar ou até mesmo desconsiderar o valor filosófico dos demais discursos pronunciados seria – como se tem defendido exaustivamente neste trabalho, por meio de vários argumentos – algo absolutamente precário e anômalo, sobretudo se levarmos em consideração o modo pelo qual a produção literária platônica se estabelece.
A tradição, durante muito tempo, caracterizou o discurso do anfitrião do célebre
symposium, como fez com todos os demais louvores a Eros que antecederam a fala de Sócrates,
como sendo apenas uma típica exemplificação caricatural da retórica sofística. Por isso, desprovida de qualquer relevância conceitual ou filosófica para leitura do diálogo platônico.
As análises contemporâneas, contudo, às quais se vincula a presente pesquisa, compreendem o encômio de Agatão como uma rica e complexa reflexão filosófica sobre
Eros338; além disso, é necessário conceber a discussão promovida pelo poeta como preparatória e imprescindível para toda a argumentação socrática que se desenvolverá a posteriori.
Algumas premissas podem ser apresentadas, ainda que resumidamente, para se justificar uma consideração mais detida no discurso de Agatão:
338 Autores como Dardón (2012, p. 898), tanto em virtude do destaque que o personagem recebe nesse diálogo, como pelas teses por ele apresentadas e defendidas, chegam a alegar que o discurso de Agatão é um dos pontos centrais para a leitura do Banquete.
a) o destaque que a personagem Agatão ganha no enredo do diálogo: A razão de todos os oradores estarem reunidos é a vitória de Agatão; o jantar, assim como a competição discursiva após este, dá-se na residência do tragediógrafo; ele fará uso da palavra imediatamente antes de Sócrates, o que por uma estratégia ὄἷtὰὄiἵἳ,ΝlἷvἳὄὠΝ“ὁΝfilhὁΝἶἳΝpἳὄtἷiὄἳ” a constituir seu encômio como uma resposta direta às ideias presentes no gabo de Agatão a Eros;
b) este é o discurso proferido por um perito (tanto em compor discursos poderosos
como em louvar a Eros): Agatão é o poeta premiado do momento cultural grego,
cuja capacidade discursiva não é posta em dúvida por nenhum dos comensais presentes na cena; antes, é sistematicamente ressaltada por Sócrates (201c) – ainda que esses supostos elogios socráticos possam ser exclusivamente entendidos como produtos da ironia do filósofo. Logo, as palavras proferidas por alguém tão habilitado devem ser avaliadas com muita atenção, pois, certamente, nada em tal discurso será acidental ou desprovido de intencionalidade;
c) a declarada associação entre o discurso de Agatão e as teses filosófico-retóricas
de Górgias: Será de modo específico, com relação às palavras do anfitrião sobre
a natureza de Eros, que Sócrates fará uma explícita crítica/reação à prática discursiva sofística. Contudo, como exaustivamente demonstrado no curso deste trabalho, há a presença de elementos conceituais da Sofística que estão contidos também nos encômios antecedentes ao de Agatão. Compreendendo que as palavras do poeta emulam as teses sofístico-retóricas de Górgias, é necessário reconhecer que as críticas socrático-platônicas não têm como objetivo central atacar Agatão ou a poesia, mas, Górgias e a sofística. Além disso, o próprio Sócrates afirma – mais uma vez num provável tom de ironia e crítica ao conteúdo do discurso de Agatão – que antes de conversar com Diotima, sua concepção acerca de Eros era muito similar a apresentada por Agatão (201e)339.
339 Apesar dessas aproximações entre o elogio de Sócrates a Eros e o encômio de Agatão que justificam uma análise detida com relação à fala do tragediógrafo, é importante perceber que há uma voraz crítica socrático- platônica associada a Agatão, mais especialmente a quem ele representa em seu discurso – no caso Górgias e os sofistas como um todo. É destacável que Agatão é o único dos convivas o qual Sócrates submete ao processo da maiêutica, com o objetivo de "refinar" as opiniões daquele, dissuadindo-o de seu ponto de vista inicial (por meio da demonstração das fragilidades e contradições internas ao discurso proferido pelo poeta).