encontro também com os possíveis caminhos que o homem pode trilhar frente à lógica insaciável e perversa do sistema capitalista.
O papel dos conglomerados midiáticos, que entendemos como uma burguesia ou elite comunicacional e informacional, é manter a racionalidade do irracional sistema econômico e de organização da sociedade. Irracional – como Marcuse sempre sugere – porque a espécie humana é a única dentre os animais que passa necessidades frente à abundância material em que vive. Sabe-se que toda acumulação material produzida pelo homem seria suficiente para saciar as necessidades básicas de qualquer ser humano: comer, vestir e morar.
Mas por que esses esforços de acumulação não são direcionados para solucionar essas questões? Por que canalizamos estes recursos materiais sempre no caminho de uma evolução irracional dos meios tecnológicos e do progresso técnico? Assim, questionamos: seria válido o discurso da tecnologia inócua, ou seja, nem boa, nem má? Nestes termos, a tecnologia, antes de ser um instrumento, transforma-se em um fim. Um propósito que nunca será efetivamente saciado. Não seria mais racional (e humano) o homem saciar primeiro suas necessidades básicas? Eis a questão da irracionalidade.
No propósito de manter essa racionalidade, o sistema cria mecanismos que deixa transparecer irracional não o próprio sistema, mas qualquer contestação ou negação de como esses recursos são utilizados. Como num círculo, os instrumentos desse controle são cada vez mais sofisticados. Invadem todos os cantos da vida social e propaga uma falsa idéia de igualdade entre os homens. Escamoteiam a realidade, transformando tudo e todos em mercado e mercadoria, em números estatísticos e coisas, em vencedores e fracassados. Assim invertem a realidade, explicando a necessidade material como a ordem natural das coisas, como próprio da natureza do homem, como imutável.
Nessa pesquisa os jogos eletrônicos representam à ponta do iceberg desses controles ideológicos e hegemônicos. Mas nesse momento, sinceramente, essa terminologia não é necessária. O que interessa é que esses controles devem ser contestados, revelados e trazidos da escuridão para a luz – lembrando Platão
no mito da caverna2, ou mesmo em Matrix3 quando a personagem Neo, ao
acordar de seu estado vegetativo, descobre que sua realidade vivida até então era apenas uma ilusão fabricada. 4
Se as alternativas são utópicas; a realidade, pelo menos para a maioria absoluta, é perversa. Se já conhecemos a realidade (ou a perversidade), preferimos à utopia.
2 No mito da caverna, no livro VII do Republica, Platão imaginou todos presos desde a infância no fundo de uma caverna. Imobilizados pelas correntes que os atavam, estavam obrigados a olharem sempre a parede em frente, de forma que apenas avistavam as sombras dos objetos refletidos na parede e não a sua real forma. PLATÃO. Diálogos: a República. Tradução direta por Carlos Alberto Nunes, 2ª ed. Belém : Universidade Federal do Pará, 1988.
3 The Matrix, EUA, 1999, 136 Min. Sinopse: Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.
4 Em nosso entendimento, apesar de raros, os produtos midiáticos da Indústria Cultural como The Matrix (não importando a intenção dos diretores), quando contextualizados com aspectos da realidade e embasados teoricamente, podem ser usados pelo historiador e professor como estratégia e instrumento de aprendizagem.
BIBLIOGRAFIA
ADORNO, T.W e HORKHEIMER, Max. A indústria Cultural.In: LIMA, Luiz Costa
(Org). Teoria da Cultura de Massa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993 ADORNO, TW. Textos Escolhidos. Consultoria de Pedro Eduardo Arantes,
Coleção Os Pensadores, São Paulo : Nova Cultural, 1999
ALBEX JR. José. A outra América – Apogeu, crise e decadência dos Estados Unidos. São Paulo : Editora Moderna, 1993
ARANHA, Gláucio (2004). O processo de consolidação dos jogos eletrônicos como instrumento de comunicação e de construção de conhecimento.
Ciências e Cognição;Ano 1, Vol 03, pp 21-62. Disponível em <http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v03>
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo- Totalitarismo, o paradoxo do poder – Trad. Roberto Raposo, Rio de Janeiro: Documentário, 1979
ARON, Raymond. República imperial : os Estados Unidos no mundo do pós- guerra: tradução Edilson Alkmim Cunha. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
ATUÁN, Abdel Bari. “Nada alegra o Iraque de Bush” (Artigo) in: Jornal on-line a
Nova Democracia, Ano V, nº 30, Julho de 2006. Disponível em: <http://www.anovademocracia.com.br/30/23.htm> Acessado 20/07/2006. BRONER, Stephen Eric. Da teoria crítica e seus teóricos; tradução de Tomás R.
Bueno, Cristina Meneguelo, Campinas : Papirus, 1997,
CABRAL, Fátima Aparecida. Estetismo e obsolescência: Princípios norteadores da cultura de consumo.(Artigo) Revista Novos Rumos. São
Paulo,nº 39, Ano 18, 2003. Disponível em
<http://www.institutoastrojildopereira.org.br/novosrumos/artigo_show.asp?v ar_artigo=63>. Acesso em 14 de Junho de 2006.
______Jogos Eletrônicos: técnica ilusionista ou emancipadora? (Artigo)
Revista da Usp n. 35, Setembro de 1997. Disponível em <http/www.beanzaite.org.br> Acesso em: 19 de Abril de 2005.
CANCLINI, Nestor Garcia. A Globalização Imaginada. Tradução Sérgio Molina.
CASTELLIS, Manoel. O fim do milênio. Volume 3, Lisboa : Editora Fundação
Gelouste Gulbenkian, 2005
CHAUI, Marilena de Souza. O que é Ideologia? Coleção Primeiro Passos. 7ª
Edição. São Paulo : Brasiliense, 1981
CHESNEAUX. Jean. Modernidade-mundo, Tradução: João Da Cruz, 2ª edição,
Vozes : Petrópolis
CHOMSK, Noam. Contendo a Democracia. Rio de Janeiro, Record, 2000
FERRO, Marc. “O conhecimento Histórico, os filmes, as mídias. “Revista
Eletrônica. O olho da história”. Salvador, nº 06, ano 10, 2005, p. 4 (artigo). Disponível em Disponível em <www.oolhoda história.ufba.br> acesso em 01 de Junho de 2005.
______A Manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação.
São Paulo : IBRASA, 1983
FREI BETTO, Efeitos do Pensamento único.(Artigo) Revista Caros Amigos, Ano: IV, Nº 40 Julho 2000 p. 18
FUKUYAMA, Francis. Construção de Estados: Governo e organização no século XXI. Rio de Janbiro, Rocco : 2005.
FUKUYAMA, Francis. Construção de Estados: Governo e organização no século XXI. Rio de Janbiro, Rocco, 2005.
GAMA ALVES, Lynn Rosalina. Jogos Eletrônicos e violência: Desvendando o
imaginário dos screenagers. (Artigo).Disponível em:
<http://www.lynn.pro.br/pdf/art_uneb.pdf.>Acesso em 21/07/2006
HALL, Stuart. A identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro:DPLA,
2001
HARDT, Michael e NEGRI, Antônio. Império. Tradução de Berilo Vargas, Rio de
Janeiro: Record, 2002
IANNI, Octávio. A era do globalismo. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1997
JAMESON. A cultura do Dinheiro: Ensaios sobre a globalização. Rio de
Janeiro : Vozes, 2001
JAMESON. Frederic. Pós-Modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio.
LEVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1993
MARCUSE, A ideologia da Sociedade Industrial – O homem unimendisional..
São Paulo : Zahar Editores, 1973
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich.Manifesto do Partido Comunista. URSS, Edições Progresso, 1987
MUNFORD, Lewis. A cidade da história: suas transformações e perspectivas.
Tradução Neil R. da Silva. 3 ed. São Paulo : Martins Fontes, 1991
MURDOCA, Miles J e HENRING, Vincent P. Introdução à arquitetura dos computadores:tradução Sérgio Val Aguiar, Campos,RJ, Campus, 2000
PAIM, Suzana. “Já vi esse filme”. Pág 42-43 (Artigo). in: Revista Caros
Amigos.Ano IV, nº 43, Outubro de 2000. p.42
PLATÃO. Diálogos: a República. Tradução direta por Carlos Alberto Nunes, 2ª
ed. Belém : Universidade Federal do Pará, 1988.
SARTORI, Giovanni. Televisão e pós-pensamento:Tradução de Antonio Angonese, Bauru,EDUSC, 2001
SEMPRINI, Andréa. Multiculturaismo. Tradução: Laureano Pelegrin, Bauru, SP.
GDUSC, 1999.
THERBON,Göran. A Escola de Frankfurt. Contribuição à teoria crítica (Artigo).
Revista Novos Rumos. São Paulo,nº 39, Ano 18, 2003. Disponível em <http://www.institutoastrojildopereira.org.br/novosrumos/artigo_show.asp?v ar_artigo=65>. Acesso em 14 de Junho de 2006.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia;
Tradução de Wagner de Oliveira Brandão, Petrópolis:Vozes, 1998
__________________. Ideologia e cultura Moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis : Vozes, 1995
TRIVINHO, Eugênio. Redes: Obliturações no fim do Século. São Paulo:
Annablume/FAPESP, 1998
VIRILIO, Paul. A arte do Motor.Tradução de Paulo Roberto Pires, São
WARNIER, A mundialização da cultura. Tradução Viviane Ribeiro, Bauru :