Todas as lutas e guerras que Antonin Artaud travou, sejam, poética, teatrais, quando esteve trancafiado foram pelo corpo-sem-órgãos. Foram lutas por uma política menor, intensiva, não identitária, imanente à criação da vida. A busca era por construir um corpo ou mesmo desconstruir por meio da potência criativa da arte. Arte e vida estão unidas aqui por um teatro de construção de si, de desterritoralização, um teatro como ferramenta importante na sua capacidade de afetar.
O corpo-sem-órgãos não detém uma ordem fixa, um organismo. É uma recusa a todos os limites, sejam eles, temporais ou biológicos. Nesse corpo o fluxo circula de outra maneira. Um corpo de intensidade, de limiares, de dor. O corpo-sem- órgãos seria uma operação de resistência a tudo aquilo que o estratifica, o obstrui, ou seja, um engajamento por um corpo que não se contenta com o que é dado, que não busca reproduzir em si o modelo majoritário ordenador. Um corpo que não é mais um sistema organizado, mas que se compõe como uma matéria “intensa e intensiva” que vibra ou pulsa sob o organismo. É uma superfície por onde deslizam acontecimentos, velocidades que não estão canalizadas em distribuições e esquadriamento. Portanto, desarticula o corpo organizado em função de uma otimização. Abre-se assim, para dar passagem a outras funções. Tudo isso é fruto de uma operação, mas não está dado. É um combate incessante aos clichês, a uma cartografia cultural vigente. É uma tentativa de buscar frechas por onde possam passar intensidades que façam vibrar esse corpo, o expondo às forças do mundo. As forças são entendidas, nesse sentido, como instância diretamente responsável por desencadear a sensação naquele que entra em contato com ela. Abrindo-se para uma virtualidade que permite experienciar novas maneiras de ver e sentir. Porém,
não se chegaria a um fim como bem lembra Deleuze e Guatarri (2002): “Não é uma noção, um conceito, mas, antes de tudo, uma prática, um conjunto de práticas. Ao corpo sem órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite”.33 (2002, p. 28).
Este “novo corpo” resultado de tal operação seria da esfera do anárquico enquanto devir-guerrilheiro que organiza emboscadas contra o organismo, não orgânico, acefálico e vital. Por isso mesmo bombardeado por todos os lados ou como nos diz Lins (2011):
Corpo-sem-o-órgãos que foi, como Artaud, roubado pelo Divino, estuprado pelos deuses esfomeados, sugadores de energia humana, incapazes de caminhar no deserto sem se agarrarem às muletas, como homens ordinários, em guerra permanente contra o corpo atravessado por uma vitalidade não-orgânica.
Esta vitalidade faria extrapolar os limites impostos por uma forma de existência que tem na média, ou seja, nem além, nem aquém, seu padrão e, por assim ser, sua força disciplinadora.
Tudo aquilo que se coloca além ou aquém desse padrão médio de existência sente no próprio corpo e, portanto, na vida, os efeitos cruéis de uma lógica que permanentemente cria dispositivos de controle para a manutenção da ordem. Quando Artaud cria a metáfora do corpo-sem-órgãos, ele não quer nada menos que ultrapassar a lógica mediana que exige do homem um corpo disciplinado, retificado34. Ele acreditava num corpo como espécie de escrita viva no qual as forças
imprimem “vibrações”, ressonâncias e cavam “caminhos”.
33 DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Felix. Mil Platôs vol.3. São Paulo: 34, 2002, p. 28.
34 Este tema do corpo será mais bem aprofundado nos capítulos seguintes ao se discutir a relação
entre corpo e política, mais especificamente em Foucault. Para a discussão que aqui segue o que se busca é tomar consciência de como um certo padrão normativo implica, para a manutenção de sua existência, de um corpo organizado, ou seja, investido de controle. Dito de outra maneira, esta padronização necessita também ela da padronização do corpo, pois sem tal efeito pode-se causar uma verdadeira dissimetria e com isso sua falência. Claro, que pode se dizer, talvez, na mesma proporção que ela necessita também dos que extrapolam, pois só assim pode se fazer ver o caráter punitivo a quem extrapassou a média.
Para Lins, o corpo sem órgãos, é o que mantém o homem vivo:
É o desejo desejando o desejo. É uma dodecafonia mesclada à polifonia de um corpo vibrátil a quem nada falta, pois ele tem o infinito como premissa existencial, como abismo do Ser. Ele não procura para encontrar, mas para se perder na busca. Ora, a produção do corpo sem órgãos supõe, antes de tudo, energia, vida. (LINS, 2011, p. 46).
Criar para si um corpo sem órgão é reinventar-se.
O teatro de Artaud é uma luta contra o “homem-forma”, contra o corpo instituição (o Estado, a igreja, a família). A ideia de Artaud é da ordem da crueldade. Como partir de outro corpo, como retomar a vitalidade não orgânica. “Se quiserem podem me meter numa camisa de força, mas não existe coisa mais inútil que um órgão. Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então terão libertado dos seus automatismos e devolvido a sua verdadeira liberdade. Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas”.35
Criar espaços para vida, eis o que evoca a ideia do ‘corpo-sem-órgãos’. Espaços que implicam esvaziamento de certas representações do interior do corpo. Mas tomemos cuidado. Não tornemos o corpo sem órgãos como uma teoria ou como diz Deleuze e Guatarri “[...] num saber universitário, eliminando ao mesmo tempo seu processo de invenção e experimentação [...]”.36 É uma prática. Um
experimento intensivo. Para fabricar um corpo sem órgãos é preciso agenciar. Intensificar as forças. Deixando as linhas de fuga desterritorializar aquilo que está formatado.
Sendo assim, o corpo sem órgãos é uma recusa às formas que se impõe delimitando todo o seu raio de experimentação, de circulação, de pensamento. A ideia aqui é de uma matéria que engendraria sua própria forma, engendrando, portanto, formas outras de ver, de sentir, de se relacionar, de existência. Poderíamos
35 ARTAUD, Antonin. In: MÈREDIEU. Florence. op. cit. p.157. 36 DELEUZE, Gilles & GUATARRI, Felix. op. cit. p. 28.
contrapor aqui ao pensamento de uma segmentaridade dura para quem o processo de individuação seria a imposição da forma sobre a matéria, de uma forma ideal, pois já se teria um modelo a se alcançar.
Talvez, fosse essa a grande luta de Artaud, a recusa a uma segmentaridade dura que imporia uma imagem prévia do que seja um pensamento, um corpo, um modelo a ser seguido que conduziria o ser a um modo de existir. Ou seja, não possibilitando outros modos de experimentos da vida, cerceando a possibilidade do ser de viver outros possíveis. Por isso, ele tinha como projeto uma encenação que fizesse com que o espectador fosse submetido a um tratamento de choque emotivo, de maneira a libertá-lo do domínio discursivo e lógico para encontrar uma vivência imediata, uma experiência estética e ética original.
Pode-se pensar a obra de Artaud como uma radicalidade de modo de criação e como uma resistência artística. Como afirmação da arte como forma de resistência. A visão de uma arte engajada no e pelo devir sensível percorre toda sua obra. Ao insistir na necessidade de ‘acabar com as obras-primas’ ou atacar a escrita literária, Artaud pretende mostrar que o essencial da arte reside no seu núcleo intensivo, no que ela provoca e desencadeia – os devires sobre o corpo de quem cria e de quem contempla e que provocam uma mudança no próprio corpo da cultura e da civilização. O que importa é o interesse que uma obra pode gerar em cada um para se superar e viver para além das formas canônicas da cultura. Daí sua exigência de uma contaminação violenta pela arte, exposta em seus escritos sobre teatro.
Destruir os órgãos significa destruir as coerções sociais que impregnaram nosso ser físico-mental, psicossocial, sociocultural. Até porque para Artaud, era insuportável o condicionamento inato que pesava sobre o corpo, pois ele sabia que a vida, era determinada social, histórica, e politicamente “(...) Ela não é apenas influenciada e invadida de fora por contextos sociais. A sociedade é um dado quase inato ao corpo”. 37(UNO, 2007, p. 38). A arte era para ele um estado de exceção
37 UNO, K. As pantufas de Artaud segundo Hijikata. In: GRENER, Christine e AMORIM, Claudia (orgs). Leituras da morte. São Paulo: Annablume, 2007.
permanente que se colocava contra a reificação e homogeneização da vida.
O corpo sem órgãos é uma tentativa de rebelar-se contra sua própria existência para assim, atingir a vida. Eis que Artaud nos diz: “Para existir basta abandonar-se ao ser/mas para viver/é preciso ser alguém/e para ser alguém/é preciso ter um OSSO,/é preciso não ter medo de mostrar o osso/e arriscar-se a perder a carne”. (ARTAUD, 1938, p.151)38. Ou seja, a carne sendo tudo aquilo que
se sobrepõem a nós- a política, a sociedade, as instituições, as relações de poder- e que nos dão uma forma, um rosto, um modo de ser. Mostrar o osso, buscar o corpo sem órgãos é fazer aflorar um corpo selvagem, bravo, arisco, associal, arredio ao conformismo, a algo antecipadamente dado ou imposto por uma transcendência que nos direcionaria ao mero ser, ou se quiser, a mero sobrevivente. Existe nesse corpo que Artaud forjou algo de violento, de violador. Mas, que fique claro que quando se fala em violência, fala da violência para enfrentar o pensamento determinado, a imagem dogmática, o corpo-órgãos; a violência, pois, como potência positiva, como uma vontade de tudo; uma potência que encontra sua força inventiva no arrombamento.
Uma analogia possível a ser feita é a entre o corpo-sem-órgão, o pensamento-sem-imagem e o da produção de uma nova linguagem. Pois contém neles a chance do esvaziamento de tudo aquilo que os antecede e os engendram em algo. E com isso a viabilidade de fazer dizer o indizível e fazer ver o invisível. Mas como dizer o corpo, como dizer o indizível do corpo? Para o artesão do corpo sem órgãos, criando uma nova linguagem, inventando, isto é, criando problemas, vivendo perigosamente, portanto, tudo indica que em Artaud a criação estava muito mais próxima do perigo que do conforto aparente de uma produção de arte de entretenimento.
Em suma, buscar experimentar o corpo sem órgãos é o mesmo que assumir o perigo de se ter que matar o que ocidente constituiu como sendo o homem. E mais, ao matar o homem como ele foi conformado é matar também seu criador, Deus. Pois só assim poderia se reinventar um novo homem:
Quero dizer que descobri a maneira de acabar com esse/ macaco de uma vez por todas/ e já que ninguém acredita mais em Deus, todos acreditam/ cada vez mais no homem. / Como?/ como assim?/ sob qual ângulo o Sr. Não passa de um maluco, um/ doido varrido./ Colocando-se de novo, pela última vez, na mesa de autópsia para/ refazer sua anatomia./ O homem é enfermo e mal construído./ Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo/ que o corrói mortalmente,/ Deus/ e justamente com Deus os seus órgãos [...]. (ARTAUD apud LINS, 2011, p. 44).