• No results found

Pyrolysis-Gas Chromatography-Mass Spectrometry (Py-GC-MS)

1. Introduction

1.5 Lignin Analysis

1.5.2 Pyrolysis-Gas Chromatography-Mass Spectrometry (Py-GC-MS)

A palestra foi proferida no evento “Respostas ao racismo – produção acadêmica e compromisso político em tempos de ações afirmativas”. Promoção: Pós-graduandos em História, Cecut e IFCH – Unicamp em Data: 3 de dezembro de 2009, no Auditório do IFCH – Unicamp, Campinas.

No dia 31 de dezembro de 2000, no caderno “Mais” do jornal Folha de S. Paulo, o historiador Luiz Felipe de Alencastro, num texto breve de três parágrafos, fez previsões para o novo milênio que se iniciava.

No campo social, depois de referir-se a “desigualdades econômicas, educacionais, regionais, etc.”, rotineiras barreiras ao progresso do país, Alencastro introduz um “problema que não aparece no fio do horizonte, mas que poderia muito bem surdir por aí um dia desses, para melhorar a situação de todos nós”.

Um problema (algo que cobra uma solução, ‘por difícil de explicar ou resolver’) que estranhamente soluciona (resolve ou supera uma dificuldade). O problema que poderia

“melhorar a situação de todos nós” é o movimento negro.

Refiro-me à necessidade da emergência de um movimento negro, reivindicativo, estruturado, de escopo nacional, similar ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Situados majoritariamente nas camadas mais desfavorecidas da população, os negros polarizam todos os itens da dívida histórica e social do país. A afirmação da identidade negra, calcada na maioria cultural e na quase maioria demográfica formada pelos afro-brasileiros, poria em primeiro plano, com grande força política, todas as mazelas sociais e culturais do país. Nada indica que o surgimento de um movimento negro desse porte seja previsível no Brasil. Mas essa previsão precisaria ser desmentida.137

137

A “necessidade de emergência de um movimento negro” como condição de transcendência das mazelas sociais e culturais do país é expressão de um raro posicionamento nos meios intelectuais brasileiros.

Outras vozes já tinham chamado a atenção para a importância da presença do negro na história social brasileira. Octávio Ianni, por exemplo, em ensaio de 1986, dizia que essa presença “desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de vista crítico na Sociologia, nas Ciências Sociais e em outras esferas do pensamento brasileiro”.138

Ianni chamava a atenção então para a importância, na produção intelectual de Florestan Fernandes, das pesquisas sobre relações raciais, realizadas em São Paulo no início dos anos 50 do século passado, assim como na definição das matrizes da sociologia crítica, que se caracterizaria “como um estilo de pensar a realidade social a partir da raiz”.

O mesmo Florestan, numa tese apresentada ao I Congresso do Partido dos Trabalhadores, em 1991, criticava o partido por sua “ignorância palmar” da dinâmica dos movimentos sociais.

O movimento negro é o melhor exemplo. O significado revolucionário explícito e larval da raça, como categoria social, contém implicações e desdobramentos insondáveis. Pensar a revolução como possível, no Brasil, sem pôr lado a lado classe e raça, equivale a desperdiçar um arsenal nuclear que nunca funcionará como um todo dentro da ordem. O partido precisa realizar uma rotação para se desprender do horizonte cultural burguês e do seu senso comum, feito de estigmatizações e preconceitos, para encarar de frente o Brasil real e suas exigências históricas irreprimíveis.139

Antes, em 1987, Florestan definira a importância da ação política dos negros para a consolidação do processo democrático:

E como é urgente que o negro se organize, como fez no passado (nas décadas de 30 e de 40, em São Paulo e no Rio de Janeiro), em movimentos sociais que tenham por objetivo destruir as barreiras sociais e as barreiras raciais que são obstáculos a sua participação na economia, na sociedade civil, na cultura, no Estado etc. (...) Desse

138

IANNI, Octávio. “Sociologia crítica”. In: D’INCAO, Maria Ângela (Org.). O saber militante: ensaios

sobreFlorestan Fernandes. Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Paulo: Unesp, 1987, p.46.

139

FERNANDES, Florestan. O PT em movimento: contribuição ao I Congresso do Partido dos Trabalhadores. São Paulo: Cortez : Autores Associados, 1991 (Coleção Polêmicas do nosso tempo; v. 43.), p. 79.

ângulo o negro vem a ser a pedra de toque da revolução democrática na sociedade brasileira.140

O ‘negro’, o ‘movimento negro’ (e termos equivalentes como ‘questão racial’, ou ‘raça’) são vistos pelos autores citados como decisivos quer para o avanço dos estudos sociológicos (acentuando-se aqui a emergência de um ponto de vista crítico), quer para a definição de uma estratégia partidária de transformação radical da sociedade brasileira, quer ainda para a construção da democracia. O negro passa de objeto dos estudos sociológicos e outros a protagonista do processo político capaz de melhorar a vida de todos nós.

Voltando a Alencastro, o movimento negro, situado no centro dos acontecimentos políticos, é o grande catalizador do conjunto das questões econômicas, sociais, culturais. Mas Alencastro não esclarece porque a solução é um problema. Quais questões a existência de um movimento negro poderia levantar? A leitura atenta do fragmento não deixa dúvida de que existe um movimento negro no presente, de porte diverso daquele que se espera aparecer no horizonte. Um movimento que não possui a dimensão nacional, não reivindicativo, não estruturado, sem grande força política.

Curiosamente também o que poderia surgir no horizonte, um movimento negro redentor, deveria tomar como modelo o que já está aí. Embora não-rotineiro, portanto novo, seria análogo ao que já está aí. Podemos concluir, portanto, que o que não tínhamos naquele momento era um movimento negro similar ao MST.

A visão de Florestan acaba por valorizar uma dimensão instrumental do movimento negro, que deve servir ao condutor do processo da mudança revolucionária, o partido. Ainda que raça e classe devam ser colocadas ‘lado a lado’, fica evidente que a dimensão racial contém um potencial explosivo a ser manejado de todo modo pelo partido. Como “pedra de toque”, permanece ainda como meio de avaliar e aferir a justeza do processo democrático. Em Alencastro, o partido desaparece, e a força política do movimento negro se apoia na sua dimensão cultural majoritária e na quase maioria demográfica, mas seu modelo de organização e atuação origina-se em outro campo do movimento social.

140

Idem. “O negro e a democracia”. In: Significado do protesto negro. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1989 (Coleção Polêmicas do nosso tempo; v. 33), p. 24.

Nos fragmentos que buscamos aproximar, Florestan e Alencastro compartilham, no entanto, a compreensão da urgente necessidade da organização política dos negros – para o bem de todos, para o bem do partido, para o bem da democracia.

Florestan volta-se para o passado, para as décadas de 30 e 40, para os “paladinos, que assumiam o papel que os brancos deveriam desempenhar, na defesa da Constituição, do princípio da liberdade e da igualdade social entre todos os seres humanos no Brasil. Como os brancos não assumiam esse papel, eles próprios se tornaram os agentes de um processo de liberação coletiva, que não visava a aguçar conflitos, mas a erguer o padrão de dignidade moral de todos aqueles que foram enxotados do sistema de trabalho com a Abolição”.

Alencastro, por sua vez, fita o horizonte, o novo milênio que se anuncia. Mas é impossível não aproximar suas palavras daquelas com que Florestan analisou os movimentos negros no passado. Os negros são agentes de liberação coletiva (todos nós) e assumem uma tarefa negligenciada por outros possíveis protagonistas.

Na citação de Florestan, há uma frase que talvez possa ajudar a esclarecer a natureza problemática da solução vislumbrada por Alencastro, e de fato implícita na sua exposição, uma vez que a natureza problemática da solução pode começar a ser depreendida do contraste entre o movimento negro que existe (restritivo, limitado) e o movimento projetado (amplo, de alcance geral em seus benefícios).

A frase de Florestan no fragmento acima que julgamos elucidativa do problema é “que não visava aguçar os conflitos”. A possibilidade existia, mas os “paladinos” não dirigiram a vista (visar) para esse objetivo: aguçar os conflitos. Preferiram visar o processo de liberação coletiva.

Para ajudar ainda a definir o problema em que se constituiria o movimento negro, nos termos de Alencastro, deveríamos considerar que o negro polariza todos os itens da dívida histórica e social do país, e é de se supor que possam querer cobrar aquilo que lhes é devido. Essa dimensão, a do resgate da dívida histórica, cria a possibilidade de que se agucem os conflitos e permite a caracterização da solução como um problema também.

Florestan refere-se, em diferentes momentos, a ‘barreiras raciais’ e a “preconceitos e estigmatizações”, os quais pertenceriam ao universo cultural burguês e deveriam ser abandonados pelo Partido dos Trabalhadores, se queriam compreender a sociedade que

pretendiam transformar. Alencastro não faz alusão diretamente a preconceitos. Afirma que o negro está “situado majoritariamente nas camadas desfavorecidas da população” e alude a ‘mazelas culturais’ sem, no entanto, especificá-las.

Uma última dimensão do ‘problema’ pode ainda ser compreendida a partir da resposta de Fernando Henrique Cardoso a um entrevistador nos anos 70:

P: Você falou nos guetos americanos e na sua reação defensiva. Um movimento

negroagressivo não poderia levar a um novo tipo de racismo?

FHC: Pode, mas não necessariamente. E é um risco que devemos correr. Afinal,

omínimo que se espera de uma democracia é que reconheça e legitime a existência da diversidade social e até mesmo cultural. O que não se pode é algemar duplamente as minorias, primeiro com a opressão que sofrem e, segundo, condenando seu esforço para libertar-se, sob o pretexto de que fere uma igualdade abstrata que, para as minorias, nunca funcionou na prática.141

Por essa leitura, a organização política do negro embutiria também o risco de “um novo tipo de racismo”, o chamado ‘racismo às avessas’. Creio que essa formulação pode ajudar a compreender, em todo seu alcance, o sentido da palavra “problema” no texto de Alencastro.

Pode-se acrescentar ainda que Alencastro considera pouco viável a emergência, no futuro, de um movimento negro redentor do conjunto da nação. E sua dúvida me parece associada às limitações que atribui ao movimento negro contemporâneo, quando confrontado com o MST. Para Florestan, contudo, o movimento negro redentor já ocorreu no passado. Para Alencastro, não é certo (embora desejável) que ele ocorra no futuro. Bom no passado, uma possibilidade futura de redenção nacional (ainda que de ocorrência improvável), mas frágil e limitado no presente.

Julgo apropriado aproximar aqui uma reflexão de Hannah Arendt, extraída do prefácio de seu livro “Entre o passado e o futuro”:

Do ponto de vista do homem, que vive sempre no intervalo entre o passado e o futuro, o tempo não é um contínuo, um fluxo de ininterrupta sucessão; é partido ao meio, no ponto onde ‘ele’ está; e a posição ‘dele’ não é o presente, na sua acepção

141

Democracia para mudar. Fernando Henrique Cardoso em 30 horas de entrevistas. Rio de janeiro: Paz e Terra,1978 (Coleção Documentos da democracia brasileira; v.4). p.32.

usual, mas, antes, uma lacuna no tempo, cuja existência é conservada graças à ‘sua’ luta constante, à ‘sua’ tomada de posição contra o passado e o futuro.142

Nas duas visões apresentadas o presente fica meio suspenso, à espera do passado ou do futuro. Na visão de Arendt, o presente é um campo de luta constante, uma tomada de posição contra o passado e o futuro. O debate que nos propomos a estimular neste seminário quer pôr o presente do movimento negro em evidência e orientar-se em função dos acontecimentos e embates da hora presente, considerando um presente de longa duração, não-linearmente calculado na cronologia de meses e anos.

Demétrio Magnoli, sociólogo e articulista, declarou em artigo recente que “Não existe no Brasil um ‘movimento negro’ em nenhum sentido legítimo da palavra. As ONGs racialistas quase nada representam, além dos interesses e ideologias de seus próprios ativistas”.143

A ambivalência (existência passada ou um devir redentor versus apagamento no presente) que vimos em Florestan e Alencastro é afastada pela suposta autoridade que prescinde de qualquer requinte argumentativo para negar peremptoriamente a existência do movimento negro.

Podemos avaliar a importância que tem na argumentação a possibilidade de se negar desse modo radical a existência do interlocutor e pensamos que uma negativa tão categórica só poderia circular com um mínimo de fidedignidade por ampla rede midiática quando se amparasse numa larga tradição e encontrasse em sua produção condições políticas, culturais e ideológicas favoráveis.

Os negros, por essa visão, seriam desprovidos de uma identidade política. Florestan com o partido e Alencastro com o MST contribuíram, cada um a seu modo, na produção das condições em que se torna possível a radical negação de Magnoli. O que procuro formular é a necessidade de definirmos no presente o contorno dessa identidade tão negada, quer por suas referências culturais, quer por sua realidade política efetiva, quer ainda pela legitimidade e o alcance de suas propostas e reivindicações.

Alencastro e Florestan, para além de qualquer dificuldade de definição do lugar do movimento negro no presente, não hesitaram em projetar benefícios coletivos resultantes da

142

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 37.

articulação política dos negros. Uma vez que poderia gerar benefícios importantes para todos, caso existisse no presente, só nos resta investigar no presente suas condições de existência e suas motivações fundamentais.