CHAPTER 6 DATA ANALYSIS, INTERPRETATION AND DISCUSSION
6.1 Data Analysis
6.1.3 Quality Assurance
Carla era visualmente diferente dos demais entrevistados. Seus cabelos eram pintados de vermelho. Seu rosto tinha uma maquiagem forte nos olhos, marcados com delineador preto. No nariz, um piercing pequeno. As unhas eram pintadas de preto. Nos braços havia várias pulseirinhas. A calça jeans possuía trechos desfiados, rasgados e ela usava uma camisa presa aos quadris que lembrava o uniforme dos grunges dos anos 1990. Sim, ela era roqueira. A maioria dos seus amigos também. Numa escola em que a predominância de gosto musical parecia ser do funk ou do rap. O resultado disso foi a hostilidade:
Eles tinham um grupo, tinham dois grandes grupos: o da galera do funk, o da galera do rock (Letícia. Integrante do projeto).
Antes eu falava nossa, aquelas pessoas ali, é tudo roqueiro, todo mundo junto... (Maria. Estudante. Fazendo cara de nojo).
[...] eles eram descriminados por que eles curtiam rock e a maioria curtia rap e funk que chegavam até a ser agredidos. Outros alunos tacavam pedra neles e tudo e eles ficavam num grupinho, muito acuados dentro da escola (José. Integrante do projeto). Aqui é assim: [os alunos] são divididos em grupos (Carla. Estudante).
Galeras são “turmas de jovens com estrutura relativamente territorializada reunidas em torno de interesses geralmente alheios à violência” (COELHO, 2007, p. 15) como a “galera do rap” e a “galera do skate”, não hierarquizadas, que podem manter rivalidades com outros grupos, inclusive envolvendo-se em brigas e agressões com outros grupos. Não se confundem com as gangues, grupos juvenis hierarquizados que se reúnem com o objetivo de realizar atos ilícitos (ABRAMOVAY, 2002. COELHO, 2007).
Não foram identificadas gangues na escola pesquisada, e sim galera, reveladas não pela fala dos profissionais da escola e sim pelo discurso dos participantes do “Projeto Estudar em Paz” e dos estudantes, nas entrevistas e no grupo focal. Uma das razões para isso pode ser a sutileza das ações: há exclusão, os alunos não se misturam entre si. Se há agressão física, ela ocorre do lado de fora da escola. Como no caso de Carla, agredida por colegas, fora da instituição. Teriam jogado pedra nela, afirmam José e Miriam, participantes do “Projeto Estudar em Paz”.
Infelizmente, na entrevista, Carla não mencionou o incidente. Falou do estresse “normal” da escola, “separada em grupos” cada qual de um jeito, sendo que dentro da escola os estudantes agiam de determinada forma e fora agiam de outra. Admitiu que ela mesma não conversava muito com as pessoas e que a maioria dos seus amigos, bem como seu namorado, também roqueiros, não eram da escola pesquisada. Em relação aos amigos do ano anterior (ela havia repetido o último ano do ensino fundamental), havia perdido contato: haviam saído da escola, logo ela não falava mais com eles. Não havia mais razão para isso.
Cabe esclarecer que não houve informações sobre outros incidentes violentos ocasionados em razão do gosto musical. Ainda assim, pelo menos até 2013, a escola pesquisada mostrou-se como um espaço dividido. Há grupos que não se misturam, como o de funkeiros e roqueiros, e que veem um ao outro de forma negativa. Esse dado, relacionado ao
bullying mencionado anteriormente, indica a dificuldade de convivência na pluralidade, a
dificuldade de aceitação do outro. Isso, contudo, não é um exclusivo da escola pesquisada, como indicam as pesquisas de Abramovay et al. (2002 e 2009), mas um fato da sociedade como um todo. Nesse sentido, a escola reproduz as violências encontradas em seu entorno.
Diante dessa realidade, o “Projeto Estudar em Paz” realizou curso de formação de mediadores sociais com os estudantes pesquisados. Foram três cursos ao todo, usando uma metodologia participativa e dialógica e com o conteúdo programático voltado à percepção e compreensão dos conflitos e violências e em formas de se lidar com tais situações por meio do diálogo e da ação coletiva. Isso ficou evidente na fala de todos os estudantes entrevistados quando mencionam ter havido uma transformação pessoal:
Eu fiquei uma pessoa melhor e procuro ser melhor a cada dia mais. Tipo toda vez que eu faço uma coisa eu opa, eu lembro da mediação e penso espera aí, calma aí, gente, e levo isso pro dia a dia (Maria. Estudante).
Eu era muito egoísta, eu não gostava de emprestar nada pra ninguém, eu não gostava de falar com ninguém, ficava só no meu canto, não gostava de nada aqui da escola, eu ficava sozinha. Aí depois eu comecei a falar com todo mundo. A gente aprendeu a não ter racismo, a ser mais educado com o povo, parar de ser tímido (Ana. Estudante).
Eu aprendi a ser um pouquinho mais sociável (Carla. Estudante).
Ah, [eu aprendi] muito, muita coisa mesmo. O curso ensina a lidar com os conflitos, ensina a prevenir conflitos desnecessários Em casa mesmo depois do curso você vai vendo que tem algumas confusões que você não precisa, não tem necessidade de acontecer. Você meio que aprende mais a viver em sociedade melhor. Depois do curso a gente vai vendo esse negócio de convivência em família, você vai aprendendo a conviver melhor sem muita briga desnecessária (Marcos. Estudante). Me ajudou bastante a refletir. Antes eu era muito alterada. Agora, eu relevo (Margarida. Estudante).
Antes xingava e brigava muito. Agora eu respeito mais (Raul. Estudante).
Pelas falas dos entrevistados, pode-se perceber que, para eles, o “Projeto Estudar em Paz” trouxe contribuições a medida que eles consideram que se tornaram mais sociáveis e mais dispostos a tentar compreender os conflitos, não apenas dentro da escola, como também na vida em geral. Margarida, por exemplo, era “alterada”, brigava muito na escola, e a partir de então passou a relevar.
No grupo focal, o impacto e a transformação social individual também foram mencionados como o desenvolvimento da autonomia em relação à opinião de outros sobre elas próprias: “se a pessoa não gosta de mim, não estou nem aí” ou “ninguém é obrigado a gostar de mim”. Além disso, o dissenso de opinião parece ser gerenciado de forma mais dialógica e menos violenta:
Se a pessoa olha pra mim e ela não gosta de mim, eu não estou nem aí. Porque ninguém é obrigado a gostar de mim, se não gosta de mim eu não estou nem aí. Se fala mal de mim eu também não tô nem aí! Pode falar o que quiser de mim que eu não estou nem aí também! (Sandra, estudante)
É igual aquele estado bate e volta: não vou bater não, não vou falar nada. Se quiser falar de mim, fala, ué. Porque ninguém é obrigado a gostar de mim! (Joana, estudante)
Antes era assim: “minha filha, está falando mal porque, hein?” Aí eu vi que a mediação é bem de conversa: “Não, não é bem assim. Por que você não gosta de mim?! Não, senta aqui, vamos conversar. Eu não sou desse jeito não... Eu sou só meio doidinha” (Ana, estudante).
Contudo, tal transformação não fora percebida apenas entre os estudantes participantes do “Projeto Estudar em Paz”. Apesar de os relatos serem principalmente quanto ao aprendizado do próprio entrevistado ou entrevistada, também há menções a transformações positivas de terceiros, de outros estudantes:
Antigamente tinha até umas meninas lá no curso que eram barraqueiras. Com toda menina elas arrumavam confusão. Aí, com um tempo, elas mudaram (Maria. Estudante).
Olha só o Flávio: nossa, ele era muito bagunceiro, nem era meu amigo! A mediação mudou ele (João. Estudante).
Assim, ao se perceber que há relatos tanto de transformação individual quanto de terceiros, o impacto positivo do “Projeto Estudar em Paz” passa a ter maior consistência no que se refere à transformação pessoal de estudantes. Nesse sentido, tais achados corroboram os resultados de outras pesquisas, como de Slyck e Stern (1991) e Bowdine e Crawford (1998) e ainda Furtado (2011) e Gaspar (2012) que apontam a mediação de conflitos como uma ferramenta de transformação pessoal.
Tal transformação não se refere apenas a uma “pacificação dos estudantes”. Parece haver também uma proposta de educação emancipadora, que trabalha a conscientização e a possibilidade de transformação também social, conforme relatos abaixo:
Aprendi que tem como o governo melhorar, que tem como melhorar a educação lá na secretaria [de educação] (Raul. Estudante).
Aconteceu que eu comecei a pensar de outro jeito, de outro nível. Não ficar brigando por qualquer coisa e começar a pensar, a saber dos nossos direitos. Aprendi sobre desigualdades sociais, sobre bullying, que muitas pessoas sofrem por causa dessa discriminação: “ah, você é muito magra, muito gorda, você tem o cabelo natural, é muito baixa”. Aprendi sobre essas coisas e muitas outras coisas também do nosso cotidiano. Tipo andar de ônibus. A gente tinha que ter um transporte melhor, eu não sabia que eu tinha esse direito e a mediação também me ajudou a conhecer essas coisas que eu não conhecia antes (Joana. Estudante).
Eu aprendi melhor o que é violência: tem a violência verbal, a violência cultural, a violência estrutural (Flávio. Estudante).
[Eu aprendi] sobre violência, bullying... Ah, eu nem fazia ideia do que era. Com o tempo é que fui tendo noção, noção até para parar com a violência com as mulheres (Margarida. Estudante).
Pode-se dizer, então, que o curso de mediação social melhorou a autoestima e a autonomia dos participantes frente à opinião de terceiros; auxiliou-os a lidar com conflitos de forma dialógica e aumentou a conscientização sobre a realidade social vivenciada, as violências e as possibilidades de mudança. Nesse sentido, o “Projeto Estudar em Paz” alcançou os objetivos da mediação social e apresenta-se como uma ferramenta de educação para os direitos humanos.
Isso não significa, contudo, uma transformação da escola ou de todos os envolvidos. Ao contrário, para os entrevistados, o curso não transformou a todos:
Pra quem fez o curso ele foi muito bom, foi bastante útil. Quem não fez acho que nem sente... Nem sabe que teve isso, porque a gente não interage com quem não tem esse contato com os mediadores (Marcos. Estudante).
Não adiantou muito pra uns meninos da minha sala, não. Mas para as outras pessoas, que entenderam, ajudou bastante (Margarida. Estudante).
Mudou a gente que fez o projeto. A escola não mudou nada não, mas a gente mudou. O nosso ponto de vista mudou (Joana. Estudante. Grupo Focal).
Esse achado corrobora pesquisas de Slyck e Stern (1991) que indicam que projetos de mediação possuem a capacidade de influenciar e beneficiar apenas os estudantes que passaram pelos cursos, ou seja, os próprios mediadores. Não há, assim, a capacidade de multiplicação nem de influência sobre a escola como um todo, ainda que as transformações individuais sejam sensíveis.
Apesar disso, um grupo de profissionais considerou não haver contribuições positivas do “Projeto Estudar em Paz”, especialmente no ano de 2013, período em que foi escolhida uma turma da Classe de Defasagem Idade-Série (CDIS) para passar pelo curso por ser uma “classe problema”:
Nos outros anos foi melhor. Neste, não teve muito efeito, não (Teresa. Profissional da escola).
Uma coisa eu tiro: não adiantou a mediação. Eles tentavam, tentavam. A proposta foi ótima, só que não chegou ao que a gente queria: respeito com os próprios colegas e com o professor (Paulo. Profissional da escola).
Pode ser que tenha tido algum efeito, mas nas atitudes dos alunos no cotidiano deles, e nas matérias, eu não percebi mudanças. A gente achava que ia ser uma salvação mas não deu certo (Cristina. Profissional da escola).
Assim, na percepção desses profissionais, o curso de mediação social não teria melhorado o comportamento desses alunos. Eventuais mudanças foram consideradas decorrências de outras ações, tal como indicam Paulo e Kátia, profissionais da escola:
É igual eu já falei no início eles eram bem mais difíceis. Agora eles deram uma melhorada. Eu não digo que foi a mediação, eu não digo que foi só a intervenção da escola, mas eles deram uma melhorada (Kátia).
Bem, teve uma melhora dos alunos? Eu penso assim: teve uma evasão, muitos alunos desistiram. Esses piores, muitos desistiram porque sabiam que não iam passar, uns já foram presos... Alguma coisa aconteceu, sim. Diminuiu o efetivo de alunos, com isso diminui um pouco os conflitos dentro de sala de aula. Não que os alunos melhorassem. Os que estavam fazendo bagunça, os que não tinham compromisso com nada, que estão lá dentro, continuam do mesmo jeito. Diminuiu? Diminui, mas o que diminuiu o efetivo de alunos também. Não que esse negócio tenha contribuído para que isso tenha acontecido (Paulo).
A partir desses relatos é possível considerar que, apesar de ser visto como uma proposta de educação para os direitos humanos, formando sujeitos de direito, o “Projeto Estudar em Paz” encontra resistências dos profissionais da escola, o que pode desfavorecer sua atuação e o alcance dos resultados esperados.