CHAPTER 3 – RESEARCH METHODOLOGY
3.1 Quantitative Research Method
Conforme vimos, a experiência do sagrado constitui ontologicamente o mundo do sujeito religioso. Experiência é uma palavra importante para Eliade – talvez mais importan- te que fé. Assim como para Joachim Wach399, a experiência do indivíduo com sua realidade – no caso, a hierofania – é pressuposto metodológico para a pesquisa do fenômeno religio- so. A religião, para Eliade, envolve um modo humano peculiar de ser no mundo que é úni- co, irredutível e intencional na relação com o sagrado experimentado como elemento trans- cendente.400 O ser humano reconhece o sagrado no real, assimila-o e incorpora-o no seu jeito de ser pelas narrativas míticas e simbólicas. O sagrado, enquanto tal, é o objeto inten- cional da crença do sujeito religioso. O visar do objeto sagrado inaugura a ontologia religio- sa e torna possível ao ser humano encontrar significados e sentidos para sua vida.
Mundo, assim como cosmos, é uma palavra fenomenológica e essencialmente onto-
lógica – com uma dimensão profundamente simbólica. Do latim, mundus; do grego, κόσµος; significa “ordem”, “harmonia”. O mundo é a passagem do caos ao cosmos, da desordem à ordem, das trevas à harmonia. “No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das á- guas”401, narra o livro de Gênesis. A criação do mundo acontece quando este ganha harmo- nia. Deus cria o mundo tornando o caos em ordem. O combate entre Tiamat e Marduk, no Egito e Ugarit, simboliza a cosmogonia da passagem do caos ao cosmos.402 O mundo do sujeito religioso refere-se ao evento decisivo na história do mito que constitui o ser humano e suas relações com o mundo e a realidade que lhe aparece.403 E para a fenomenologia, mundo é Lebenswelt, i.e., o mundo-da-vida.404 O mundo-da-vida é uma questão filosófica proposta por Husserl em contraste com a ciência moderna. As teorias matemáticas e exatas de Galileu, Descartes e Newton não são, para Husserl, suficientes para abordar certos aspec-
399 Cf. seu artigo “The Meaning and Task of the History of Religions” (1935), a Ciências da Religião não é pura-
mente acadêmica pois está inserida na vida, buscando respostas e significados para os eventos do cotidiano inaugurados pela experiência com o sagrado. CORDONEANU, Ion. “Experience and hermeneutics in the history of religions – a hypothesis on Mircea Eliade’s work”, In: Journal for the Study of Religions and Ide- ologies, p. 41.
400 Cf. ALLEN, Douglas. Myth and Religion in Mircea Eliade, p. 70. 401 BÍBLIA DE JERUSALÉM, p. 33.
402
Cf. ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno, p. 71.
403
Cf. ALLEN, Douglas. Myth and Religion in Mircea Eliade, p. 278.
tos da vida. “A fenomenologia reconhece o valor e a distinção da ciência matemática mo- derna, mas não a supervaloriza”405. Para compreender a vida deve-se partir do mundo vivi- do. Husserl propõe uma outra via para visar os objetos e os sujeitos. O Lebenswelt, o mun- do-da-vida, é o solo da reflexão fenomenológica que levará a ciência a um novo paradigma inserindo-a no mundo-da-vida, no qual se dão as vivências eidéticas e hiléticas intencionais do ser humano, ampliando o conhecimento do próprio mundo no qual vivemos. O mundo é o “solo de nossa inscrição prática, sensível e comunitária enquanto sujeitos encarnados”406. A descoberta do mundo-da-vida acontece, em Husserl, quando se faz o primeiro movimento de suspensão: descobre-se o mundo mesmo, como nota Natalie Depraz, na qualidade de doador de sentido conferido pela subjetividade.407 O mundo é resultado de um retrocesso ao originário sensível motivado pela vivência.
Para Eliade, há um mundo mais originário que a Lebenswelt: o ser na esfera do sa- grado pela cosmogonia que inaugura a condição humana e desperta o símbolo. A primeira manifestação do humano acontece pelo mito e símbolo religioso. Esta condição antecede a
Lebenswelt. O mundo constituído pelo sagrado é a forma ontológica mais original de ser
humano. A vivência que experimenta o sagrado funda um mundo peculiar de valores trans- cendentais revelados pelos entes divinos ou ancestrais míticos. O mundo originário é sagra- do e corresponde ao prestígio dos primórdios. A criação do mundo possui cosmogonias que nos revelam “uma das funções essenciais do mito, tanto nas culturas arcaicas como nas pri- meiras civilizações do Oriente”408, como, por exemplo, o fato do mundo e sua criação esta- rem fortemente relacionados com a renovação do mundo. “O Criador é convidado a descer novamente para uma nova criação do Mundo”409. Jesus Cristo é Deus que desce do céu para curar a Terra e voltá-la às origens de sua criação410; Tak bo Think, divindade com poderes sobrenaturais dos hindu-tibetanos, desceu antigamente à Terra para criar o mundo: “desce agora para o voltar a criar”411. A ontologia do mito implica num retorno e nascimento. Em algumas tradições indígenas, como a dos Osages, quando uma criança nasce é visitada por um homem experiente com divindades para ser saudada e ter recitada a história da criação
405 SOKOLOWSKI. Robert, Introdução à Fenomenologia, p. 159. 406
DEPRAZ, Natalie. Compreender Husserl, p. 119.
407 Cf. id., ibid., p. 53.
408 ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito, p. 36. 409 Id., ibid., p. 31.
410
Cf. MOLTMANN, Jürgen. Vida, Esperança e Justiça: um testemunho teológico para a América Latina. São Bernardo do Campo: Editeo, 2008. 101p., p. 46-47.
do Universo e das coisas terrestres. No cristianismo, quando uma criança nasce é batizada em nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, para que tenha nova vida, guardando todas as coisas que Cristo ensinou; a iniciação e a orientatio é um novo momento, “o ponto de parti- da para um novo começo”412. A criança que nasceu é colocada perante uma série de come- ços. Ela é iniciada com palavras e gestos exemplares da origem. Em certas tribos a pessoa só passa a comer certos alimentos após aprender a história das origens com os mestres da tribo.413 No cristianismo, a pessoa só participa da eucaristia após a decisiva experiência com o ensino da doutrina (crisma, confirmação de fé etc). O novo nascimento faz parte da onto- logia do mito e representa uma recapitulação simbólica da cosmogonia de uma comunidade para uma nova criação. Assim como o novo nascimento, o povoamento de uma nova região “equivale a um acto de criação”414. Quando Deus ordena que Abraão saia de sua situação e vá para a Terra Prometida, a terra que Javé lhe reservou para fazer uma grande nação, en- grandecer o nome de Abraão e abençoar aqueles e aquelas que viverem na cidade (Gênesis 12), temos aí um modelo de criação (de mundo) pela mediação de arquétipos celestes ins- taurados no centro do mundo que constituem a ontologia do sujeito religioso. A ontologia religiosa recebe significações originárias em narrativas míticas que são primeiras e princi- pais. O mundo constituído pelo sagrado envolve o ser e o sentido415, ganha significado, tor- na-se real, verdadeiro e o centro da vida. O mundo constituído pelo sagrado é um mundo com modelos e verdades originárias exemplares pelos mitos e pelo arcaico, com a função de “despertar e manter a consciência de um outro mundo do além – mundo divino ou mundo dos ancestrais”416.
412 NOSSA FÉ, NOSSA VIDA: Guia para a vida comunitária na IECLB, p. 19.
413 Cf. FLETCHER, A. C., FLESHCE, L. La., The Omaha Tribe, p. 116, apud ELIADE, Mircea. Aspectos do
Mito, p. 35.
414
ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno, p. 24.
415
Ser e sentido possuem uma raiz comum. Provêem de essência; do latim, esse, essentia, sensum.