• No results found

Continuando esse meu percurso como eu tava te falando do cadaFalso, por onde eu acho que entrou luz, assim, nas minhas gavetas, porque eu sempre achei, hoje fico assim em dúvida, eu não tenho pensamento fixo engessado não, depois a palavra foi um pouco saindo das minhas ações junto ao projeto cadaFalso e foi entrando mais, saindo assim, ela não sai, porque as minhas ações eu escrevo sobre elas, então de certa forma a palavra está... ela vem junto, ela é uma coisa que eu poderia mostrar para você como um texto escrito como esse publicado aí e tal, a palavra ela me acompanha junto às minhas ações, eu gosto de escrever sobre o que eu faço, ao menos dar uma pista para eu entender um pouco o que eu faço, talvez por gostar de escrever, mas ela foi saindo da ação enquanto palavra conjunta, aquilo que eu estivesse fazendo na hora, entende? Foi deixada de lado, ela foi outras... a performance, como querem alguns foi ganhando mais corpo, embora, como estou dizendo, ela pensada como um conjunto de palavras. Mais recentemente, porque se

você perguntar assim para mim: como é esse trabalho seu como é essa coisa de criar para você? Se você me perguntasse isso, assim, eu paro, eu me dedico horas a fio, sentado ali, naquela labuta do pensamento como é que eu faço isso, como é que de repente está um texto meu escrito? Que dedicação eu dou a ele? O meu processo criativo muitas vezes ele se dá como uma coisa que viesse dentro de mim assim em algum momento e que eu não tenho como escapar, ele vem e me toma naquele momento aí naquele momento que ele está presente em mim, eu tenho que ir, se eu estiver dormindo eu tenho que me levantar e ir ele não me deixa , ele é inquieto, eu tenho que ir, muitas coisas eu escrevo desse jeito, estou deitado dormindo e parece que uma coisa vem, um arroubo e eu tenho que ir escrever, anotar e se eu não faço isso hoje eu uso de um artifício que é pegar meu celular e gravar, hoje eu escrevo muito falando antes, primeiro eu falo e depois eu escrevo, porque às vezes é tão rápido que eu tenho que falar. Em outros momentos, ele se dá de outra forma, ele vai se avolumando aquilo em mim, no meu pensamento, uma coisa que eu quero escrever e ele vai se avolumando, se avolumando e uma hora eu tenho que escrever e nesse processo, não o da fala, o gravado, ele é mais trabalhoso, nesse eu tenho que sentar assim e com todo esse volume na minha cabeça e aí eu tenho que deixar isso ir saindo, tudo o que se avolumou, enfim, ele pode até sair de outra forma, mas ele sai, aí eu sento hoje no computador, ou seja, ele foi passando da caneta, do lápis, dos blocos, da datilografia e chega no computador, diversos momentos, mas a escrita ela não deixa de acontecer, ela te impõe, você se rende a ela, a verdade é isso é uma total rendição, não tem como fugir, sobre isso também, eu não sei assim de cabeça, mas eu tenho um textinho que eu escrevi sobre essa situação, mais ou menos assim:

“ lá vem elas, miseráveis, atrás de mim...” mais ou menos isso, eu não decoro meus textos. “Lá vem elas, miseráveis, atrás de mim, ontem eu não as quis” – como se

tivesse rejeitado, ela vindo e eu dizendo: ai, agora não, agora eu não quero, agora eu não posso, mas elas insistindo para que eu fosse para o papel e escrevendo. Nesse texto é como se elas me pegassem mesmo com os casco duro e tomasse de conta, fosse implacável, impiedosa, porque eu que tivesse dado a mim, fazer aquilo, as palavras né, elas vem e eu tenho que escrevê-las, ordená-las. E vai chegando um momento também que o que eu escrevo, por exemplo, se isso em alguns momentos, para algumas pessoas, como essas que eu te mostrei nesse do gazua, tem mais um caráter de ser poesia e essas outras que eu te mostrei tem mais um caráter de ser uma coisa meio de prosa, não sei nem se conto, na verdade, porque tradicionalmente talvez nem fosse um conto, mas em mim vai chegando um momento assim em que tudo isso está sendo misturado, às vezes no meio de uma coisa que eu acho que é prosa, vem uma coisa em mim e eu escrevo uma pequena poesia, isso não é nem uma novidade na literatura, obviamente, mas é incrível como você assim sei lá em algum momento, uma onda vai passando nos lugares e vai tomando as pessoas, alguma coisa que você faz e você sem ter um conhecimento prévio se depara na frente com o que alguém fez e esse alguém é uma pessoa editorada, conceituada, mas é uma coisa que em algum momento você pensou em fazer também, aí alguém pode dizer pra você assim: você tem influência do que, você escreve sobre não sei o que, algumas pessoas já falaram para mim, posso até ficar lisonjeado, mas nem me atrevo a ficar também, poderia ficar, tuas coisas assim meio estranhas lembram um pouco a Clarice Lispector, assim, será que eu li Clarice a ponto dela me influenciar? Será que eu conheço essa autora a ponto de ela mexer comigo? Mas ao mesmo tempo, como eu te falei, de repente eu tenho um livro que pode ser uma coisa

insignificante na minha mão, que é o “Dez semanas no circo”, o universo que para

algumas pessoas pode ser alguma coisa pobre em relação a cultura, a informação, mas desse universo eu consigo ter sim uma coisa que é minha. Eu prefiro achar que este universo aqui que eu adentrei com mais força, mais dureza, com muita tristeza, porque foi uma coisa árdua para lidar com isso, com essas diversas questões que ele talvez seja para mim o grande influenciador, é nesse universo que eu me debrucei mais tempo é ali que eu construí esse, todo esse caderno de anotações visuais e memoriais e olfativas, táteis, obviamente que depois você vai passando pelos lugares, pelas pessoas, pelos acontecimentos, e de alguma forma tudo vai estar em você, mas eu gosto muito dessa coisa inicial, assim primordial, o primeiro coxo de sal que eu fui submetido, acho que dali eu tiro muita coisa, não descarto isso que as

pessoas falam sobre influência, você está tomado mesmo, e daí? Você gosta, você bebe, absorve e depois sabe lá como isso vai se refletindo, como isso acontece.

O projeto cadaFalso, citado nos outros momentos de nossa leitura do relato de