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Conforme tentamos demonstrar, as micronarrativas míticas classificadas como pertencentes à Dominante Cíclica do Regime Noturno do Imaginário se circunscrevem na esfera do entrelace entre a feminilidade e os valores cíclicos e agrários da fertilidade, da fecundidade da terra e os valores da nutrição.

De acordo com Durand (1997, p. 297), existe uma sobredeterminação feminina e quase menstrual da agricultura: “Ciclos menstruais, fecundidade lunar, maternidade terrestre vêm criar uma constelação agrícola ciclicamente sobredeterminada”. Quer dizer, quando se trata de simbolismo vegetal, prevalecem as intenções regeneradoras da vida, seja esta vegetal ou animal, bem como os valores de fecundidade da semente e da maternidade.

“1711, Paramaribo: Ellas llevan la vida en el pelo”, “1739, al este de Jamaica:

Nanny” e “La Pachamama”, são narrativas cujas personagens principais mantêm,

respectivamente, uma relação intrínseca com as imagens da nutrição e da maternidade as imagens da beligerância e da fecundidade e das imagens de uma maternidade telúrica, que tece aproximações entre a vida e a morte.

Diante dessas imagens poéticas, que compõem também os mitemas latentes nas narrativas em questão, podemos detectar que de fato, assim como “Em todas as épocas, portanto, e em todas as culturas os homens imaginaram uma Grande Mãe, uma mulher materna para a qual regressam os desejos da humanidade” (DURAND, 1997, p. 235). A Grande Mãe, seguramente a entidade religiosa e psicológica mais universal adquire

relevo na composição artístico-literária de tais narrativas, refletida ora como figura feminina benfazeja, nutridora e protetora, ora como entidade telúrica e mortuária, ou ainda, por vezes conciliadora de ambas as instâncias.

De acordo com Whitmont (1991, p. 61) “A Grande Deusa representa ser e tornar-se”, isto é, a forma feminina da consciência global está isenta das dicotomias dentro-fora, corpo-mente. Ela compatibiliza todas as ambivalências de vida e morte, corpo e mente, dentro e fora.

Dessa forma, a simbologia que envolve o arquétipo da Grande Deusa é representada constantemente pelos valores da intimidade, pelo isomorfismo do retorno, da morte e da morada (ELIADE, 1981, 1992).

Em “1711, Paramaribo: Ellas llevan la vida en el pelo”, representa-se a feminilidade maternal benfazeja, que urge como fecundadora da terra e que promove a nutrição. As mulheres desse conto fazem de celeiro suas próprias cabeças, incrustando sementes em meio aos cabelos no intuito de plantá-las posteriormente. São personagens que remetem à mulher germinadora da mitologia clássica e dos mitos ameríndios da agricultura.

Concomitantemente, “1739, al este de Jamaica: Nanny” reverbera uma feminilidade que não deixa de ser maternal, pois Nanny oferece amparo aos seus “filhos”, os cimarrones; contudo é uma divindade feminina que inclina-se para o lado beligerante de uma maternidade protetora. E assim, para exercer o papel de guerreira, usa-se de seu corpo de “gran hembra de barrio encendido” (GALEANO, 1995, p.32), mais propriamente de suas nádegas, para pegar e aparar os projéteis disparados contra os cimarrones. Por vezes atira os objetos de volta nos inimigos, outras, no enlevo de sua relação com os elementos agrários, da natureza, Nanny transforma os projéteis em vegetação, denotando assim, inclusive, seu caráter também fecundo, ademais de guerreiro.

Na sequência, “La Pachamama” atua em consonância com as duas narrativas anteriores ao reunir todas as imagens nelas presentes. Pachamama é uma personagem dialética que conjuga os aspectos de uma feminilidade maternal e ao mesmo tempo telúrica, personagem que condensa e concilia em si a vida e a morte.

De uma manifesta relação com os ciclos agrários, de fertilidade da terra e da fecundidade humana, Pachamama é a mais importante divindade materna do Altiplano Andino.

Diante dessa narrativa, torna-se evidente que “É essa inversão do sentido natural da morte que permite o isomorfismo sepulcro-berço, isomorfismo que tem como meio- termo o berço ctônico. A terra torna-se berço mágico e benfazejo porque é o lugar do último repouso” (DURAND, 1997, p. 237).

Se por um lado à Pachamama são preparadas libações e oferendas de frutos da terra a fim de agradá-la e até mesmo com o intuito de não despertar sua ira, posto que ela é concebida como divindade regente dos ciclos da natureza, quer dizer, responsável tanto pela boa colheita, quanto pelos desastres naturais e doenças. Por outro lado, Pachamama rege, inclusive, um ciclo natural diverso, o de vida e morte dos seres humanos. Por conta desse poder, à tal divindade é oferecida a placenta do recém- nascido, ritualisticamente enterrada, para que a criança goze de boa saúde e tenha longevidade. Por conseguinte, quando uma pessoa morre, seu corpo também é enterrado de maneira ritual, como a representação de um retorno às origens, o regresso ao berço de onde a vida surgiu.

“O complexo do regresso à mãe vem inverter e sobredeterminar a valorização da própria morte e do sepulcro. Poder-se-ia consagrar uma vasta obra aos ritos de enterramento e às fantasias do repouso e da intimidade que os estruturam” (DURAND, 1997, p. 236). Com destacado caráter artístico-literário, a narrativa “La Pachamama” possui a representatividade arquetípica de uma Grande Mãe; como personagem de ficção, Pachamama também delineia-se como provedora da fecundidade da terra, mantenedora da harmonia dos ciclos agrários, da nutrição e do ciclo de vida e morte.

Como protetora da fecundidade da terra e a humana, figura a transmutação do medo da morte num movimento benfazejo de regresso a um berço repousante, íntimo e que anuncia um fim que é também recomeço. Ilustração mitopoética desse elemento aparece na narrativa quando somos remetidos à tradição religiosa pré-colombiana de enterrar a placenta dos recém-nascidos entre flores para proteger a vida desses: “Desde

abajo de la tierra, los muertos la florecen” (GALEANO, 1995, p.37). Assim,

regresso à mãe Pachamama, à origem da vida, em algo que não deve ser temido, ainda mais porque representa não um fim, mas um recomeço.

Permeada pelo elemento mítico e tendo visivelmente colhido elementos provenientes da cultura popular, as narrativas de Mujeres categorizadas como pertencentes à Dominante Cíclica do Regime Noturno transmutam em matéria literária, através de brevíssimas linhas, toda essa estrutura arquetípica materna, que conjuga ao mesmo tempo elementos telúricos e cíclicos.

Reiterando o que dissemos anteriormente, notamos que Galeano, pautado numa linguagem poética, densa e concisa, estrutura suas narrativas aproveitando-se de elementos provenientes de mitos ancestrais sobre a feminilidade, em grande parte das vezes suprimindo informações acerca do mito a que se refere o texto literário, contudo salientando outros aspectos que venham a corroborar com a poeticidade das narrativas. Em “1711, Paramaribo: Ellas llevan la vida en el pelo”, “1739, al este de Jamaica:

Nanny” e “La Pachamama”, o autor retoma partes de eventos considerados míticos,

adensa, porventura, outros componentes em prol de seu discurso artístico-literário, orientado especialmente em direção à valorização de uma feminilidade primordial. Contudo, existe uma diferença essencial entre Nanny, a Pachamama e as mulheres-celeiro sem nome. Nanny é venerada num dado espaço-tempo, assim como em maior escala, a conhecida Pachamama. Elas pertencem, respectivamente aos mitos e às religiões pré-colombianas da América e suas histórias, muito complexas, condensam- se num esboço básico e literário próximo ao mito das amazonas, por exemplo. Por sua vez, a figura das mulheres-celeiro não é tão notória.