• No results found

13 Appendices

13.1 Questionnaire (Q main ), English version

A Prospect Theory, criada em 1979 por Kahneman e Tversky, estuda o modo segundo o qual as pessoas decidem entre alternativas que envolvem riscos e/ou incertezas e propõe um método de análise que integra as respectivas condicionantes.

Considera-se que o processo decisório se desenrola em duas fases: na primeira, o indivíduo cria heurísticas e ordena os resultados (outcome) possíveis; na segunda, atribui valores (utilidades) de acordo com os potenciais resultados e respectivas probabilidades e escolhe a alternativa que proporciona a mais alta utilidade. Desde 1956241 que se sabia que o processo decisório é afectado por enviesamentos, que condicionam a racionalidade da decisão. Muitos autores, além de Kahneman e Tversky, analisaram os enviesamentos patentes e propuseram estruturas interpretativas; alguns

137 põem em causa a própria ideia de racionalidade, mesmo que assumidamente limitada (bounded rationality). Mas o que Simon veio dizer não foi que a teoria da utilidade esperada estava errada e devia ser posta de lado, mas sim que é necessário confrontá-la com desvios e limitações242. A racionalidade limitada deve ser encarada no exacto valor dos seus termos: não é um outro método, é o mesmo método mas com distorções que não correspondem à sua formulação pura.

A questão que urge colocar é a seguinte: é possível “desenviesar”? Sim, pelo menos em parte.

Fischoff refere algumas das estratégias que podem ser utilizadas para contrariar os enviesamentos, como por exemplo: confrontar as respostas encontradas com eventuais discrepâncias, evitando concentrar a atenção apenas em pormenores que as corroborem; decompor o problema em vários componentes; formular o problema de várias maneiras diferentes243.

Aprender com a experiência, analisando os factos e cotejando-os com os respectivos antecedentes e com as previsões feitas, é outra forma de diminuir o impacto dos enviesamentos no futuro. Há, no entanto, que estar atento de forma a evitar a tendência para considerar, em retrospectiva, que os factos verificados eram previsíveis muito para além do que efectivamente eram ou, pior ainda, que de algum modo foram previstos quando não o foram (hindsight bias). A posteriori, tudo pode, evidentemente, ser explicado.

Admitir a probabilidade de erro e aceitar a incerteza contribui para julgamentos mais exactos. Pelo contrário, a sobreconfiança (overconfidence) no que se sabia – exagerando a posteriori – produz uma sobreconfiança acerca do

242 Note-se que Simon considera que o conceito de indivíduo racional é “endémico”, estando presente em todas as ciências sociais, que não o dispensam – SIMON (1988) p.64.

243 FISCHOFF (1982) p. 427 ss. Fischoff apresenta estas e outras sugestões para diminuir os enviesamentos num contexto muito específico, mas o método pode ser utilizado com carácter geral.

138 que se sabe244, desmotivando o indivíduo na busca de elementos de informação em que funde as suas conclusões.

O conhecimento destes e de outros métodos correctivos dos desvios à racionalidade pode ser de grande utilidade em política criminal. E será seguramente desejável que (nos casos de negligência consciente) as pessoas colectivas, e mesmo as pessoas singulares, os tenham presentes, com vista a empenharem-se na anulação dos enviesamentos; estes podem estar na origem de opções pouco adequadas face às variáveis em jogo e ao fim visado.

A questão principal, no entanto, subsiste: em última análise, devemos concluir que, afinal, o indivíduo não se comporta racionalmente – segundo os princípios de uma racionalidade económica? São as heurísticas e enviesamentos uma demonstração de comportamentos erráticos, não sujeitos a regras claras e, principalmente, não obedecendo a uma lógica de ponderação objectiva de custos e benefícios? Ou serão antes uma solução fácil e pragmática que, no final, acaba por se revelar menos onerosa do que se o indivíduo prescindisse delas245?

Baron, a propósito da self-deception246, defende que esta acaba por

consistir num outro processo racional, que cruza o processo inicial em curso, interrompendo-o: daí a aparência de irracionalidade247. Ou seja, o indivíduo ilude-se para evitar determinadas situações ou reacções à sua própria

244 FISCHOFF (1982) p. 431. Para uma análise mais detalhada, com exemplos retirados de diversas áreas (desde acidentes nucleares aos efeitos de chuva ácida), cf. SLOVIC/FISCHOFF/LICHTENSTEIN (2000 [1979]). FISCHOFF et al (1993 [1981]) analisam, nos capítulos 9 e 10,os métodos que podem melhorar a análise do risco.

245 Fernando Araújo perspectiva os enviesamentos como heurísticas destinadas a gerir faltas de informação (frequentemente, em contextos de informação dispendiosa) reduzindo simultaneamente a complexidade das decisões – ARAUJO ((2007) p. 310.

246 Na self-deception tudo se passa como se o indivíduo se dividisse em dois eus, um que engana e outro que é enganado – e que não pode saber (conscientemente) que está a ser enganado. O eu-enganador cria no eu-enganado as convicções convenientes aos fins deste. 247 BARON (2000) p. 63.

139 incapacidade – e, neste sentido, também a self deception é racional. O mesmo pode dizer-se a propósito de inúmeras outras heurísticas.

Por outro lado, como os desvios ocorrem principalmente na obtenção e selecção dos dados, não invalidam a aplicação do método racional segundo as regras estabelecidas.

Vários autores consideram a intuição um contributo valioso para a tomada de decisão, v.g. em situações de stress248. Kahneman e Tversky , apesar de apresentarem algumas reservas ao recurso à intuição, destacam as suas vantagens e afirmam mesmo a sua indispensabilidade na escolha das variáveis, dos factores relevantes e dos valores iniciais considerados249.

Indo mais longe, Hastie e Dawes chamam a atenção para o facto de as estratégias do processo decisório resultarem de milhões de anos de evolução selectiva e, a nível de cada indivíduo, aperfeiçoadas pela experiência ao longo da vida250. Se, como os mesmos autores reconhecem, o comportamento humano parece contrariar, frequentemente, as regras do comportamento racional, talvez o caminho certo seja tentar encontrar a “racionalidade” subjacente a esses “desvios”, buscando uma síntese entre a teoria normativa e as teorias descritivas.

248 Daniel Isenberg analisa o papel dos processos intuitivos na actividade profissional quotidiana dos executivos, concluindo que aqueles se revelam de extrema utilidade. Segundo Isenberg, os executivos utilizam a intuição de cinco maneiras diferentes: 1. para se aperceberem de que há um problema; 2. na aprendizagem de novos padrões de comportamento; 3. na síntese de informação e dados da experiência; 4. como método de controlo das conclusões alcançadas por processos “racionais” e sistemáticos; 5. para obter soluções rapidamente, através de um processo cognitivo quase instantâneo que identifica e selecciona padrões familiares – ISENBERG (1988) p. 530-531.

249 KAHNEMAN/TVERSKY (1982 [1979]) p. 421. 250 HASTIE/DAWES (2001) p. 22.

140

5