• No results found

formação profissional da classe que vive do trabalho, a nossa intenção é, antes de tudo, reafirmar que o trabalho continua a ser tão essencial para a vida humana como começou a sê-lo com a modernidade. Entretanto, é também preciso afirmar que o trabalho alienado se sujeita às exigências de uma sociedade capitalista. Emancipar- se; humanizar-se, através do trabalho, significa ser autônomo, portanto tentar ser capaz de escolher, mesmo em situações adversas como a atual. Neste sentido, a educação profissional apresenta-se como fundamental para a formação do homem para a vida e para o trabalho.

Muitos são os conceitos que envolvem a formação profissional. Autores, com diferentes formas de pensar a educação profissional, contribuíram com seus estudos; dando-nos, assim, subsídios que nos tornam capazes de aprofundar nesse campo. Para tanto, direcionamos nosso trabalho, neste momento, para a análise das concepções sobre a educação profissional de alguns estudiosos dessa área.

1.3.1. O Trabalho como Princípio Educativo

O trabalho como princípio educativo é basicamente uma formulação marxista e tem sua origem na contribuição marxiana sobre o trabalho na constituição do homem e na construção da sociedade humana. Para Marx, o trabalho é a atividade vital, que torna possível a existência e a reprodução da vida humana. É atividade constituidora da humanidade do homem, ou seja, aquilo que o diferencia de todo o resto da natureza.

O trabalho é a categoria central a partir, ou em torno da qual, pode-se pensar o indivíduo, a sociedade, com seus sistemas políticos, jurídicos, ideológicos, sua cultura, etc. O trabalho, assim, seria o espaço de afirmação do homem. No capitalismo, todavia, este caráter de afirmação estaria oculto, existindo apenas potencialmente; prevalecendo, então, o caráter de negação do homem, precisamente porque o produto do trabalho, nesta sociedade, pertence a ela mesma e não ao homem. Neste contexto, o princípio educativo do trabalho desumaniza mais que humaniza, negando o homem numa relação alienante.

Na concepção marxista, porém, o trabalho, enquanto princípio educativo, edifica-se a partir do conceito de atividade teórico-prática e tem como horizonte o surgimento, formação e desenvolvimento da consciência humana, através da realidade em movimento.

Essa perspectiva é fundamental para o processo de educação das massas para que estas possam viver de modo ativo e consciente, tornando-se, assim, protagonistas da transformação social.

Entendemos conforme Marx (1988) que o trabalho é, em primeiro lugar, um processo entre o homem e a natureza, no qual o ser humano faculta, regula e controla a sua forma material com a natureza através de sua atividade. E, atuando sobre a natureza externa a si, modifica-a, alterando também a própria natureza humana.

Por sua vez, Franco (1989), concebe a atividade do trabalho, como formadora da personalidade do indivíduo. Através dela, ele desenvolve suas aptidões e, nela, forjam-se suas representações sociais, refletem-se seus princípios ideológicos e cristalizam-se suas atividades frente à ação prática.

Evidentemente, a transformação do processo de trabalho, desde sua base na tradição até sua base na ciência, não é apenas inevitável como também necessária para o progresso e emancipação dos homens.

Nesse sentido, é preciso considerar que, na medida em que avançam o desenvolvimento científico e tecnológico, modificam-se, substancialmente, as relações de produção, o que por sua vez reflete-se nas exigências de qualificação profissional e nos padrões educacionais demandados pelos trabalhadores. Com efeito, a relação entre educação e trabalho torna-se cada vez mais complexa.

Em torno dessa relação, é necessário refletir sobre as possibilidades e os limites de um projeto pedagógico que toma o trabalho como princípio educativo. Considerando que no sistema capitalista o trabalho é dominado e modelado pelo processo de acumulação e expansão do capital visando a obtenção de maior lucro, todas as relações sociais acabam ficando subordinadas ao capital, afetando as relações sociais mais amplas.

O estudo do trabalho, sob o ângulo da atividade humana, permite compreender que ele teria condições de ser educativo se fosse uma atividade

impulsionada por motivos e necessidades construídas socialmente; direcionadas, portanto à satisfação de interesses sociais e não apenas do capital.

O produto do trabalho deve representar o resultado de uma ação coletiva e, nessa produção, o homem se reconhece como um ser social. Dessa forma, o trabalho requer o projeto e o controle coletivos para a sua execução.

Mesmo entendendo que uma proposta educativa baseada no trabalho enfrenta inúmeros limites numa sociedade capitalista, é fundamental a relação entre teoria e prática como forma metodológica, com vistas a instrumentalizar o homem para construir e controlar as circunstâncias, educando-o, por conseguinte, de modo permanente e contínuo, de forma a produzir e acompanhar o processo de transformação da realidade (KUENZER, 1988, p.62).

Assim, elucidaremos os fundamentos da escola que toma para si o trabalho como princípio educativo. Diferentes autores em diferentes momentos históricos apontaram a necessidade de formar um homem novo, diante das transformações no mundo capitalista.

Interessa saber que a educação, seja ela profissional ou não, deve exercer a função de transformar e formar o sujeito, não somente para o trabalho, mas para si mesmo. Dar a ele a condição de tomar decisões, não apenas no instante em que uma máquina quebra, por exemplo, mas por toda a sua vida. A possibilidade de uma formação profissional baseada em competências parece seguir um modismo, mas é preciso reconhecer que é justamente esse modelo que pode propiciar o acesso a outras fontes de informação que não só aquelas referentes ao universo produtivo. Resta-nos, então, o posicionamento de que a educação, mesmo a profissional, ainda constitui um dos poucos recursos de transformação social, devendo mesmo proporcionar ao indivíduo, pelo menos, a capacidade de agir com autonomia.

Desse modo, encontraremos a base teórico-epistemológica em Marx, Engels, Pistrak e Gramsci subsídios para pensarmos numa proposta de um projeto de educação para a classe que vive do trabalho com vistas a uma formação omnilateral, que toma o trabalho como princípio pedagógico.