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Conforme as considerações anteriores indicaram, o modo como o discurso do mérito individual mobiliza a noção de controle pessoal – e promove um certo esquecimento do social em sua lógica apreensiva das trajetórias e possibilidades, acaba proporcionando uma explicação para o quadro de desigualdade que contem em si diversos meios de ajustar a percepção do mundo social à aceitação da ordem desigual estabelecida. Esse processo de legitimação se torna efetivo não apenas porque se encontra fundamentado numa estrutura de valores respaldados na ordem institucional vigente, mas porque consegue envolver também parte da base subjetiva motivacional dos sujeitos. Ou seja, a lógica de legitimação da desigualdade é pervasiva o suficiente para consolidar sua força justificadora através de desejos, necessidades e esperanças

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das pessoas. Acreditar na abrangência da capacidade de auto-determinação e de controle do próprio destino possui consequências diretas na formação de disposições comportamentais pessoais. Mas vai além disso: é possível traçar relações entre esta convicção e a formação de um senso de justiça em termos de merecimento. O estímulo cotidiano em direção ao esforço, resiliência e progressão de desempenho, da forma como é colocado pelo ideal meritocrático se

ampara na visão de mundo em que “cada um tem o que merece” e que “o sucesso é resultado do esforço”. Essa tendência, por sua vez, possui influência considerável na formação de atitudes

a respeito das desigualdades e nas construções de julgamentos sobre o valor do outro.

O problema da justiça em termos de merecimento, que afirma o princípio do “cada um

tem o que merece”, é que ela se baseia principalmente na moralidade do senso-comum (Sen,

2000) e não pondera se seus efeitos possam resultar em desigualdade ou até em restrições à liberdade. Além disso, quando essa noção pressupõe um nível demasiado de responsabilidade dos indivíduos sobre seus atributos e desempenhos, superdimensionando o controle que os sujeitos possuem sobre seus destinos, ela pode inclusive tolher apreensões sociais importantes.5

O interesse nos processos que determinam os destinos dos indivíduos e suas relações com a formação de percepções e julgamentos também foi explorado pela psicologia social,

principalmente pela área de pesquisa conhecida como estudos de “crença num mundo justo”.

Tal área (Lerner,1982; Benabou e Tirole, 2006) teoriza e produz experimentos sobre um desejo por justiça nas relações sociais humanas, o qual estimula que os indivíduos acreditem que o mundo é um lugar justo, onde todas ações resultam em consequências merecidas. Documentada em diversas pesquisas, a hipótese sobre a crença no mundo justo afirma haver convergências afetivas e funcionais entre alguns sujeitos para a relação entre mérito e destino. (Hegvedt & Scheuerman, 2010).

Em uma série de experimentos sobre o tema, realizados na década de 1960, o psicólogo Melvin Lerner reuniu dados relevantes para a consolidação dessa hipótese. Em um deles, dois grupos de participantes observavam um estudante que supostamente recebia choques elétricos num teste sobre aprendizagem humana, um dos grupos de participantes ao fim da sessão era informado que o estudante poderia receber uma recompensa financeira devido à experiência de dor que havia passado, outro grupo era informado que o estudante não receberia nenhuma

5 Estudos sobre determinantes de apoio a políticas redistributivas, que tem aos poucos superado a tendência

do ‘homo economicus’ e avaliado as escolhas normativas de forma mais complexa, tem demonstrado teoricamente

e empiricamente (Piketty, 1995) que preferências redistributivas podem ser determinadas justamente pela compreensão de que os indivíduos possuem ou não controle sobre seus ganhos. Essas crenças estão antepostas na oposição entre a determinação dos desfechos pessoaispor fatores internos ou externos aos indivíduos, sorte/azar x esforço ou quadros estruturais x esforço.

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recompensa e iria continuar recebendo choques continuamente. Logo depois, os observantes teriam que responder a respeito de suas impressões sobre o experimento e sobre as vítimas, os participantes que puderam recompensar as vítimas tiveram uma avaliação mais positiva destas, do que aqueles que não tiveram essa chance. No segundo grupo, surgiram comentários de que a vítima estava exagerando, que era tola por aceitar o experimento ou que ela, ao se inscrever, estava sujeita às consequências. A teoria e os resultados propunham que ao testemunhar o sofrimento de uma vítima inocente, os sujeitos tentam reestabelecer justiça através de recompensa, se isso não for possível, eles podem tentar restabelecê-la culpabilizando a vítima, devido a suas ações ou personalidade, de forma a não contradizer o ideal de justiça em termos de merecimento.

Alguns indivíduos teriam dificuldade em aceitar que a experiência de sofrimento possa existir sem recompensas e sem motivos justos. Tal dificuldade seria originada na formação moral da criança, que quando educada para superar os princípios do prazer e da imediatez,

desenvolveria um senso absoluto de justiça (o qual Piaget se refere como “justiça imanente”)

baseado na ideia de que a espera e a renúncia devem ser sempre recompensadas. Este senso absoluto tende a evoluir para um senso mais complexo e abrangente de justiça com a experiência pessoal de sofrimento e com a expansão do mundo social, porém nem sempre isso acontece de forma garantida. (Lerner, 1982).

Pesquisas com escalas de “crença num mundo justo” (just world scale) (Benabou e Tirole, 2006) apresentam afirmações do tipo: “em quase todas as profissões e negócios, pessoas que fazem seu trabalho bem conseguem ascender ao topo”, “muitas pessoas sofrem sem ter absolutamente nenhuma culpa”, “boas ações frequentemente não são notadas ou recompensadas”, as quais os respondentes devem indicar em que nível concorda ou discorda

com tais proposições. Relacionando essa escala a outros temas, pesquisas demonstraram que os indivíduos com forte crença num mundo justo tendem a admirar e apoiar pessoas que estão no poder, sendo mais suscetíveis a dar suporte ao autoritarismo e a ter opiniões negativas sobre grupos desprivilegiados.

Os estudos sobre “crença num mundo justo” são geralmente focados em diferenças nos

julgamentos individuais e não temos intenção de tomar suas contribuições para afirmar um padrão psicológico universal atrelado ao ethos meritocrático. Entretanto os experimentos formulados auxiliam na compreensão do princípio do mérito como estratégia de resposta às injustiças, estratégia que ganha aderência principalmente por não instigar emoções morais incômodas, como culpa, raiva, vergonha e por estimular a dissimulação da condição presente

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de fracasso, substituindo-a pela condição de “a caminho do sucesso possível”, visto que se entende que as recompensas sempre alcançam os corretos.

A ideia de que a “crença num mundo justo” é uma necessidade imanente que parte do

desejo de perceber controle sobre o próprio destino também não faz parte da nossa abordagem sobre o mérito como recurso justificador. Nossa perspectiva, na verdade, procura desenvolver o problema partindo dos processos de persuasão ideológica e dos aprendizados sociais que levam as pessoas a racionalizarem e aceitarem as coisas da forma como estão dadas. A menção a essas pesquisas se dá no sentido de retratar como a gramática de justificação moral da desigualdade capitalista se desenvolve e se confirma nos esquemas avaliativos cotidianos. Nesse sentido, aqueles experimentos psicológicos servem também como base de delimitação do problema ou de indicação do conjunto de mecanismos organizadores da prática que aqui estudamos.

A racionalização e explicação da ordem desigual através do discurso meritocrático se dá através de um conjunto específico de referências morais que fazem parte de uma gramática de justificação mais ampla. Compreendemos que a relação entre mérito individual, desigualdade e justiça movimenta essas referências se configurando como uma das articulações normativas mais relevantes da hierarquia capitalista contemporânea. A discussão apresentada nesse capítulo buscou organizar noções teóricas que fossem importantes para contextualizar e entender a relação entre esses três pontos.

Considerando que o mérito individual se sustenta principalmente em duas bases: na percepção de controle pessoal e na noção de desempenho diferencial. Buscamos o self pontual e descontextualizado de Taylor com o objetivo de entender a constituição dessas bases, recuperando como o contexto de modernidade possibilitou a experiência autocontrolada e internalizada e a definição de valor social baseada nas competências do indivíduo moldável e responsável por si próprio. Os conceitos bourdieusianos auxiliam a compreender a incorporação prática dessa nova economia de valores, assim como o aspecto de invisibilidade que acompanha.

Os estudos de desigualdade, por sua vez, ajudaram a colocar em perspectiva as consequências sociais relacionadas às percepções produzidas pelas pessoas sobre os lugares desiguais na sociedade. Se existe um consenso sobre o valor de igualdade enquanto ideal a ser seguido, o modo como esse valor orienta as leituras do universo social não se dá de maneira conforme. As pesquisas apresentadas (Reis,2000; Scalon, 2004, Lavinas, 2014) e especialmente a de Souza (2006, 2009,2010) nossa abordagem sobre os esquemas perceptivos que confirmam o ideal de igualdade de oportunidades.

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O nosso objetivo é articular essa relação entre mérito, desigualdade e justiça a fim de compreender como ela se potencializa enquanto referencial valorativo justificador e como se concretiza em razões práticas cotidianas. Assim, iremos explorar como as pessoas orientam suas ações e sentidos de justiça partindo do modo como percebem e avaliam o mérito pessoal e a estrutura de acesso à conquista desse mérito. Pretendemos analisar a experiência de pessoas que passaram por processos seletivos disputados, mais especificamente concursos para ocupação de cargos públicos, observando a forma que a noção de mérito individual é articulada para dar sentido aos resultados próprios e aos fracassos alheios.

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