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Especificidades da cultura brasileira foram estudadas sob diversos prismas por muitos pesquisadores da área de administração de empresas. Como componente do referencial teórico, nesta dissertação optou-se por apresentar as reflexões mais abrangentes, que discorrem sobre aspectos e contrexto de manifestações da cultura nacional dentro das organizações.

Motta (1997) reúne elementos que ilustram como a cultura nacional pode interferir ou influenciar os estilos de administração. “As situações administrativas são filtradas pelo conjunto de crenças e atitudes que cada um de nós tem.” (MOTTA, 1997, p. 26); ora, se essas

crenças e atitudes são construídas no contexto da cultura nacional, o conhecimento de seus pressupostos é ferramenta para entender as diferenças entre os estilos administrativos.

Nesse sentido, o autor traça um panorama do estudo da nossa cultura com base em pesquisas comparativas aplicadas à realidade organizacional. Em um segundo momento, o autor levanta conceitos de ensaístas consagrados que corroboram com as pesquisas comparativas. Dentre os estudos comparativos, Motta (1997) recorre a André Laurent, Philippe de Iribarne, às pesquisas de Geert Hofstede (1991) e às quatro dimensões da cultura. Motta busca em Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Alfredo Bosi, Darcy Ribeiro e Roberto Da Matta elementos para a construção do cenário que justifica observações destacadas dos estudos comparativos.

O Brasil é caracterizado por grande distância do poder. Motta (1997) entende que essa conclusão da pesquisa de Hofstede (1991) é endossada pela gritante diferença social, herança do passado escravocrata. Essa herança, por sua vez, é contextualizada com a abordagem de Caio Prado Júnior: “No Brasil, o operário é o sucesso do escravo” (MOTTA, 1997, p. 31) e Gilberto Freyre: “A base da cultura brasileira é o engenho” (idem, p. 31). O autor recorre também ao argumento de que, no Brasil, os laços pessoais sobrepujam a razão das leis e regras (HOLANDA, 1995), aspecto que se desdobra em apadrinhamento e na prática de contornar as regras para a solução de problemas, mais conhecido como “jeitinho”.

Para Motta (1997), a cultura nacional pode oferecer um caminho para a compreensão mais apurada das dinâmicas administrativas na realidade brasileira, tais como os processos de decisão e de delegação de poder. Especificamente sobre o processo de decisão, o autor comenta a conclusão de uma pesquisa que atesta que o processo de decisão no Brasil é mais arriscado e rápido do que na Inglaterra (ARRUDA, s. d. apud MOTTA, 1997, p. 31). No Brasil, por conta da concentração de poder e da aversão aos ritos formais, a decisão fica por conta de um número menor de pessoas e é tomada levando-se em conta informações mais

simples e de fácil obtenção, daí ser este um processo mais rápido e, por outro lado, também mais arriscado (idem, p. 31).

Motta (1997) ressalta também que os aspectos culturais destacados afetam outras esferas da administração, tais como a relação com autoridades e sua delegação, a convivência de aspectos tradicionais com aspectos modernos na sociedade, a personificação de relações tidas por ele como racionais; contudo, o autor recusa a idéia de harmonia — admite que o Brasil é “terra de contrastes” e, por isso mesmo, carrega diversas tensões.

Freitas (1997) também procura contribuir com o pensamento crítico e com a elaboração de um modelo gerencial brasileiro que contemple “alguns traços básicos de nossa cultura” (FREITAS, 1997, p. 39). Para tanto, recorre a uma bibliografia que também resgata a história social do país e abordagens que apresentam “uma análise mais voltada para a compreensão de valores, crenças e costumes do cotidiano social e individual” (idem, p. 40).

Freitas sugere, então, um quadro com os “traços brasileiros mais nitidamente influentes no âmbito organizacional”, a saber: hierarquia, personalismo, malandragem, sensualismo e espírito de aventura.

A hierarquia diz respeito à concentração de poder, à distância social que permeia a sociedade e à anuência dessa situação por parte dos menos favorecidos. Novamente, o passado colonial, a escravidão e a figura marcante do patriarca são resgatados para justificar a forte hierarquização das relações sociais que têm o consentimento geral (FREITAS, 1997, p. 46). Passado esse cuja trajetória não sofreu ruptura do ponto de vista da elite dominante, resultando em uma burguesia apoiada nas antigas oligarquias agrárias e cujos interesses pessoais e a lógica da emoção sempre falaram mais alto do que o bem e a ordem públicos, elementos que se combinam com a “cortesia” do brasileiro e resultam no personalismo: “uma relação em que o pai (superior), ao mesmo tempo controla o subordinado e o ordena (relação econômica), também agrada-o e protege-o (relação pessoal)” (idem, p. 49).

Freitas descreve a malandragem como um conceito amplo que media todas as relações sociais, uma forma de viver marcada por estratégias para romper a rigidez de normas e amolecer a impessoalidade. “Um malandro é aquele que, por ser dinâmico e ativo, busca soluções criativas e inovadoras.” (FREITAS, 1997, p. 50). Essa forma de agir malandra tem ainda o tempero da sensualidade e do espírito de aventura, ambos também herança do colonizador português. Freitas lembra da “facilidade” com que o português se misturou à mulher “exótica”, ilustra o aspecto sensual do brasileiro com festas como o carnaval e festa junina, cita também pratos típicos da culinária brasileira, como o beijinho e o casadinho, para concluir que “seria de se esperar que nossas relações interpessoais, além de serem afetivas e próximas, caminhassem nos limites que seria um sensualismo afetivo.” (idem, p. 51).

Quanto ao espírito aventureiro, o autor lembra da abordagem de Holanda (1995) sobre a característica exploratória e a aversão ao trabalho metódico do colonizador português para concluir traços de baixa disciplina e repugnância a atividades operacionais.

Já Motta e Alcadipani em “Jeitinho Brasileiro, controle social e competição” (1999), revisam especificamente o conceito do jeitinho brasileiro e debatem suas implicações em termos de controle social e competição. Sua reflexão têm como ponto de partida o conceito de cultura de Geertz e o referencial de conceitos históricos e sociais que contextualizam o jeitinho brasileiro e o colocam sob a perspectiva de instrumento de controle social e de competição. Para isso, os autores discorrem acerca da formação da sociedade brasileira sob a ótica da exploração colonial que acarretou uma estrutura social que suportava apenas a metrópole e não correspondia em nada às demandas da colônia: “a bem da verdade, a metrópole explorou e pretendia dominar a colônia. Para tanto, moldou-a e geriu-a conforme suas normas, regras e estruturas” (MOTTA; ALCADIPANI, 1999, p. 7).

A República, por sua vez, não teria trazido as mudanças necessárias à estrutura político-social, e, portanto, a classe dominante se manteve no poder assim como seus

instrumentos de controle e de manutenção das hierarquias. Nota-se que a argumentação e os pontos destacados da trajetória histórica são muito próximos às abordagens de Freitas (1997).

Os autores também refletem sobre a ambigüidade das relações de poder que permeiam a sociedade brasileira; para eles, essa ambigüidade é conseqüência de três processos sociais que permearam a formação da sociedade brasileira: o cunhadismo, a relação próxima entre senhor e escravo e o coronelismo. O coronelismo seria a manutenção do poder do senhor do engenho nos tempos do ínício da República. A relação entre senhor e escravo é entendida tal como a abordagem de Freyre (2004) e como já foi discutido nesta dissertação. Quanto ao cunhadismo, que aconteceu nos primórdios da colonização, é o nome dado à prática do português que, ao chegar em terras da colônia, rapidamente estabelecia laços familiares entre os indígenas casando-se com índias, com o intuito de não apenas popular o novo continente, mas também para fazer seus “parentes” trabalharem a seu favor (RIBEIRO, 1995).

Motta e Alcadipani também resgatam aspectos destacados por Holanda (1995), tal como a aversão aos ritos sociais e a prioridade dada ao interesse pessoal em detrimento do público.

Ainda que esses traços sejam essenciais para o jeitinho, Motta e Alcadipani (1999) entendem, no entanto, que o formalismo, característica das sociedades primáticas, é o principal causador do jeitinho. Seguem também a mesma base teórica apresentada por Guerreiro Ramos nesta dissertação: “O jeitinho é uma forma particular (pessoal) de as pessoas resolverem seus problemas dentro da sociedade brasileira sem a alteração do status quo.” (MOTTA; ALCADIPANI, 1999, p. 10). O jeitinho é classificado como uma instituição cultural da sociedade brasileira pelos autores porque é prática generalizada e tem suas raízes em aspectos como a ambigüidade, a manutenção de antigas hierarquias e estruturas sociais e a falta de aptidão à racionalidade que o estado de direito requer, além do formalismo.

Uma vez que o jeitinho brasileiro é entendido como uma instituição cultural, ele é entendido também como dispositivo de controle, pois é ele que oferece o código de normas aceitas pelo grupo para a solução de problemas. “Como instituição cultural, ele faz parte da moral brasileira, sendo que, quando uma situação difícil se apresenta a um brasileiro, ele espera ‘dar um jeito’ para resolvê-la” (MOTTA; ALCADIPANI, 1999, p. 10). Dentre as seis categorias apresentadas de controle social — controle organizacional, controle de resultados, controle ideológico, controle do amor, controle pela saturação e o controle pela dissuasão —, os autores entendem que o jeitinho colabora com o controle de resultados e controle do amor, que diz respeito à identificação no plano pessoal e à confiança.

Alves (1999) também pretende colaborar com a análise de organizações empresariais aa realidade brasileira, no entanto, segue outro caminho metodológico. Sua reflexão parte de uma análise das dinâmicas de liderança de acordo com conceitos consagrados da Sociologia e da Psicanálise, uma vez que, a seu ver, o líder tem papel fundamental em qualquer processo de mudança ou flexibilização de regras, fator decisivo para a estrutura organizacional. Recorre ao conceito weberiano de tipos ideais, ressaltando o fato de que eles são encontrados em diferentes graus e combinações na realidade, o que permite entender que tanto os modelos de liderança — carismático, tradicional e burocráticos — quanto os modelos de estrutura organizacional, que combina também aspectos da liderança, são verificados de forma híbrida na realidade.

O autor entende que nas estruturas das organizações brasileiras “persiste uma dualidade traduzida pela contradição entre o tradicional e o moderno, entre o arcaísmo empresarial e o ‘novo’ empreendimento” (ALVES, 1999, p. 6), o que exige um modelo também peculiar de liderança, ou seja, a liderança organizacional reflexiva (LOR). A esse líder seria atribuído “uma energética e permanente atuação no combate à tendência

burocratizante, apesar de ele próprio não estar livre de amarras burocráticas para agir.” (ALVES, 1999, p. 7).

A abordagem de Alves (1999) permite colocar em perspectiva dinâmica os aspectos culturais brasileiros já tão explorados até este ponto nesta dissertação. O autor entende que aspectos como personalismo, informalidade e fidelidade pessoal seriam traços de uma estrutura paternalista; enquanto a impessoalidade, ritos formais e hierarquia são aspectos de uma estrutura burocrática; por fim, afeição, criatividade e submissão são elementos de uma estrutura carismática. O autor se utiliza de pesquisa bibliográfica para certificar-se da presença desses elementos no perfil do brasileiro. Ora, se o brasileiro de fato apresenta todas essas características, “pode-se inferir que as organizações empresariais em nosso país apresentam uma estruturação mista” (ALVES, 1999, p. 12). Assim, a liderança organizacional reflexiva seria o modelo mais adequado para dar conta dessa peculiar estrutura mista.

Wood (1997) também pensa a liderança em contexto brasileiro, porém o faz ao analisar o filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. Além de lançar mão de reflexão comparada sobre o contexto da liderança no Brasil e nos Estados Unidos, sua metodologia encontra respaldo na teoria de que obras de ficção podem revelar elementos não-racionais e simbólicos, não apreendidos pelas metodologias tradicionais e que podem instigar diferentes exames da realidade organizacional.

Em sua análise sobre o filme Terra em Transe, que conta a história de um período político na fictícia cidade de Eldorado, Wood (1997) identifica que os personagens são arquétipos da trajetória do Brasil, sem heroísmo algum, são todos dúbios, contraditórios e complexos. Também identifica que neles os interesses pessoais sobrepujam os públicos, o carisma confunde-se com coronelismo e populismo e existe grande distância entre o povo e o poder.

Entendendo que o filme faz emergir o imaginário brasileiro sobre a idéia de líder, Wood faz uma comparação com o imaginário norte-americano de liderança. Em sua análise, o norte-americano espera que o líder personifique a ordem, disciplina, perseverança, racionalidade, trabalho duro, além do individualismo e sede de conquista. Wood considera que a plasticidade herdada dos portugueses também confunde o imaginário de líderes e mitos. Em termos organizacionais, o aspecto da distância do poder e a necessidade de ter “alguém mandando” interfere nos modelos de liderança e, conseqüentemente, nos processos decisórios. Conclui que “no Brasil, participar de processos decisórios é primeiro um ato de benevolência do patrão.” (WOOD, 1997, p. 153)