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Q UALITATIVE M ETHODOLOGY , S UPPORTING THE C OMBINATIONAL S TUDY . 36

Marcuse (2002) estende sua análise das sociedades industriais avançadas para a tecnologia, que teria se tornado um veículo das formas de controle social. Nessas sociedades, vigoraria a crença de que os controles tecnológicos são uma expressão da razão a serviço do bem de todos os grupos sociais e interesses, de modo que qualquer oposição à tecnologia pareceria desnecessária, ou mesmo impossível. É importante observar que Marcuse faz uma distinçãoăentreă'técnica',ă“[...]ăentendidaăenquantoăconjuntoădeăinstrumentosăqueăpodemăserviră tantoă aoă controleă quantoă àă libertação”ă eă 'tecnologia,ă queă seriaă “[...]ă umă modoă deă produçãoă específico que utiliza aătécnicaăcomoăinstrumentoădeăcontrole”ă(PISANI, 2008, 61).

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A racionalidade tecnológica teria colonizado a vida cotidiana, impondo suas regras e estruturas sobre o pensamento e comportamento dos indivíduos, que ficariam desprovidos de sua liberdade e individualidade. Se as capacidades intelectuais e materiais da sociedade contemporânea nunca foram tão grandes, o escopo da dominação desta sobre o indivíduo é da mesma ordem de grandeza. Em vez da violência, é a tecnologia o recurso utilizado por essa sociedade para conquistar as forças de resistência, por meio do aumento da eficiência e dos padrões de vida (ibid.). Como observou Horkheimer (2004), o avanço da técnica tem sido acompanhado pelo declínio da autonomia do indivíduo e de sua capacidade de resistência à manipulação de massas, bem como do seu poder de imaginação.

Já não podemos, portanto, supor uma neutralidade da tecnologia, uma vez que esta não pode ser dissociada do uso que se faz dela, pois ela tem servido, em nossa sociedade, para a instituição de formas de controle e coesão sociais mais eficazes e mesmo prazerosos (MARCUSE, 2002). É importante destacar este último fator, pois a noção de controle tende a suscitar resistência, uma vez que está associada a coerção, restrição de liberdade ou manipulação. Ao se revestir de um caráter de prazer, o controle dissipa qualquer resistência contra si, podendo até mesmo ser desejado, o que maximiza imensamente sua eficácia. Quanto mais a tecnologia parece ser capaz de criar as condições para a pacificação, mais os corpos e mentes dos homens são organizados no sentido contrário dessa alternativa. A sofisticação da industrialização, de acordo com Marcuse (2002), pode servir à restrição e manipulação das necessidades. Nesse ponto, a dominação, sob a aparência de afluência e liberdade, se estende sobre todas as esferas das vidas pública e privada, integrando toda oposição autêntica. O caráter político da racionalidade tecnológica se evidencia quando esta se torna o principal veículo de uma melhor dominação, criando um universo totalitário.

O modo de organização da vida dos membros de uma sociedade pressupõe uma escolha entre alternativas históricas determinadas pela cultura material e intelectual que ela adquiriu. Tal escolha resulta da interação de interesses dominantes, sendo, portanto, um “projeto”ă dentreă outrosă possíveis,ă queă tendeă aă seă tornară exclusivoă eă determinară oă desenvolvimento da sociedade como um todo na medida em que permeia as instituições básicas e as relações. As sociedades industriais avançadas, enquanto universo tecnológico, são também um universo político, o último estágio da realização de um determinado projeto histórico: o de organização e transformação da natureza como mero recurso de dominação. O governo dessas sociedades só é assegurado mediante uma eficaz organização e exploração da produtividade técnica, científica e mecânica de que elas dispõem (ibid.). “Aă racionalidadeă

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técnicaăhojeăéăaăracionalidadeădaăprópriaădominação.”ă(ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 100).

De acordo com Douglas Kellner, na introdução da obra One-Dimensional Man (MARCUSE, 2002), as racionalidades científica e tecnológica descritas por Marcuse são ainda mais poderosas nos dias de hoje graças à informática, à expansão da mídia e ao desenvolvimento de novas técnicas de controle social. Não obstante, a sociedade estaria ainda mais irracional do que anteriormente. Isso não significa, todavia, uma inescapabilidade da sujeição do homem às formas de controle. Marcuse (2002), ao mesmo tempo em que acredita que as sociedades industriais avançadas são capazes de conter possíveis mudanças, enxerga forças e tendências que podem romper essa contenção e provocar uma grande ebulição social. Portanto, ainda que pareça se tratar de uma dominação completa e inescapável, essa mesma sociedade guarda o potencial para a sua própria destruição. É possível – e necessário – se pensar formas de resistência a essas forças de dominação em nossa sociedade, por mais engenhosos e sutis que sejam os seus métodos. Contudo, para que isso aconteça, é imprescindível reconhecer a existência dessas forças, uma vez que os discursos hegemônicos apregoam que vivemos no reino da plena liberdade e da abundância. É essa aparência que deve ser negada, para que possa emergir, do fenômeno, as causalidades históricas e sociais que o determinam.

No contexto contemporâneo da internet, discursos contraditórios costumam compor o debate sobre a utilidade desse recurso: enquanto uns o defendem como libertador e provedor de autonomia, outros enxergam nele um espaço de prolongamento de estratégias de dominação do sistema capitalista. Certamente, não podemos reduzir o debate a um maniqueísmo pautado em conceitos absolutos. É evidente que a internet possui um potencial de subversão e emancipação e constitui uma ferramenta de extrema valia para o homem, principalmente no que se refere à comunicação e à difusão do conhecimento. Todavia, por se tratar de um espaço bastante heterogêneo e plural, é necessário reconhecer que a internet também possui outras facetas e que está sujeita aos imperativos do sistema capitalista. Desse modo, devemos ressaltar que este estudo possui um enfoque que se aproxima deste segundo caso, embora não negue os outros usos que podem ser feitos da internet. Igualmente, a celebração eufórica da internet como reino da liberdade e da autonomia não pode encobrir esta outra faceta que queremos evidenciar neste estudo, que considera de grande valia as contribuições teóricas apresentadas até aqui, as quais podem permitir um uso de fato mais consciente e autônomo da internet, evitando a incursão em conclusões apressadas e

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potencialmente ingênuas, que tornam os indivíduos novamente vulneráveis às estratégias de dominação que procuramos denunciar neste estudo.

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3. CONSIDERAÇÕES SOBRE O INDIVÍDUO CONTEMPORÂNEO – ESPETÁCULO