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2.4 Climate change and non-state conflicts

2.4.3 Qualitative case studies

O Pe. Vicente do Salvador, no século XVI, define a situação espacial dos colonizadores portugueses, de maneira metafórica, dizendo que eles se “contentavam de andar arranhando a costa ao longo do mar como caranguejos”, demorando a adentrar no

sertão. (MATTOS, 1987, p. 41). Podemos dizer que, de fato, no período quinhentista, a presença do colonizador no espaço litorâneo foi marcante até as descobertas das minas de ouro e diamantes no interior do Brasil, nas últimas décadas do século XVIII.

25 Em nome da Igreja Católica e da Monarquia do Velho Mundo, os conquistadores espanhóis liderados por

Hernán Cortés chegaram em 1517 ao México e conquistaram e destruíram a civilização Asteca, erguendo sobre as ruínas do templo de seu deus mais importante, uma catedral cristã. Preso e humilhado, o Príncipe Montezuma foi decepado. Os espanhóis dominaram os astecas e tomaram grande parte dos objetos de ouro desta civilização. Não satisfeitos, ainda escravizaram os astecas, forçando-os a trabalharem nas minas de ouro e prata da região. Contrariamente aos nativos brasileiros, os astecas viviam o apogeu da era do bronze e eram mestres na arte da ourivesaria. Tenochtilán foi arrasada. Derrubaram suas casas, palácios e templos, atearam fogo até mesmo nas coisas mais valiosas, ao mesmo tempo saquearam montes de ouro (o equivalente a 600.000 pesos), sem contar a riqueza em prata, plumas, colares e tecidos. O tesouro encontrado foi transformado em barras e levado para a Espanha. (SILVEIRA, 2009, p. 83 -95).

Desde os primeiros momentos da chegada à terra brasileira foi que os portugueses obtiveram pelos índios e, depois especialmente, pelo célebre Caramuru26 informações de que no interior da nova terra havia riquezas intocadas a serem descobertas e conquistadas.

Antônio Dias Adorno (O Caramuru) entrou em Minas Gerais, à frente de numerosa bandeira, por Caravelas, percorrendo a região do Araçuaí, de onde levou turmalinas verdes e azuis, pensando ser esmeraldas e safiras. (LEITE, 1961, p. 39).

No entanto, de acordo com a história do Brasil, foi somente pelos idos da década de 1530, que Martim Afonso de Sousa recebeu da Coroa, para além de outras tarefas, a de fazer assentamentos em lugares estratégicos da «Costa do Ouro e da Prata», que se estendia desde São Vicente até ao rio de Santa Maria, e descobrir metais preciosos. Este, depois de visitar diversos pontos da costa, fundou em 1532, a primeira povoação regular em São Vicente, núcleo da capitania homônima. Já, em 1534, sob as ordens de D. João III, foram criadas as Capitanias Hereditárias27 para melhor administrar o imenso país recém- conquistado.

A estrutura da colônia brasileira, desde o seu descobrimento, passou por inúmeras transformações. Foram essenciais na formação da colônia a alteração e o empenho da iniciativa privada para a exploração e a posse das zonas costeiras. Com a criação do sistema das capitanias hereditárias. A escravização dos povos indígenas mostrou que o caráter comunitário da sociedade indígena era incompatível com a ideologia capitalista do

26 Caramuru é o nome que Diogo Álvares Correia recebeu dos Tupinambás. Nascido em Viana do Castelo, em

Portugal, em 1485, chegou ao Brasil em 1510, depois que o navio em que estava naufragou na região do Rio Vermelho, na Baía de Todos os Santos e todos os seus companheiros de viagem morreram. Foi capturado pela tribo indígena dos Tupinambás e aos poucos foi adquirindo a confiança dos indígenas, recebendo permissão para sair e caçar junto com os guerrilheiros da tribo. Aprendeu a língua dos nativos e adaptou-se aos costumes. Recebeu o nome de Caramuru por causa de um tiro que deu em um pássaro, utilizando o mosquete que trazia consigo. Em meio à fumaça da pólvora e ao cheiro exalador, os indígenas ficaram assustados e gritaram “Caramuru”, ou seja, “homem de fogo”, na variante tupi-guarani falada pelos tupinambás. Tornou-se um líder cercado de regalias entre os indígenas. Viveu entre os índios por alguns anos, onde gozou de uma posição respeitável. Diogo Álvares também manteve boas relações com os corsários franceses, para quem fornecia pau- brasil, que era contrabandeado para a Europa. Algum tempo depois aliou-se aos colonizadores portugueses, tornando-se mediador entre os ameríndios e os portugueses. Foi tão grande a sua importância no projeto de colonização lusitana no Brasil que ele chegou a ter contato com o rei de Portugal através de cartas. Conhecedor dos costumes indígenas, Caramuru foi de grande ajuda para facilitar o contato entre os índios e os primeiros colonizadores. (RAMOS E MORAIS, 2010, p.13-31).

27 A criação das capitanias hereditárias foi uma estratégia utilizada pela Coroa Portuguesa para incentivar o

povoamento do Brasil. Este sistema consistiu em dividir o território brasileiro em grandes faixas e entregar a administração para os nobres que tinham boas relações com a Coroa Portuguesa. Os favorecidos eram conhecidos como donatários e tinham como missão colonizar, proteger e administrar o território. Possuíam autorização para explorar os recursos naturais tais como: madeira, animais, minérios. Esta tentativa de dividir o Brasil não teve sucesso devido à grande extensão territorial a ser administrada, a falta de recursos econômicos e os constantes ataques indígenas. (CALMON, 1959).

colonizador e, em decorrência disso, a transformação da economia de corte do pau-brasil trouxe o regime escravagista negro para o cultivo agrícola da cana de açúcar.

De maneira oficial, a primeira expedição com finalidade de averiguar a possível existência de riqueza mineral no Brasil chegou em meados do século XVI (1549), sob a direção do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa. Esta foi em grande parte motivada pela descoberta espanhola das fabulosas minas de prata de Potosí, na região centro sul dos Andes, em 1545. A armada integrava, além do tesoureiro real, do magistrado principal e de outros oficiais, soldados, colonizadores, exilados penais e seis jesuítas da recém-criada Companhia de Jesus. O governo-geral tinha como missão a de limitar o poder excessivo dos donatários, promover a ocupação da colônia e a sua proteção, não se esquecendo de buscar o ouro. (FIGUEIREDO, 2011, p.47).

A obsessão pelo ouro fez do governador um alvo fácil para fraudulentos enganadores. No desejo de adentrar no sertão para fazer a vontade do rei, o Governador deixou-se levar por Felippe Guillen. Este era um ex-boticário da Espanha que havia migrado para Portugal e lá se tornara curandeiro e astrólogo e, depois, viera para o Brasil. Na Bahia fez-se passar por geólogo e gabava-se de saber encontrar as minas de ouro. Ocasião que foi ao encontro do governador e disse-lhe que sabia onde estavam as minas de ouro. Estas, dizia, “localizavam-se à margem de um grande rio”, onde situava uma “serra resplandecente muito amarela” e junto dela havia também “esmeraldas28 e outras pedras finas”, distante cinco ou seis meses de viagem do litoral. Então, escreveu uma carta a Dom João III, datada em 20 de julho de 1550, descrevendo a existência de uma serra resplandecente:

Socedeu agora que este março pasado vierõ a Porto Seguro negros dos que viuem junto de hû gram rio, alem do qual dizem que esta hûa sera junto delle que resprandece muito e que he muito amarella, da qual serra vão ter ao dito rio pedras da mesma cor, a que nos chamamos pedaço douro, que dellla caem, e os negros, quando vão a guerra polla banda de aquem, apanham do dito rio os ditos pedaços de que dizem que fazem gamellas pera nelas darem de comer aos porcos que pera si não osam fazer cousa algûa, porque dizem que aquelle metal edoença pella qual rezam nam ousam pasar a ella e dizem qué muyto temerosa por causa de seu resprandor, e chamãolhe sole da tera. (DIAS; VASCONCELLOS; GAMEIRO, 1924, p.358).

Impressionado com a descrição e achando que ele falava a verdade, o governador nomeou-o chefe da diligência, mas este, no dia da expedição partir para o sertão

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A esmeralda é considerada uma pedra valiosa, juntamente com o diamante e o rubi. Na história do Brasil, está ligada ao nome do bandeirante Fernão Dias Paes, conhecido como o "caçador de esmeraldas". Ironicamente, Fernão vagou por anos pelo interior do Brasil à procura de esmeraldas, mas nunca as encontrou. Ao morrer, pensou as ter encontrado, mas, após sua morte, comprovou-se que as pedras verdes supostamente esmeraldas eram na verdade turmalinas. (BUENO, 2003, pp. 64-66).

em busca das esmeraldas, negou-se a ir, alegando estar muito doente e, depois, simplesmente sumiu dizendo ter sido acometido por uma “doença nos olhos”. (FIGUEIREDO, 2011, p.4λ). Entretanto, a lenda do Sabarabuçu, cuja difusão inicial foi atribuída a Filipe Guilhen, foi se nutrindo de fatos, associando-se a relatos, bebendo constantemente de experiências concretas e imaginárias numa espiral crescente sobre o imaginário dos colonizadores.

Tomé de Souza, em seguida, organizou outra diligência para a descoberta das minas, que também acabou em malogro. Esta ficou sob o comando de Miguel Henriques que, depois de partir, nunca mais apareceu e nem deu notícias. Esses fatos fizeram despertar ainda mais a curiosidade de todos a respeito da “montanha dourada” repleta de ouro e pedras preciosas.

Entretanto, os estudiosos afirmam que somente no ano de 1553 foi que se deu a primeira entrada no território mineiro, numa expedição preparada conforme ordem do governador geral e que foi dirigida pelo espanhol Espinoza. Francisco Bruzza de Espinoza era “castelhano de grande língua” e homem de bem que vivia na Bahia. Em 1553, no tempo do Governador Duarte da Costa, deslocou-se pelo sertão adentro com o Padre Jesuíta João de Aspilcueta Navarro e mais doze companheiros, para Minas Gerais, na região dos rios Jequitinhonha e Pardo, até a serra das Almas, Grão-Mogol ou Itacambira. No entanto, devido à mata fechada e às terras “úmidas e frias”, nada descobriu com relação ao ouro e às pedras preciosas. Para o historiador Diogo de Vasconcelos (1974), Espinoza foi o primeiro conquistador a pisar as terras mineiras.

No final do século XVII, tendo o tabaco, o couro e o açúcar como importantes exportações, o valor dos produtos brasileiros sofreu um declínio devido à concorrência de outras potências e também a problemas estruturais. Dessa forma, por volta de 1670, a Coroa Portuguesa aumentou a exploração das eventuais riquezas brasileiras, numa tentativa de aplacar as dificuldades econômicas do reino. É assim que a ambição pelas riquezas propiciou o conhecimento do interior do Brasil, na medida em que a Coroa Portuguesa passou a incentivar o movimento de penetração ao sertão29.

29 A palavra “sertão” é portuguesa, provavelmente do século XV, mas sua etimologia é obscura, de acordo com

Araújo (2000, p.7λ). No período colonial brasileiro, a palavra “sertão” (do latim desertanu, “desertão”) era empregada para designar as terras ainda não exploradas do interior do país, longe do litoral, pouco habitadas ou de difícil acesso. Posteriormente, com a colonização de grande parte dos “sertões”, a definição mais comum ficou atrelada às regiões que compõem o semi-árido brasileiro. No início, “sertão” era uma designação que se voltava apenas para localizar geograficamente as matas. Depois, passou a representar o interior desconhecido e que precisava ser desvendado, em oposição ao litoral. Ribeiro (2000, p.56-57) sugere quatro definições para o termo sertão: a) desertão, ou seja, sinônimo de deserto no sentido de ausência de civilização europeia, já que, esses espaços não eram um vazio populacional; b) serere, sertanum de origem do latim clássico, que quer dizer o mesmo que, trancado, entrelaçado e embrulhado; c) Desertum ou desertor, termos que remetem a ideia de desordem e de corrupção onde o sertão abrigaria pessoas desonestas e sem índole; d) Desertanum, significando