1.4 Mass Spectrometry
1.4.2 Quadrupole (Q)
As entradas, teoricamente em busca de metais preciosos e esmeraldas, se multiplicaram a partir da década de 1570, ainda antes da unificação das coroas ibéricas. De Lisboa vinham incentivos a tais jornadas, na mesma época em que a coroa se esforçava para subdividir a administração do Brasil. Filiando-se a isso, Antonio Salema foi enviado em 1574 como o primeiro governador para cuidar da região sul do Brasil, o qual facilitou e realizou várias dessas jornadas rumo ao sertão, em especial partindo das capitanias do Rio de Janeiro, São Vicente e Espírito Santo.116
Com a chegada de um monarca espanhol ao poder em 1580 se acentuou ainda mais essa tendência de penetração em direção ao interior, uma das principais marcas da colonização espanhola.117
Nessa intensificação das entradas reside mais um traço da influência da união ibérica sobre o Espírito Santo, onde várias jornadas ao sertão foram empreendidas. Conforme indicado neste trabalho, no plano local essas jornadas já eram recorrentes desde o século anterior, tendo como principal resultado o descimento de índios para o aldeamento e para o trabalho nas propriedades capixabas. No século XVII,
114
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 17 A. 115
Cf. Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 docs. 04,05. 116
TAPAJÓS, Vicente Costa Cantos. História administrativa do Brasil: a política administrativa de D. João III. 2. ed. Brasília: Universidade de Brasília: FUNCEP, 1983-1984. v. 2. p. 113-115.
117
Sobre a interiorização do Brasil durante a união ibérica, cf. ELLIS JUNIOR, Alfredo. O
entretanto, as entradas empreendidas se tornaram mais grandiosas, contando com padres, índios, escrivães e outras figuras tidas como necessárias à tarefa de encontrar índios e as minas de esmeraldas tão comuns no imaginário dos colonos.118
O maior incremento dessas jornadas ocorreu justamente num momento de dificuldades para a economia local, a partir da década de 1630, parecendo figurar as mesmas também como subterfúgio para os problemas econômicos. Diante das dificuldades para o estabelecimento de uma estrutura produtiva mais sólida, a busca pelas lendárias esmeraldas foi uma alternativa que resultou em diversos empreendimentos concretos. Nesse sentido, vêem-se famílias investindo recursos próprios nas jornadas119
, oficiais da câmara captando donativos para a realização de entradas em 1668120
, capitães-mores se desentendendo com sertanistas enviados pelo governador-geral121
etc.
A própria coroa também interferia nessa busca. Em 1660 João Correia de Sá foi nomeado pelo rei “governador da descoberta das minas no Espírito Santo”.122 Também se aventurou no mesmo posto Agostinho Barbalho Bezerra em 1666, o qual teve rusgas com o capitão-mor.123
Quase duas décadas depois, Garcia Rodrigues Paes recebeu o posto de “capitão-mor das entradas e descobrimento das minas de esmeraldas”.124
E se poucas eram as pedras encontradas nessas ocasiões, o mesmo não se pode dizer quanto ao número de índios. Tratando do tema, John Monteiro125
é enfático ao afirmar que essas jornadas em busca das minas sempre resultavam em apresamento de índios, tendo, portanto, a importância de disponibilizar nativos para a catequese e para o trabalho, principalmente nas lavouras.
Como vimos, na transição do Quinhentos para o Seiscentos predominavam os indivíduos recém-chegados à capitania na dianteira da economia, com especial
118
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 26. 119
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 26. 120
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 63 A. 121
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 docs. 58 e 59. 122
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 50. 123
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 docs. 58 e 59. 124
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc 81. 125
destaque para cristãos-novos e espanhóis. Exceção à regra parece ter sido a família Azeredo, cuja notória trajetória no Espírito Santo foi inaugurada por Belchior de Azeredo, ainda no tempo do primeiro donatário. Celebrado por Estácio e Mem de Sá, Belchior se destacou por ocupar vários cargos na administração local, inclusive o de capitão-mor, e por prestar importantes serviços à coroa, tais como o combate a índios inimigos e a defesa contra as ameaças de invasões estrangeiras.126
Miguel e Marcos de Azeredo, seus sobrinhos, também se destacaram na realidade local, tanto do ponto de vista econômico, quanto no da administração capixaba.127
Há notícias sobre o funcionamento de dois engenhos pertencentes a membros da família em 1584 e em 1609.128
Mas não é pelo açúcar que os Azeredo mais são mencionados nas fontes durante o século XVII. Ao invés disso, Marcos de Azeredo e seus filhos Antônio e Domingos vez ou outra aparecem envolvidos às inúmeras entradas ao sertão do Espírito Santo realizadas naquele século, sempre em busca das minas de esmeraldas. A prática não era nova na família, visto que Belchior fez várias guerras às tribos inimigas, chegando a descer mais de duzentos índios do interior em 1573.129
Comprovando a idéia aqui apresentada, consta, em 1646, uma reclamação dos filhos de Marcos de Azeredo ao rei sobre a intromissão do Capitão-Mor Antônio do Canto de Almeida na jornada empreendida por eles naquele ano, filiando a tal intromissão o insucesso da tarefa.130
O acervo do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) fornece outras mostras dessa mobilização da família Azeredo, como o investimento de recursos próprios nas entradas131
, além dos repetidos desentendimentos com outros indivíduos envolvidos nas jornadas, tais como oficiais da câmara132 e capitães-mores133 etc. 126 OLIVEIRA, 2008, p. 101-102. 127
BARATA, Carlos Eduardo de Almeida; BUENO, Antonio Henrique da Cunha. Dicionário das
famílias brasileiras. São Paulo: Arvore da Terra, 2001.
128
SALVADOR, 1981. p. 74-75. 129
LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000. v. 1. p. 232.
130
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 26. 131
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 26. 132
Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc. 63 A. 133
Mas não somente a família Azeredo alimentava o anseio de encontrar ouro. O próprio Francisco Gil de Araújo, ao comprar a capitania, ostentava a possibilidade de encontrar esmeraldas e metais preciosos em seu sertão.134
Em 1675, ao relatar o péssimo estado local, ele sinaliza ao rei sobre o seu interesse de também organizar jornadas.135
É certo que havia a intenção de soerguer a capitania, mas a grande meta de Araújo era encontrar metais preciosos, o que não ocorreu.
Em resumo, durante o século XVII a principal aposta econômica dos grupos dominantes locais foi a busca pelas minas. Mais do que mero sonho pelo eldorado, formaram-se empreendimentos organizados que envolviam membros das mais antigas famílias da terra, a coroa, os donatários, os capitães-mores e indivíduos da corte. Desse modo, as entradas foram investimentos que, no caso do Espírito Santo, ocuparam grande espaço em meio às demais atividades, extrapolando o período da união ibérica e sendo constantes durante praticamente todo o Setecentos. De fato, a pista das diversas entradas ao sertão do Espírito Santo não estava tão equivocada, afinal o ouro foi encontrado exatamente numa faixa de terra então pertencente à capitania, no fim do século XVII.