6.2 Prototype 2
6.2.3 Qualitative findings
Para conseguir compreender os parâmetros que formam uma personagem do realismo mágico em um livro ilustrado, é preciso ter uma compreensão dos aspetos narrativos do movimento artístico em questão. Já vimos no capítulo anterior que, por característica majoritária, o aspeto cotidiano, a trivialidade e também a insígnia do ordinário em detrimento ao elemento mágico, fantástico ou estranho, permeia a obra do realismo mágico, tanto no campo visual quanto no literário. Talvez a busca incansável por representar uma realidade tangível, distante dos contos de fadas, explicitamente comum e familiar, mesmo que impregnada pela magia referendada, faça-nos criar uma visão de uma atmosfera concreta e muitas vezes de certa forma crível. Esta deambulação entre o real e o mágico, costurados por enredos do dia-a-dia, é conduzida definitivamente por seus cenários, suas diferentes formas de representação, mas principalmente por suas personagens e pelo que elas têm para contar.
O esforço por uma narrativa verossímil é uma das peças principais no quebra- cabeças que forma o discurso do realismo mágico. Porém, ao mesmo tempo, é um dos seus maiores desafios estabelecidos. De acordo com a avaliação de Chiampi (2015), a narrativa de uma obra artística pertencente ao realismo mágico não busca uma verdade científica ou normativa, mas sim estabelecer um critério de verossimilhança em conformidade com um parâmetro de realidade. A perspectiva do funcional tem a capacidade de levar a uma mitificação do real quando o espectador é colocado diante de um arco narrativo assinalado pela intenção de criar um efeito de encantamento e deslumbramento proveniente de um “efeito real”, sendo capaz de remover o sistema de códigos racionais para impor o do impossível lógico da não contradição.
Nesse sentido, a autora questiona de que forma o espectador pode tomar como real, ou ao menos decidir por crível, um diálogo entre fantasmas que acontece não em um delírio ou sonho, mas sim em uma pequena localidade mexicana à deriva da miséria provocada pela cultura latifundiária, como é verificada na obra Pedro Pálamo (1955), de Juan Rulfo? Ou então, de que maneira somos levados a assentir que o Coronel Aureliano Buendía participou de 32 guerras civis, e as perdeu todas, como é enunciado em Cem Anos de Solidão? E por fim, no campo visual, como tomar por crível e sem o menor grau de espanto o fato do professor Aristóbulo tornar-se um lobisomem nas noites de lua
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cheia em Saramandaia (1976)? Dessa maneira, esse tipo de questionamento já não aborda mais a situação do “Outro Sentido” – como podemos chamar o campo mágico do universo do realismo mágico – ser verdadeiro ou não no movimento, mas sim, em como a performance narrativa nos faz crer neste “Outro Sentido”. Se no processo do transcorrer da história, os temas abordados acima não ganham o aspeto de ridículos, ou risíveis – o que levaria a obra a cair nos indesejados campos da paródia e da ironia, correndo o risco de destruir a verossimilhança – nem ao menos como resultados de falsas ilusões, como acontece no fantástico, é porque a sua autoridade e seriedade convergem para um pacto assinalado entre o autor e o espectador. Esta aliança se estabelece principalmente no quesito do pré-texto, ou seja, a busca por essa verossimilhança passa diretamente pela partilha de modelos de conteúdo e de expressão entre o narrador e o narratário. Assim, a compostura do “Outro Sentido” só se preservaria na medida em que o repertório de referências do leitor incluísse vivências ou informações que condigam com o que é apresentado na narrativa.
Por outro lado, fica claro que a situação performativa do discurso do realismo mágico não se limita somente no pré-texto, mas passa por um processo retórico de persuasão, algo que podemos entender como um método de verossimilhança. Dessa forma, o convencimento do espectador passa também por uma conduta coerente na utilização dos códigos do texto e da imagem pelo autor. O vínculo equivalente entre a forma da expressão e a forma do conteúdo acaba também por se tornar um método de tornar verossímil o realismo mágico pelos recursos formais que na narrativa se dispõem para articular não separadamente os códigos realista e maravilhoso. A proximidade da manifestação “mágico realista” com a real naturalmente facilita, ou torna possível, uma potencialização maior do processo de tornar verossimilhante a narrativa do realismo mágico por meio das estruturas próprias do seu discurso. Para a autora, uma obra torna verossímil o inverossímil através de uma repetição de uma matriz funcional: o mito move a história e a história produz novos mitos. Ou seja, um trabalho de persuasão que confere status de verdade ao não existente, como muitas vezes ocorre nas histórias do dia a dia, na vida real.
Já para Wood (2010), não é só uma realidade de fantasia que precisa e necessita de um convencimento, uma persuasão, para adquirir o condão de real, o próprio realismo em si também é carente deste artifício. Segundo o autor, o conceito de “probabilidade”, a legitimidade presumida, acarreta no ato de defender a visualização, ou imaginação, do plausível contra o implausível. Segundo o autor, é isto que Aristóteles em Poética se refere quando diz que na mimese, uma impossibilidade convincente é sempre
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preferível a uma possibilidade pouco convincente. O fardo é imediatamente colocado no convencimento mimético, isto é, o trabalho do artista passa a ser o de nos persuadir de que algo de fato poderia acontecer. Articulando um gancho com o que Chiampi diz sobre o papel coeso das estruturas narrativas em si neste ano de buscar a verossimilhança, Wood destaca que a plausibilidade e a coerência interna se convertem em itens mais densos e importantes do que a correção referencial em si, sendo que a esta incumbência, naturalmente está a cardo do artifício ficcional e não de uma mera reportagem dos fatos narrados. Wood ainda destaca que o realismo, visto a grosso modo como fidelidade ao jeito como as coisas são, não pode ser entendido somente como verossimilhança, nem ao menos somente por sua veracidade, mas sim o que ele chama de lifeness (p. 262) – termo que denota aquilo que é característico da vida (life em inglês), ou seja, a vida reinventada e reinterpretada pela arte de forma mais elevada, e é este fator que dá a abertura para a existência do realismo mágico, por exemplo.
Evidentemente que este jogo retórico entre o real e a fantasia, o ato de atestar a plausibilidade de que uma realidade cotidiana cercada de acontecimentos a princípio inexplicáveis e sobrenaturais possa ser de fato verdadeira, ou seja, toda a narrativa específica que envolve o realismo mágico, passa diretamente pela construção e gerenciamento das suas personagens. Tratando-se das peças principais do tabuleiro “magico realista”, pois o efeito do mágico no real ou do real no mágico depende quase que exclusivamente do referente da personagem – ora são personagens mágicas inseridas em um contexto concreto, ora são personagens absolutamente comuns e banais situadas em um contexto de fantasia –, as personagens são, por meio de uma construção convincente, as grandes responsáveis por conduzir o espectador pela proposta formulada pelo realismo mágico.
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