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No cristianismo, como já referido, há várias formas de se viver o Evangelho e de se colocar em prática o amor, formas estas delineadas pelas diversas espiritualidades, basta considerar os diferentes carismas que surgiram ao longo da história na Igreja Católica e em outras igrejas cristãs, detendo-nos no âmbito do cristianismo. Assim

sendo, reafirmamos a ideia de que o MF “é o espaço no qual a crença católica é vivida de um modo que não é vivida em outros espaços” (Cruz 2009: 104):

Amando o próximo, como nos propusemos, assumo realmente Deus Amor como meu Ideal, porque, deste modo, também passo a ser, de certa maneira, “amor”. Amando o próximo assim eu realizo a vontade de Deus, que para mim está concentrada sobretudo no seu mandamento. De fato a única base sobre a qual posso construir todas as outras é a caridade66 para com os irmãos, sem a qual nada tem valor. (Lubich 1986: 113)

O amor é compreendido, portanto, como intenção que se materializa em fatos: não sentimento (embora contenha o sentimento) e sim ação. Desse modo, exige vontade, determinação, razão, além da emoção e da empatia. O amor ao próximo manifesta o amor que parte de um agente ativo (o que ama) para um agente passivo (o que recebe o amor); e o amor recíproco se manifesta em situações nas quais ambos os agentes são passivos e ativos, porque o que ama é por sua vez amado e vice-versa.

Lubich, inumeráveis vezes, falou do amor, ressaltando que o amor cristão possui características próprias. Ao longo dos anos, com regularidade, encontra-se no pensamento e no discurso de Lubich um levantamento dessas características do amor, com algumas variações, mas essencialmente iguais. Tais características foram sistematizadas no que Lubich denominou arte de amar:

Disse um pensador: “Amar é um bem; saber amar é tudo” 67. Sim, saber amar, porque o

amor cristão é uma arte e é necessário conhecer esta arte. [...] A verdadeira arte de amar emerge toda do Evangelho. Colocá-la em prática é o primeiro e imprescindível passo a ser cumprido para desencadear aquela revolução pacífica, mas incisiva e radical, que transforma cada coisa. Diz respeito não apenas ao âmbito espiritual, mas também àquele humano68, renovando cada uma de suas expressões: cultural, filosófica, política, econômica, educativa, científica, etc. É o segredo daquela revolução que permitiu que os primeiros cristãos invadissem o mundo então conhecido. (Lubich 2005: 23)

Deste trecho de Lubich, considera-se pertinente destacar: “A verdadeira arte de amar emerge toda do Evangelho de Cristo. Colocá-la em prática é o primeiro imprescindível passo a ser dado para poder desencadear aquela revolução pacífica, mas incisiva e radical que transforma cada coisa”, pois indica que o ato de amar é motivado

66 O termo caridade é aqui utilizado pela autora como sinônimo de amor e não no sentido redutivo que o

uso lhe conferiu de esmola ou de ajuda material a quem se encontra em dificuldade, geralmente situando a pessoa ajudada em uma posição de inferioridade, marcando relações impessoais e descompromissadas.

67 Chiara cita F.R. Chateaubriand. 1994. In Aforismi e citazioni Cristiane. Casale Monferrato. p. 17. 68 O termo “humano” aqui é utilizado no sentido de não religioso, isto é, que a prática do amor cristão tem

relação não somente com as “coisas do espírito”, mas também com “as coisas da terra”, o que lhe confere significado social.

por um valor – a crença no Evangelho – porém orientada a um fim – a transformação da sociedade e, nela, das relações humanas e sociais, pois, prossegue Lubich: “Diz respeito não apenas ao âmbito espiritual, mas também àquele humano, renovando cada uma de suas expressões: cultural, filosófica, política, econômica, educativa, científica, etc.” Deste trecho é possível confirmar o que dissemos anteriormente, que as ações dos membros do MF, quando motivadas pela espiritualidade da unidade, podem ser consideradas, segundo a abordagem weberiana, ações racionais axiológicas – porque motivadas por valores – e teleológicas – porque visam a um fim (Weber 2005).

De acordo com Gillet (2012: 109) já em 1964 Chiara usou a expressão “arte de saber amar”, retomando-a mais tarde, em 1981, em um escrito de seu diário e em uma palestra sobre a unidade. Em 1994 utilizou-a novamente ao falar a pessoas que não possuem uma fé religiosa. Há ainda muitos outros momentos nos quais Lubich utilizou e explicou o termo arte de amar, tanto ao falar para membros do MF quanto ao falar para públicos externos, inclusive em instituições como ONU e UNESCO. Em 2000, no discurso proferido ao receber a cidadania honorária de Roma, Lubich assim se expressou:

É uma arte que pede a superação do horizonte restrito de um amor simplesmente natural, dirigido quase unicamente à família, aos amigos. Aqui, o amor é dirigido a todos: ao simpático e ao antipático; ao belo e ao feio; àquele do meu país e ao estrangeiro; da minha ou de outra religião, da minha ou de outra cultura, amigo ou adversário ou inimigo, que seja, precisa amar a todos como faz o Pai do Céu, que manda o sol e a chuva para os bons e para os maus.

É um amor que impulsiona a amar por primeiro, sempre, sem esperar ser amado. Como fez Jesus Cristo, que quando ainda éramos “maus”, portanto não amantes, deu a vida por nós. (Lubich 2012a: 109-110)

A primeira característica desta arte de amar, portanto, é que tal amor é dirigido a

todas as pessoas, não faz distinção, é universal:

Precisa, portanto, amar todas as pessoas com quem entramos em contato. Desde cedo, quando nos acordamos, até à noite, quando vamos deitar. Todo relacionamento com os outros deve ser vivido com este amor, com esta caridade. Em casa, na universidade, no trabalho, nas quadras de esporte, nas férias, aqui, em Santiago de Compostela, na igreja, nas ruas, devemos colher todas as várias ocasiões para amar. (Lubich 1989)

Deste convite que Lubich faz aos jovens reunidos em Santiago de Compostela, julgamos importante frisar que no MF, o universal materializa-se no local, a

humanidade é reconhecida e amada em cada pessoa com quem se encontra ou com quem se relaciona durante o dia, em situação de copresença ou não69.

Amemos aqueles a quem costumamos dirigir a nossa atenção pelo fato de que os vemos fisicamente ao nosso lado. Amemos aqueles que, quem sabe, escapam à nossa observação; por exemplo, aqueles dos quais estamos falando ou com quem falamos, dos quais nos lembramos ou pelos quais rezamos; aqueles dos quais recebemos alguma notícia através do jornal ou da televisão, os que nos escrevem ou aos quais nós escrevemos, todos aqueles aos quais se destina o trabalho que nos ocupa no dia-a-dia. [...] Veremos então os efeitos excepcionais desse amor: luz e alegria! (Lubich 1986: 114-115)

Este amor universal se estende até mesmo ao inimigo. Afirma Lubich em um discurso proferido aos amigos muçulmanos do MF:

Amar a todos, até mesmo os inimigos. De fato é a esta medida de amor que nos impulsionou o Evangelho, que convida a rezar pelos próprios perseguidores (cf. Mt 6,44). Mas também na tradição muçulmana se encontram semelhantes solicitações, como, por exemplo, neste lindo versículo do Corão: “Porque o bem e o mal não são noções iguais, mas tu rejeitas o mal com um bem maior e verás, então, que aquele que te era inimigo, será um teu caloroso amigo” (41, 34) 70. (Lubich 2002c)

Amar o inimigo leva à superação dos conflitos de relacionamento interpessoal, como afirma este depoimento concedido em entrevista de campo, realizada em 27 de novembro de 2012, em uma empresa de EdC. O depoimento refere-se ao modo como o entrevistado superou uma dificuldade de relacionamento vivenciada na empresa:

Era um período de que eu não conseguia suportar a pessoa, não conseguia ficar do lado da pessoa, era muito difícil pra mim, tinha dias que eu chorava, tinha dias que eu ficava muito assim, mal! Mas, assim, com a P. também, a cada dia vamos recomeçar, “É Jesus!” Procurar fazer as coisas assim pra agradar a pessoa e tal e aí pra mim foi muito difícil, muito difícil! Pra dar esse passo com uma pessoa que você não tem um relacionamento muito legal, porque a gente não tinha, né, vamos dizer assim, era muito difícil, mas com o tempo assim eu fui que amando ela né, e que, vendo Jesus nela a cada dia. A cada dia que eu via ela, “Olha aqui é você! E eu também recomeço a cada minuto né!”. Cada palavra que ela falava comigo ao invés de eu reivindicar (sic) vê de dar e fazer o que essa pessoa falava e assim hoje eu e essa pessoa assim temos um relacionamento fantástico! Outro dia eu estava pensando até, “Nossa! Quem diria tudo aquilo que eu passei no começo hoje a gente tem um relacionamento fantástico!”. (Unidade de registro 4-571)

Outro ponto da arte de amar é tomar a iniciativa no amor, amar primeiro, sem esperar ser amado:

69 A questão da copresença será tratada de modo mais aprofundado no Capítulo 3 de nossa tese. 70 Lubich utilizou este versículo do Corão extraído de BAUSANI, A. 1996. Il Corano. Milão, p. 440. 71 Ao longo de nosso trabalho ao utilizarmos trechos das entrevistas realizadas por nós em nossa pesquisa

de campo, como identificação e referência usaremos o termo unidade de registro (de acordo com a análise de conteúdo) e a numeração por nós estabelecida. Não publicamos a identidade dos entrevistados em razão do compromisso assumido com eles de preservação da privacidade.

O amor de Deus tomou a iniciativa e nos amou quando nós ainda éramos tudo, menos amáveis (“mortos pelo pecado”). [...] Talvez nós, na desolação da guerra e no deserto que nos circundava, encontrávamos alguém que tomasse a iniciativa de nos amar? Não. Éramos nós que, por um dom especial de Deus, acendíamos a chama do amor em muitos corações com o desejo de que esta se alastrasse em todos. Não olhávamos se os próximos eram amáveis para poder amá-los, mas, em vez, nos atraíam os mais pobres, em quem melhor entrevíamos a figura de Cristo, e aqueles que mais precisavam da sua misericórdia. (Lubich 2005: 51).

Tomar a iniciativa no amor destaca o papel do protagonismo ao qual se dispõem os membros dos Focolares que buscam não apenas um bem-estar pessoal, mas também social, pois toda a vivência possui essas duas dimensões, a pessoal e a social, em função da realização do “Que todos sejam um” (Jo 17,21), da fraternidade universal. O depoimento que reportamos a seguir, proveniente das Filipinas, ilustra estas duas dimensões das ações dos membros do MF quando orientadas por este tipo de amor:

Sou professora da escola elementar e muitas vezes sou mandada a dar aulas em escolas de lugarejos situados nas montanhas. Nesses lugares, escondidos em territórios remotos e inacessíveis, vivem grupos de terroristas de extrema esquerda que se proclamam libertadores do povo. Já havia me deparado com suas tropas, mas havia conseguido escapar, escondendo-me no meio das pedras. Uma vez, infelizmente, não consegui me esconder em tempo. Eles me raptaram e me levaram para o esconderijo deles. Durante aqueles intermináveis dias, nos quais fiquei segregada, fui submetida várias vezes a longos interrogatórios. Apesar do medo, procurei responder com muito respeito, dizendo sempre a verdade. Um deles, de modo especial, durante horas tentou doutrinar-me na ideologia socialista. Queria me convencer a abraçar a causa deles. Quando perguntou o que eu achava, não quis comentar. No dia seguinte, quando repetiu o seu discurso, objetei dizendo que antes devemos mudar a nós mesmos se queremos transformar as estruturas de poder que nos parecem injustas. Disse que “o que nos transforma é o amor que temos uns pelos outros”. Procurei explicar-lhe, até mesmo me esforçando para sorrir. Talvez as minhas palavras tenham impressionado, talvez tenham lembrado a ele princípios nos quais havia acreditado. O fato é que depois deste interrogatório, fui liberada. A partir daquele dia, sempre rezei por ele e por seus companheiros. Recentemente, para minha surpresa, eu o reconheci na televisão, enquanto davam a notícia de um terrorista que havia entregue as armas aos militares, deixando o seu grupo. (Apud Favotti 2012: 56-57)

Ademais, este é um amor que considera o outro como a si mesmo, portanto, deve-se amar ao próximo como a si mesmo (Mc 13, 31):

Cada palavra de Deus é o mínimo e o máximo que Ele te pede, portanto, quando tu lês “Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mt 19,19), tu tens da lei fraterna a medida máxima. O próximo é um outro tu, e como tal deves amá-lo. Se ele chora, chorarás com ele; e se ri, rirás com ele, e se ignora, te farás ignorante com ele; e se perdeu o seu pai, te tornarás uma coisa só com o sofrimento dele. [...] E não procures desculpas para não amar. [...] Experimente amar quem te passa ao lado no momento presente da vida e descobrirás em ti novos rebentos de força antes não conhecida: esses darão sabor à tua vida e responderão aos teus mil porquês. (Lubich 2005: 63)

Amar o próximo como a si mesmo comporta uma profunda identificação com ele, significa que o amor é concreto, exige o que Lubich chama de fazer-se um – remetendo-se ao pensamento paulino: “tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo custo” (1 Cor 9, 22).

Fazer-se um, viver o outro, participar totalmente. E fazer-se um não com palavras ou somente com o sentimento. O fazer-se um cristão significa arregaçar as mangas, significa agir: obras, obras; fazer, fazer. Jesus demonstrou o que é o amor quando curou os doentes, ressuscitou os mortos, quando lavou os pés dos discípulos. Fatos, fatos: isto é amar. (Lubich 2005: 79)

Lubich, ao insistir na concretude do amor, pretende evitar que este se torne abstrato, somente uma intenção genérica. Mas o amor cristão não desconsidera o sentimento, o afeto, tanto que em outro trecho Lubich diz que se deve: “Dissolver os laços deste duro lapideum cuore [coração de pedra; I.C.] e ter um coração de carne para amar os irmãos” (Ibidem: 76).

Fazer-se um significa colocar-se no lugar do outro, mais ainda, viver o outro. Esta disposição, porém, não conduz à passividade ou a uma postura que anula a própria individualidade, mas a transcende em prol de um objetivo comum: a construção de vínculos interpessoais caracterizados pelo dom recíproco que resulta no respeito, na afirmação de cada um dos atores envolvidos, sem que haja supremacias ou domínio. É também uma forma de superar o conflito. Não é uma simples técnica de boas práticas, mas consequência da escolha de pautar a própria vida pelo amor. Afirma Lubich:

O verdadeiro comportamento, de fato, que interpreta a palavra “amor”, “amar”, é fazer-se um com o outro, isto é, buscar entender como vive o outro, quase viver o outro. Tratava-se de entrar o mais profundamente possível no coração do irmão, entender realmente os seus problemas, as suas exigências, assumir as suas necessidades bem como seus sofrimentos. Dobrar-se diante do irmão. Dissolver o nosso coração que é de pedra e ter um de carne para amar o outro. Desse modo, o próximo se sente compreendido, aliviado; então tem sentido dar de comer, de beber, dar um conselho, uma ajuda. (Lubich 2002c)

Esta arte de amar implica, ainda, amar Jesus na pessoa amada. Com certeza, o amor é dirigido a uma pessoa específica, que deve ser amada por si mesma, mas Jesus considera feito a ele tudo o que fizermos ao próximo: “a mim o fizeste” (MT 25, 40).

Divisar o rosto de Jesus no rosto de cada próximo e amá-lo. Saber que quando encontramos um irmão é como se nos aproximássemos de uma mina da qual podemos extrair algumas pepitas de ouro. Porque amando aquele irmão enriquecemos a nossa alma. “A todo aquele que tem [amor] será dado” (Mt 25, 29). (Lubich 2005: 98)

Por fim, a vivência desta arte de amar leva à reciprocidade do amor. No cristianismo, o amor ao próximo é fundamental, de fato, no Evangelho, Jesus resume toda a lei e os profetas em dois mandamentos-chave: amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todo entendimento e amar ao próximo com a si mesmo (Mt 22, 37-39). Ademais, é a base que possibilita alcançar a reciprocidade do amor, isto é, a resposta do amado que, justamente, de amado passa a amante. Lubich afirma que o ápice da arte de amar, do amor, é amar-se reciprocamente, porque assim sendo estabelece-se uma relação que pode chegar a se tornar comunhão. O amor ao próximo pressupõe o dom, o dar-se. O dom em si, embora seja amor, ainda não é comunhão. Este dom – se é amor cristão – é gratuito, não espera retribuição. No entanto, a retribuição gratuita e livre – a reciprocidade – que emerge do dom e cria relação, possibilita a comunhão, entendida como relação de amor recíproco. O amor possui em si capacidade de gerar amor: “Olha, portanto, cada irmão amando; e amar é doar. Mas dádiva chama dádiva, e serás por ele amado” (Lubich 2013a: 20).

Por ser mútuo, este amor exige uma relação, pelo menos, entre duas pessoas. Quando esta mutualidade envolve um número grande de pessoas, aumenta o número das relações possíveis de serem estabelecidas de acordo com esta lógica, abrindo-se, de certa forma, ao infinito. (Cruz 2009: 109)

A reciprocidade do amor pode ocorrer em inúmeros níveis e em diferentes intensidades, no entanto, se expressa em ações concretas:

Por exemplo, um dia, um cliente, ele veio e chegou na hora do cafezinho, e a funcionária veio oferecer um lanche também para ele, que estava comendo naquele dia. E no dia seguinte ele veio aqui para agradecer, porque aquele lanche... Daqui ele foi pra São Paulo, de São Paulo foi para um outro lugar, aquele lanche foi o almoço e o jantar dele, aquele lanche, ele falou que foi pra casa às 10 da noite, ele trabalha com caminhão, com essas coisas. E ele trouxe alguns bloquinhos, pra você ver! Que na empresa dele estavam parados e que a gente usava, ele viu que quando a gente fazia cheques usava aquele tipo de bloco, então ele trouxe pra... Estava parado lá, então... são pequenos gestos né. (Unidade de registro 12-3)

A reciprocidade vincula os participantes numa relação que contém cada uma das individualidades, mas que, ao mesmo tempo, as supera: “Eu em ti, tu em mim” (cf. Jo 17). Como afirma Foresi (2004: 577) na crença cristã, o amor recíproco revela a realidade íntima de Deus, que é ser Trindade, relação de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo. Desse modo, a Trindade se torna modelo de sociabilidade, fundamento da relação entre os seres humanos.

Na base da novidade da espiritualidade coletiva, me parece, está especialmente a descoberta da Trindade não só como fonte, meta, presença e companhia da nossa vida espiritual, mas também como modelo de vida no amor recíproco entre as pessoas (e entre as comunidades, as coletividades...). (Cervera 2011: 47)

Cervera continua dizendo que embora a Trindade tenha sido considerada na nossa época modelo e imagem da Igreja e da vida dos cristãos, não chegou a ser apresentada como proposta concreta de vida espiritual de amplo alcance em função do “Que todos sejam um” como se faz na espiritualidade da Obra de Maria.

Rezar pela unidade é bom, mas não basta. É a descoberta da Trindade como dom recíproco das Pessoas que leva a passar de uma “espiritualidade do Corpo Místico” – somos como as células de um corpo unidas entre si e com a Cabeça que é Cristo – à sua dimensão mais verdadeira, que é a espiritualidade “ao modo da Trindade”, em uma relação entre pessoas, comunidades, países: um diante do outro, um com o outro, um no outro, um pelo outro e todos juntos uma só coisa... Neste altíssimo modelo está, sem dúvida, a novidade da proposta de vida, isto é, do viver concretamente, da espiritualidade coletiva do Movimento. (Cervera 2011: 47)

Portanto, a relação vivida pelas Pessoas da Trindade, que pressupõe dom recíproco, unidade e distinção, é assumida como modelo de sociabilidade, das relações sociais. Mais uma vez podemos verificar a religião que determina o indeterminado, isto é, traz para a esfera do imanente – vida social – as comunicações que se dão na esfera do transcendente – vida trinitária.

Este modo de viver socialmente não está limitado pelas fronteiras do espaço religioso, ou seja, é um modelo que pode ser seguido e concretizado em todas as relações das quais os fiéis participam, independente da crença religiosa, ideal ou índole