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As informações da pesquisa nos revelam muitas críticas referentes ao contexto da militância negra mossoroense. Como veremos no decorrer do texto, tais críticas foram direcionadas, principalmente, à pouca experiência dos militantes negros para construir estratégias de combate ao racismo e a frágil articulação entre os mesmos. A frágil articulação dos militantes negros implica, entre outras coisas, na forma quase individual de buscarem elaborar as atividades consideradas de combate ao racismo e de afirmação da “identidade negra” em Mossoró. Vale ressaltar que, quando se fala na fragilidade da articulação entre os militantes negros, nos referimos, sobretudo, às discordâncias existentes entre os integrantes do Negro e Lindo e os ex-militantes do Raízes. As críticas mais fortes ao contexto da militância negra local, evidentemente, foram feitas pelos ex-militantes do Raízes. Os militantes do Negro e Lindo não deixaram de fazer autocrítica, mas de forma menos ortodoxa.

Um militante negro que participou do processo de formação do Raízes , mas que, atualmente, não está engajado na militância negra organizada destacou alguns pontos que ele considera como fragilidades da militância negra de Mossoró.

Eu considero que a gente tem em Mossoró uma militância negra. Acho que o que faltou foi a gente se profissionalizar em fazer movimento negro. E acho que ele é muito sazonal. Ele acontece duas ou três vezes por ano. Acontece no carnaval e no 20 de novembro. Então, acho que ele não é uma coisa que esteja no dia-a-dia. E que tenha uma assessoria jurídica para dar respaldo. Não existe denúncia de racismo em Mossoró. Mossoró é uma cidade muito racista e, no entanto, a gente não percebe denúncia acerca do racismo na cidade (Renato, 44 anos, solteiro, não tem religião, graduado).

Nesta fala, o entrevistado chama a atenção para dois dilemas da militância negra de Mossoró que, na sua visão, prejudicam o combate ao racismo na cidade. Primeiro, ele destaca que os militantes negros não conseguiram se preparar suficientemente para se organizar politicamente. Em segundo lugar, evidencia que a militância negra de Mossoró é muito sazonal, ocorrendo apenas no carnaval e no dia da Consciência Negra (20 de novembro). Os dois eventos que ele fala é o desfile de Maria Espaia Brasa e a Louvação à Baobá. Realmente a militância negra mossoroense se expressa, essencialmente, através dos dois eventos evidenciados pelo entrevistado. No aspecto de

não existir denúncias de racismo, as críticas do militante negro também são cabíveis ao contexto da militância negra de Mossoró. Numa outra entrevista, realizada com um ex- integrante do Raízes, ele nos falou que acha incipiente a militância negra de Mossoró.

Eu acho ainda muito incipiente e muito tímida, apesar do tempo que a gente tem se organizado nesse sentido. E do tempo que a gente vem discutindo. São sempre grupos bem pequenos e eu não sinto estes grupos crescerem. Tais grupos não cresce em diversos aspectos. Não cresce em quantidade e em qualidade também eles estão tendendo a não crescer. Porque as pessoas que entram na militância negra da cidade tem uma tendência muito grande a institucionaliza-la. Então, as pessoas estão com a intenção de transformar a militância negra de Mossoró numa ONG (o grupo Negro e Lindo). Não sei qual é o rumo que as pessoas estão querendo tomar. Eu ainda acho muito tímida esta militância negra de Mossoró (Otávio, 44 anos, casado, umbandista, Pós-graduado; grifos do pesquisador).

Na fala acima, as críticas foram direcionadas, sobretudo, a questão de alguns militantes buscarem institucionalizar o movimento negro da cidade. Na realidade, as críticas à militância negra de Mossoró envolvem diversos fatores relacionados à disputas por espaço e visibilidade dentro da militância. Devido a tais disputas, ocorrem os processos de desvinculação de alguns ativistas negros do movimento negro local. Diante do relato, perguntamos como ele via a atuação dos militantes negros de Mossoró e ouvimos estas palavras:

Olha! Eu não sei se é porque as pessoas são muito ocupadas. Tem muitas atividades. Mas, eu tenho a impressão de que não aprofundam a questão da discussão da problemática do combate ao racismo. Ficam muito naquela coisa da data comemorativa. Fica muito restrita a um período do ano e a uma determinada data comemorativa (Otávio, 44 anos, casado, umbandista, Pós-graduado).

Na fala do militante negro foi realçada a questão da restrição da militância negra da cidade às datas comemorativas e o pouco aprofundamento das discussões sobre o combate ao racismo. Além de evidenciarem dilemas da militância negra de Mossoró, tais críticas revelam também as discordâncias políticas que existem entre os militantes negros locais. O relato do entrevistado deixa evidente várias críticas aos integrantes do Negro e Lindo. Estas críticas não se vinculam apenas a questão estrita da militância negra, refletem também disputas de poder em outros espaços sociais. O Negro e Lindo possui apoio da prefeitura municipal para realizar um dos seus eventos. Este apoio dado

pela prefeitura municipal para realização do desfile de Maria Espaia Brasa foi um dos fatores que mais criticaram. É importante ressaltar que foi justamente depois deste apoio da prefeitura que ocorreu um maior distanciamento entre os militantes Negro e Lindo e os ex-militantes do Raízes.

Para um dos ex-militantes, existe uma certa correlação entre o atual contexto da militância negra de Mossoró com o discurso de cidade da liberdade. Isso porque, na sua compreensão, os eventos do Negro e Lindo têm o mesmo caráter festivo das comemorações do 30 de setembro em Mossoró.

Eu vejo muita desarticulação dentro do contexto político da discussão sobre racismo e negritude em Mossoró. Porque as pessoas que se preocupam com esta temática fazem parte de uma elite intelectual da cidade. Então, como aqui em Mossoró as pessoas que fazem parte desta elite cultural ou intelectual são muito dependentes da gestão oficial, elas acabam fazendo sempre algum evento ou alguma ação apenas para marcar uma data comemorativa. Eu não vejo esta preocupação de se chegar mais próximo das pessoas que ficam mais distantes. Das que tem menos acesso a esta discussão do racismo (Elena, 41 anos, casada, não tem religião, curso superior incompleto; grifos do pesquisador).

Na fala acima, fica mais claro a crítica relativa à aproximação do Negro e Lindo das lideranças políticas locais. Para os ex-militantes do Raízes, os militantes do Negro e Lindo se ligaram às lideranças políticas locais, promovendo um distanciamento entre eles. Isso nos possibilita afirmar que tais críticas extrapolam a esfera da militância negra, envolvendo questões relativas às dinâmicas e ao espaço do poder político local.

Como destacamos logo no inicio desta seção, as críticas ao contexto da militância negra mossoroense não se restringem apenas aos ex-militantes do Raízes. Uma das principais integrantes do grupo Negro e Lindo falou sobre a realidade da militância negra de Mossoró, destacando também a sua pouca abrangência perante a sociedade local.

Hoje a militância pode ser expressa nas ações dos indivíduos e menos nas ações do movimento organizado. Nesse sentido, eu considero que a militância negra em Mossoró está mais restrita no ano de 2006. Apesar de mais presente na agenda pública a questão do negro e mais pessoas se auto-proclamarem como negros. Mas a ação sistematizada da militância negra tem sido fragilizada nestes últimos anos (Fátima, 43 anos, casada, católica, pós-graduada).

Já uma outra integrante do Negro e Lindo buscou enfatizar que as dificuldades referentes à organização da militância negra em Mossoró estão relacionadas ao fato dos militantes negros serem muito atarefados nas suas vidas profissionais. Para ela, a dinamicidade da vida profissional dos militantes negros faz com que não disponham de muito tempo para se dedicarem a organização da militância negra de Mossoró.

A gente está com mais de vinte anos com o movimento negro. Mas a gente não conseguiu ainda ter a quantidade de pessoas suficiente para discutir a sua negritude. A gente tem esta dificuldade. Uma porque as pessoas que estão dentro da militância são muito atarefadas e com vidas profissionais diferentes. Uma é professora, outros trabalham no comércio ou no banco. Aí fica difícil se organizar. Geralmente, a gente se encontra nos finais de semana. Quando temos tempo ou pelo telefone para se discutir alguma coisa. Mas, isso é muito dificultoso. A questão da organização não é só do movimento negro é de qualquer organização política (Júlia, 41 anos, solteira, umbandista, graduada).

As informações obtidas sobre a realidade da militância negra mossoroense, durante os dois meses do trabalho de campo, evidenciam um contexto de discordâncias entre os militantes do Negro e Lindo e os ex-militantes do Raízes. Na nossa compreensão, tais discordâncias segmentam a militância negra mossoroense e dificulta a organização de uma ação mais abrangente no combate ao racismo. Também refletem as disputas de poder entre os próprios militantes, indicando o caráter de conflito existente no interior do movimento negro local. Isso implica que, mesmo lutando por uma mesma causa, há entre os militantes negros outros interesses que podem se sobrepor à questão da luta contra o preconceito racial. Portanto, um movimento negro, como qualquer outro movimento social, não configura uma realidade uniforme. Ele é dinâmico e situacional e está estritamente relacionado com a conjuntura social e política locais, envolvendo, sobremaneira, seus participantes nas múltiplas relações sociais que têm entre si.

O contexto da militância negra de Mossoró possui vários desafios, tanto de ordem interna como externa. Mas, apresenta as suas positividades relativas à luta contra o racismo. Mesmo não tendo uma atuação constante de combate ao racismo, os militantes negros de Mossoró conseguem dar uma certa visibilidade à questão do “negro”. Tanto na Louvação à Baobá como no desfile de Maria Espaia Brasa, há atualmente mais visibilidade destes eventos na cidade. Isso porque há uma maior divulgação nos jornais locais da realização destes eventos. E a boneca Maria Espaia

Brasa consegue aglomerar muita gente em seu desfile. Então, por mais que tenham dilemas e dificuldades, os militantes negros de Mossoró continuam realizando as suas mobilizações. Fato que nos permite afirmar que o movimento negro local não deixou de atuar, mesmo depois da desarticulação do Raízes.